quinta-feira, 7 de abril de 2016

A experiência sociológica nas salas de espera dos hospitais portugueses


Por causa de um súbito e intenso mal-estar de uma amiga, entre o Centro de Saúde e o Hospital de Faro passei ontem uma bela tarde a limpar com o rabo as cadeiras de salas de espera da Saúde nesta cidade. Até aqui nada de surpreendente, de tão conhecida que é a realidade do funcionamento dos sistemas de saúde em Portugal! É de facto digna de estudo a forma como as coisas se passam nesta área no nosso país! A história começa logo no atendimento na Linha Saúde 24, a que a minha amiga recorreu numa primeira fase, por viver na Cidade de Faro há relativamente pouco tempo e não ter ainda, apesar de já ter feito o pedido em Agosto do ano passado, médico de família atribuído! Nesta linha, apesar de considerarem que o problema dela poderia ser bastante grave e carecer de intervenção imediata e até de exames complexos (TAC, por exemplo), enviaram-na para o centro de saúde, onde algumas horas depois lhe foi explicado pela médica que a atendeu que nenhum dos exames que permitiriam despistar as suspeitas que tinham do mal que a acometia podiam ser realizados ali! Nice... Fomos então para o Hospital. Deixei-a à porta da Urgência e quase uma hora depois quem precisava de atendimento urgente era eu, tal foi a dificuldade em encontrar um lugar legal para estacionar o carro sabia-se lá por quanto tempo! Acabei por deixar num parque pago, já que nestes sítios, já sabemos, há sempre lugares que chegam e sobram para as necessidades. Go figure! Entrei finalmente na urgência, onde fui encontrar a minha amiga, já com a triagem feita, de pulseira amarela no pulso, na sala de espera correspondente: para quem não sabe, o Hospital de Faro tem uma sala de espera para os "verdes" e outra para os "amarelos", e nada para as outras cores, suponho que pelo optimismo desenfreado de quem acha que mais urgentes "laranjas" e "vermelhos" poderão ser todos atendidos no imediato. Oh, santa ingenuidade! Um placard na parede informava que a espera prevista para os doentes "amarelos" era de 1h30. Brincalhões, os senhores que se dão ao trabalho de escrever estas coisas num placard numa parede de uma sala de espera atafulhada de gente crente no que os olhos deixam ver que é uma mentira completa! Ainda não eram 16h00 e na sala ecoavam frases como "estou aqui há quatro horas", "estou aqui desde as 9h00" e afins... Entre espera, atendimento, exames, novo atendimento, diagnóstico, medicação e saída da urgência, a minha amiga precisou de mais de cinco horas. Eu já lá esperei sete, só para chegar a ver a cara do médico, e por isso, tristemente, tenho de concluir que este até nem foi um caso assim tão dramático de espera. Mas estar umas horas fechada numa sala de espera com gente tão diversa e tão patusca como a que ontem pude apreciar merece, garanto-vos, aprofundado estudo. Permanecer numa sala de espera de um centro de saúde ou de um hospital português - ou, se tiverem sorte, dos dois na mesma tarde - é uma experiência sociológica que quase nos convence de que há mesmo cromos (e, para nossa desgraça, nem são assim tão raros) como os que vê quem vê os "reality shows" de domingo à noite da TVI. É que eu, pelo menos até ontem, acreditava que aquela gente era fabricada. Que eram actores, foleiros mas actores, pagos para se fazerem passar por pessoas "normais"... Ontem, porém, vi e ouvi de tudo naquela sala. Desde pessoas que exalavam de cada poro um cheiro nauseabundo a suor de meses ou de ciganos que garantiam ter planos para ter "mais sete ou oito filhos, que são a alegria de um pai" (abençoados rendimentos mínimos!), ou ainda de homens a dizer que iam "para o tasco enfiar copos de whisky para enganar as dores" a ignorantes orgulhosos na ostentação da sua ignorância: uma estava espantada, e crente de que tinha descoberto o "esquema para nos enganarem" de toda a gente ter pulseira amarela. Achava ela que era um embuste "para ninguém se queixar da espera": "Dão pulseira amarela a todos e assim ninguém sabe quem é o mais grave nem quem deve ser atendido primeiro". Expliquei-lhe que aquela era a "sala dos amarelos" e que era apenas por isso que todos tinham a tal pulseira amarela. Olhou para mim como se eu lhe explicasse como se põe a trabalhar um foguetão da NASA e nem se dignou a responder. A mesma criatura atreveu-se depois a debater questões políticas com as vizinhas de infortúnio: dizia ela, ante o espanto generalizado dos poucos que tinham dois dedos de testa e que o destino sentara naquele espaço diminuto atulhado de cadeiras com e sem rodas, que os jornais e as televisões nos enganam todos os dias. Arregalei os olhos, num primeiro momento, pensando que de facto sairia daquela cabecinha pensadora uma ideia estruturada, mas a senhora saiu-se com esta: "Não percebo como é que dizem que estamos numa democracia se temos um Presidente da República! Se isto fosse uma democracia, teríamos de ter um Presidente da Democracia! Não percebo por que é que dizem que vivemos numa democracia", insistia a senhora. Eu, neste particular, estou com ela. Não sei como pode alguém dizer que se vive numa democracia num país cujos destinos são escolhidos pelo voto deste tipo de pessoas. Democracia? A malta vive é num circo!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Porque não basta ter cérebro, é preciso saber usá-lo...



