terça-feira, 27 de agosto de 2013

Obrigada, bombeiros portugueses!

Foto: Nuno André Freire/Agência Lusa

Há no fogo uma grandeza que assusta. Que nos impele à fuga, ao instinto de sobrevivência. Que nos faz ter medo, querer salvar o que é nosso mas, sobretudo, querer salvar a nossa pele, e a pele dos que amamos. E há homens e mulheres, grandes, superiores a tudo isso, que abdicam da tranquilidade nos dias, e nas noites, para, naquele que será porventura o maior esforço solidário do mundo, assumirem, sob duras condições, a luta contra esse inimigo, poderoso e letal.

A luta é desigual, como nos mostram as notícias mais recentes e as de anos anteriores: pelas minhas contas, são já quatro os bombeiros apanhados pelas chamas nos incêndios dos últimos dias. Homens e mulheres que se entregaram a uma batalha que não era deles, para salvar bens e pessoas que não lhes eram nada, num acto heróico e acima do que é capaz o ser humano comum, muito mais apto a lutas absurdas por razões ainda mais obtusas.

Quatro pessoas perderam a vida nos incêndios dos últimos dias em Portugal. Há também feridos, mais ou menos graves, há desespero estampado nos rostos de milhares de pessoas, há perdas e danos elevados e, para as famílias destes bombeiros, perdas e danos irreparáveis. Há revolta também. E a minha vai sobretudo para os agentes causadores deste drama que ano após ano se renova no nosso país. Todos os anos, haja mais ou menos calor, mais ou menos chuva, mais ou menos justificação, há milhares de hectares de floresta que simplesmente desaparecem, arrastando na voragem das chamas os pertences de famílias inteiras e, bem mais grave do que isso, a vida e a razão de viver de muitas pessoas. 

Não tenho palavras para expressar a dor que sinto por essas vidas que se perdem, pois sei o que é perder alguém que se ama acima de tudo e de todas as coisas. Não quero entrar em polémicas sobre quem devia ter enviado as condolências às famílias e o não fez, porque as vidas que se perderam são muito mais importantes do que isso, e as pessoas que assim perderam a vida merecem muito mais respeito e atenção do que qualquer polémica colateral. Estas pessoas não tinham de morrer! Não era esta a hora delas. Estavam a ajudar outras pessoas, mereciam viver muito mais anos apenas por isso. E no entanto foram apanhadas por incêndios ateados tantas vezes por seres menores, sem escrúpulos, sem uma réstia de humanidade...

Aos bombeiros falecidos deixo o meu incomensurável respeito. Às famílias enlutadas sentidas condolências. Às corporações de bombeiros e a todas as pessoas que ao lado deles enfrentaram as chamas e tentaram minorar os danos, o meu agradecimento. Como cidadã, como ser humano, como pessoa atenta e que já esteve em cenários difíceis como os que estas pessoas enfrentaram, ainda que apenas como jornalista, sei o que sofrem, o quanto se entregam, a força que conseguem inventar nos braços e nas pernas para nunca desistirem. Não há palavras que tranquilizem agora as famílias e os amigos que os perderam para sempre. A não ser a convicção de que eram heróis e morreram como tal. Não é, nem de perto, uma consolação, mas há-de servir para que, um dia mais tarde, consigam sorrir ao pensar neles. E esse sorriso, sei-o bem, será a prova de que o amor vence todas as barreiras, mesmo a da morte, e de que quem ama ama mesmo para sempre...

Obrigada, bombeiros portugueses!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O jardim da minha alma já não vive onde vivia...

“Se protegeres com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão”. Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Quando era miúda, principalmente depois do nascimento da minha primeira irmã, quando a minha mãe ficou em casa a cuidar dela e deixou de poder acompanhar-me todas as manhãs no caminho para a escola e todas as tardes no regresso a casa, costumava percorrer sozinha um longo caminho a pé. Saía do colégio, depois das aulas e de ter feito os trabalhos de casa, e partia ao encontro do meu pai, num ponto previamente definido de onde depois seguíamos juntos para casa. Chegava quase sempre antes dele, e por isso, com a experiência de fazer aquele caminho, comecei a treinar o passo e a saber onde e por quanto tempo podia parar sem correr o risco de me atrasar para lhe cair nos braços e contar como tinha sido o meu dia.

