Soube hoje, através do Filinto, no Esgravatar, que a «Columbia Journalism Review» abriu uma secção em que acolhe contribuições dos jornalistas que estão a deixar a profissão sobre a razão por que o fazem ou, simplesmente, para que avancem as suas conclusões sobre a actual situação do sector e sobre o que está a acontecer à indústria jornalística. Deixo convosco, aqui, o meu ensaio sobre a matéria. Pobre, mas sentido...O Jornalismo anda pelas ruas da amargura, e em Portugal, onde já tudo e todos se vêem obrigados a correr por essa mesma rua, a actividade jornalística encontra-se hoje ainda mais abaixo do que no resto do mundo dito desenvolvido. A meu ver, os verdadeiros jornalistas já não são muitos e o Jornalismo tem dias contados. Até lá, enquanto o fim não chega, a profissão vai atirando borda fora uns quantos incautos, fartos dos ordenados que são pouco mais do que mínimos e dispostos a trocar uma paixão por uns trocos a mais no final do mês. Não os condeno. Como não condeno os ratos que abandonam o barco ao primeiro sinal de perigo. E há muito tempo que o Jornalismo está em perigo. Se a crise – e é sempre ela que “paga o pato” – minou um terreno que há alguns anos dava bons frutos, quando a exigência ainda era um dos caminhos mais directos para a excelência, actualmente há muito mais factores que concorrem para o fim da actividade jornalística do que a mera perda do poder de compra dos portugueses (que nunca foram dados a ler jornais) ou o advento e o crescimento da internet.
A imprensa portuguesa – e falo desta área, porque é a que conheço melhor, mas é também a que terá maiores dificuldades em sobreviver diante do imediato da rádio, da imagem televisiva e do “dois em um” de qualquer site, noticioso ou não –, não é hoje mais do que uma sombra, ténue e difusa, da imprensa de outros tempos. São mais as empresas que fecham do que as que abrem, são mais as que não vendem do que as que vendem pouco, os gratuitos conquistam espaço e leitores aos jornais tradicionais, e o rasgo dos profissionais, o dinamismo que poderá fazer a diferença, caiu irremediavelmente em desuso. Hoje, mais do que dar notícias, formar/informar, reportar ou explorar um dado, interessa encher páginas, casar artigos de interesse mais ou menos duvidoso com anúncios ainda menos importantes, e fazer dinheiro. A qualidade do produto já não conta. Afinal, a efémera manchete de hoje será, com toda a certeza, usada para embrulhar o peixe de amanhã.
A sede de desbravar caminhos novos, por vezes inóspitos e sem saída, mas tantas vezes profundamente interessantes e memoráveis, perdeu-se na azáfama de quem tem de atirar para as bancas páginas e páginas, e tem cada vez menos meios, não só humanos, mas sobretudo humanos, para fazer face ao volume de trabalho cada vez maior e mais deslavado. O jornalista transformou-se num ser amorfo, cinzento e sem opinião formada sobre nada, com um horário a cumprir, acorrentado apenas a um salário risível e ao desafio de viver 30 dias com aquele montante. Os jornais passaram a fechar cada vez mais cedo, sem ter em conta notícias importantes, que têm de sobrar para o dia seguinte. A investigação morreu, pura e simplesmente! A Agência Lusa investiga, e na manhã seguinte todos os jornais publicam o mesmo exacto texto, sem o cuidado de ouvir mais alguém ou acrescentar o que quer que seja à informação primeira, que já correu todas as emissoras de rádio e televisão. Reina o facilitismo e, como tal, reina a mediocridade. É este o nosso Jornalismo.
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