Gosto de pensar que tenho um cérebro e que sei usá-lo. Não digo que sou um novo Einstein, ou coisa que o valha, mas gosto de pensar pela minha cabeça – acho que ela serve também para isso, e não apenas para experiências com os champôs e os colorantes da moda –, de ter opiniões minhas, fundamentadas pelo meu conhecimento e pela carga empírica que a vida me vai pondo em cima dos ombros. Não entendo, por essa razão, aquela coisa tão tipicamente portuguesa de “emprenhar pelos ouvidos”. Fulano diz-nos uma coisa (normalmente diz mal de Beltrano), e nós, sem tentar sequer averiguar se o que ele diz é verdade, passamos a ter um ódio de morte pelo Beltrano, esse escroque que se finge de simpático mas na verdade deve ter a chave do Inferno debaixo da almofada que usa para dormir! :P

Convenhamos... As opiniões de cada um são isso mesmo: opiniões de cada um. Se uma pessoa – mesmo que seja o teu melhor amigo – tem uma má opinião sobre algo ou alguém, convém que percebas, antes de tomares as dores dele, se essa opinião é válida. Se tem de facto uma razão de ser, ou se resulta, como tantas vezes acontece, do diz-que-disse da malta da zona! Eu, como já disse, gosto de pensar pela minha cabeça. Foi assim que nasceu o nome deste blog, aliás! Numa certa noite do longínquo ano de 2003, quando falava com um amigo sobre tantas e tantas coisas que nos enchem os dias, disse-me ele que achava interessante o facto de eu nunca fazer juízos de valor sobre pessoas e realidades que não conhecia. Que achava muito sensato o facto de eu não tecer comentários, bons ou maus,  sobre determinada coisa, até ter pelo menos a chance de a conhecer com os meus olhos, com os meus ouvidos e com a minha capacidade de pensar. Para esse meu amigo, a minha era uma mente despenteada que recusava ser penteada por pentes alheios. Gostei da metáfora, e assim ficou.

Ao longo dos últimos meses tenho confirmado o que, bem no fundo, sempre soube: as pessoas não pensam. Preferem comer a papa que outros prepararam, que dá menos trabalho e no fim é menos a louça que têm para lavar. É sempre mais fácil dizer, quando se prova que estão errados, que “foi fulano que me disse”. Os fulanos mentem. Premeditadamente ou não, por maldade ou ignorância, por descuido ou impreparação, as pessoas mentem, adulteram, traficam ideias que nem sempre correspondem à verdade. E as outras pessoas ouvem, assimilam, não questionam sequer a veracidade dessas ideias. Pois eu não vou por aí. Eu questiono tudo, e depois destes meses a confirmar como a humanidade pode ser mentirosa, dissimulada e hipócrita, faço ainda maior questão de pensar por mim. Costumo dizer que tenho olhos grandes para poder ver bem. E mesmo não tendo orelhas de abano, gosto de pensar que têm o tamanho suficiente para me fazer chegar o que preciso de ouvir. E tenho cérebro, para usar, para pensar, para desconstruir conceitos e construir novas ideias, minhas e só minhas.

Acusam-me frequentemente de ser demasiado frontal. Politicamente incorrecta, verdadeira além da conta, se é que me entendem. Pode ser. Pode ser que, como me dizem, isso me tenha prejudicado ao longo da vida. Nisso acredito piamente, nem contesto. É mais do que certo que por diversas vezes me dediquei a causas que não mereciam o meu empenho e me aproximei de pessoas que não tinham nível para aguentar a minha amizade, ou sequer para a apreciar, até porque as pessoas só gostam de nós enquanto lhes dizemos o que querem ouvir e lhes damos “oupas” às opiniões e aos juízos de valor que proferem, por mais toscos que sejam. Ora, eu não gosto de ser tosca. Estive quase 10 meses na barriga da mãe, acho que tenho a obrigação de ter nascido bem acabada! E por isso, caros amigos, não tenciono mudar uma vírgula na minha forma de ser e de agir, que é sempre – disso faço questão – educada e respeitadora, mas não servil e idiota. Quem não gostar da pinga pode sempre mudar de tasco! ;)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Por que é que as pessoas não têm filhos?