Algures nesse caminho, quase a chegar ao cruzamento onde nos encontrávamos, havia uma casa com muros altos, amarelos, e um imenso jardim, com árvores e flores, que todos os dias espreitava da rua. O jardim escondia a fachada da casa, porque eram altas as árvores, mas parecia nunca estar ninguém. E eu ficava ali, largos minutos, a contemplar em silêncio aquele jardim imenso, e a casa de fachada escondida onde não parecia haver ninguém para apreciar a beleza singular daquele quadro. Um dia, não sei se com coragem ou desmedida ousadia – é quase a mesma coisa, não é? – fiz mais do que apenas contemplar o jardim. Abri o portão e entrei, como se a casa fosse minha, naquela casa amarela de muros altos. Andei por ali, deambulando entre as flores, abraçando as árvores, falando com borboletas e outros bichos que voavam à minha volta. Não apareceu ninguém para me repreender.

Voltei no dia seguinte, e de novo entrei sem que ninguém aparecesse para me proibir ou recriminar. No dia seguinte também, e no outro dia, e no outro, e no outro… Aquele passou a ser o meu ritual diário no regresso do colégio. Nunca contei a ninguém que entrava todos os dias naquele jardim, e que ficava ali a falar com as árvores, as flores, os pássaros e as borboletas. Não sei se alguma vez alguém me viu, ou se alguém sabia daquele meu encontro vespertino com a Natureza, e talvez comigo, com a minha própria alma. Ali, naqueles minutos em que passeava por entre o verde do jardim e o amarelo dos muros altos da casa, sentia-me bem. Estava sozinha, mas era como se estivesse rodeada de amigos. Falava com eles, rodopiava entre as árvores, abraçava-as, inventava diálogos em que era uma princesa e os meus amigos imaginários eram príncipes, cavaleiros, donzelas e criadas, pessoas e animais capazes de dançar comigo, de partilhar comigo os seus devaneios, as suas crenças, os seus medos e os seus maiores sonhos.

Talvez já naquele tempo fosse louca. Talvez houvesse já dentro de mim aquela loucura em que hoje me revejo com prazer e aceitação, como se não houvesse outro remédio senão aceitar-me exactamente como sou, gostando até de ser exactamente assim. Já não danço entre flores, nem abraço árvores, e às vezes sinto falta disso. Sinto que me perdi da criança que fui, que jurei que seria sempre, no dia em que deixei de passar naquela rua, no regresso da escola, e de invadir os muros altos da casa amarela. Aquele era o meu jardim secreto, o jardim secreto da minha alma. Ali encontrava todos os dias o meu sorriso, a minha vontade de rodopiar entre as árvores, na minha dança com as borboletas. Naquele jardim, que por minutos era meu e apenas meu, sentia-me ser. Deixava-me ser, sentir, voar de dentro de mim para o mundo inteiro à minha frente…

Entretanto cresci. E às vezes tenho saudades de ser assim. De ser criança. De ser aquela criança que invadia casas de muros altos, que se permitia construir o jardim da sua alma nos jardins das casas dos outros. Há dias voltei àquela rua. Por acaso, sem premeditar. Procurei a casa amarela de muros altos, e ela lá estava. Mas os muros, que ainda são altos, já não são amarelos. São cinzentos, tristes, apagados. E o jardim já não é jardim, mas antes um enorme pátio de cimento onde há carros estacionados. A casa já não é uma casa. É a sede de uma empresa, com reclamos luminosos e amplas janelas de vidro duplo. A fachada foi alterada, e da casa não sobra qualquer magia daquele tempo em que ali construí o jardim da minha alma e rodopiei entre árvores e flores, dançando com as borboletas e falando com príncipes e princesas, cavaleiros e criadas que viviam apenas na minha imaginação.

Percebi então que o jardim da minha alma já não vivia ali. Que não há agora um espaço físico para esta magia que há dentro de mim e que me faz acreditar em príncipes e princesas, no amor e na saudade, no estar só mas sem deixar de ser feliz nessa solidão. Sei que a minha alma ainda floresce, luxuriante e rebelde como sempre foi, mesmo que não haja um lugar no mundo onde pessoas normais possam ver o meu jardim crescer. Sei que há flores dentro de mim, que há árvores que me abraçam e borboletas que esvoaçam enquanto falam comigo. Sei que mais ninguém vê o jardim que cresce à minha volta. Talvez pensem que sou doida quando me vêem falar com as plantas e os animais. Quando me vêem rir sozinha, sem perceberem que afinal não estou só. Estou comigo, no jardim da minha alma. Estou num lugar onde consigo abraçar quem amo, mesmo que já tenha partido, e em que consigo sorrir e ver a luz do sorriso das pessoas mais importantes da minha vida. Este é o jardim da minha alma. E era, até hoje, secreto. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Porta-a-porta: das vendas ao espancamento de portas fechadas...