Muitas pessoas têm a mania dos filhos. Se os têm só falam deles, se os não têm fazem contas ao dia em que hão-de tê-los ou lamentam o tempo que perderam a preparar-se para os ter até ao momento em que, quando estavam prontas, já ser demasiado tarde. Se as pessoas não se perguntam por que é que (ainda) não tiveram filhos, há sempre alguém pronto a fazer essa pergunta por elas! "Então, quando é que tens um filho?", "Para quando o rebento?", "Já estão juntos há tanto tempo, não pensam nisso?!"...

Bem sabemos que a população portuguesa está envelhecida, e que faz falta que nasçam muitas crianças, mas nem toda a gente pode ou quer contribuir para esse crescimento demográfico, ainda que reconheça nele um desígnio nacional premente! O que me choca nem é tanto a pergunta, mas antes a insistência, a cobrança, a ideia de que é obrigatório a quem está num relacionamento estável ou atinge uma certa idade o projecto de ter um "rebento". Ou vários. E depois aquela ideia nojenta de que "uma mulher sem filhos é incompleta, é apenas meia-mulher"...

Ter filhos não é nem pode ser algo imposto pelos outros. Ter filhos, ou não os ter, é um assunto nosso, do foro íntimo de cada um de nós, do casal, da família, de cá de casa. Privado! Sei que nem sempre há maldade na pergunta, mas caramba... Se duas pessoas estão juntas há cinco, 10, 15 anos e não têm filhos, ou é porque não querem ou é porque não podem, não vos parece claro?! Parem de perguntar, de exigir, de cobrar um prazo para o que nunca vai acontecer!

Já vos passou pela cabeça que essa pergunta que repetem até à exaustão ecoa todos os dias na cabeça de milhões de pessoas em todo o mundo, como uma obrigação a satisfazer para gáudio e capricho de terceiros, para quem é fraco e não pensa pela própria cabeça, ou como uma triste confirmação de uma incapacidade, de um "defeito" que nos tolhe e nos deprime, se ter filhos era algo que queríamos muito, desde miúdos, mas que afinal nos é impossível ter? "Para quando um rebento?", perguntam vocês. E para quando meteres-te na tua vida, perguntamos nós!

Por circunstâncias imensas e muito variáveis há pessoas que não podem ter filhos ou que escolheram não os ter. Get over it! Mesmo sendo pessoas amorosas, que adoram crianças, que se emocionam com as crianças dos outros, há pessoas que nunca vão ter filhos, fixem bem isto! Habituem-se à ideia! E parem de os exigir, de os reclamar! Porque um dia destes a pessoa farta-se de ouvir a pergunta e quando lhe perguntarem pelo rebento arriscam-se a que ela vos rebente a cara toda! Just saying... 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Do amor, que é cego e louco...


Tenho um amigo que está a sofrer por amor. Bem, pelo menos um! É possível que tenha vários amigos acometidos pelo mesmo mal, mas apenas este o demonstrou de forma inequívoca e falou comigo sobre o assunto. Ouvi-o, tentei dar-lhe bons conselhos. Não que seja guru nestas coisas, mas com o saber feito de quem ajudou outras pessoas com problemas semelhantes, e de quem, há anos-luz, tantos que parecem já ter pertencido a outra existência, também sofreu dos males do coração. Acontece aos melhores...

O meu amigo só quer ser feliz. Diz que encontrou a pessoa que há-de fazê-lo feliz, e que ele quer fazer feliz. Eu não acredito em pessoas felizes. Ninguém é feliz. Há momentos felizes, e todos os queremos em grande número, mas não é possível ser-se feliz a toda a hora, e por isso ninguém “é” feliz. As pessoas “estão” felizes em dado momento, “ficam” felizes quando estão com outras pessoas, quando partilham com elas os melhores momentos das suas vidas, mas ninguém “é” feliz, e sobretudo ninguém faz outra pessoa ser feliz. Nem por amor, nem por falta de amor (há pessoas que mais nos vale que não nos amem, acreditem!).

O amor é simples. Verdadeiramente simples, na verdade. Como quase tudo na vida. O amor tem uma lógica: duas pessoas encontram-se, apaixonam-se, querem estar juntas. Amam-se. O chato é quando o processo é unilateral, e um ouve campainhas e sente borboletas no estômago de cada vez que o outro se aproxima, mas o outro revela a sensibilidade de uma pedra... E isso é complicado. O amor é simples, o não-amor é uma complicada tormenta...