Antigamente, sempre que alguém tocava à campainha cá de casa, tínhamos o hábito de abrir a porta, ou de pelo menos ir ver quem era e ao que vinha. Com o tempo, porém, constatámos que na maior parte das vezes quem toca anda a pregar a fé, a vender qualquer coisa ou a pedir, para si ou para as festas anuais da freguesia. Depois de anos e anos a sofrer na pele o “privilégio” de ser alvo preferencial das acções de telemarketing de tudo o que era empresa do ramo, agora, talvez porque deixámos de ter telefone fixo, já ninguém nos telefona. Agora é no porta-a-porta que se materializa o calvário! É raro o dia em que, aqui na rua, não andam pessoas engravatadas e com pastas debaixo do braço, sorrisos mais amarelos do que a gema do ovo e exacerbados ataques de simpatia que soam a tudo menos a genuína alegria por verem quem está por detrás das portas que se vão abrindo. A nossa raramente se abre. E se vemos que é disso que se trata, vendedores e outros pregadores, mesmo que nos vejam entrar em casa, quando tocam agimos como se não estivesse ninguém. E tocam uma vez, às vezes duas, e depois desistem.

Hoje o surreal aconteceu. Vimos do terraço que andava um dos tais engravatados a bater a todas as portas e a tentar impingir a quem as abria qualquer coisa entre telefones e televisão por cabo. Ele não nos viu, e por isso viemos para dentro de casa e prontamente decidimos que não abriríamos a porta quando o tal homem tocasse. E ele tocou. Tocou uma vez, tocou duas, tocou três. Surpreendida com a insistência, pensei em ir lá abaixo dizer-lhe que não tínhamos interesse no que quer que ele estivesse a vender, mas tendo em conta que estava ocupada e que, se não abri a porta à primeira nem à segunda, não fazia sentido abri-la à terceira, continuei a fazer o que estava a fazer. Aparentemente, o fulano desistiu. Cinco minutos depois, quando já ninguém se lembrava do tal homem, da gravata, dos telefones e do sorriso da cor da gema do ovo, o som estridente da campainha fez-se ouvir de novo, e de novo por três vezes.

Entre a incredulidade perante a insistência e a raiva que começava a nascer-me cá dentro, estava prestes a vociferar qualquer coisa quando ouvi – pasme-se! – o homem a bater à porta com o punho cerrado. Como se quem não tivesse ouvido a campainha (e só um surdo de pedra conseguiria tal proeza, ainda por cima com o cão a ladrar como se viesse aí o fim do mundo) ouvisse, por artes mágicas, os nós dos dedos a bater na porta! Por fim a criatura marchou e nunca mais foi vista, mas ficou no ar a pergunta: que espécie de desespero leva um vendedor de telefones que anda de porta em porta, de rua em rua, a massacrar de tal maneira as campainhas, os batentes e os próprios nós dos dedos?! Que acham estas pessoas que têm assim de tão importante para dizer que não há, da outra parte, a possibilidade de simplesmente não haver qualquer interesse em ouvi-los? Ou, mais grave ainda, como é que não pensam que pode não estar ninguém em casa, porque tal como eles as outras pessoas também têm empregos e sítios onde estar durante a tarde?!

Foi então que me lembrei da minha curta – curtíssima – incursão no mundo das vendas porta-a-porta. Não durou mais do que uma manhã, e só me apanharam lá porque na entrevista de emprego em que tinha estado no dia anterior me disseram que o trabalho era na área da publicidade e da distribuição, e ninguém me falou no porta-a-porta. Disseram-me para me vestir bem, formal, e usar calçado confortável, e antes de sair do escritório, com o que depois soube serem dois vendedores, ninguém me disse para onde íamos. Mas adiante, que as técnicas de recrutamento actuais são o que todos já sabemos: diz-se o mínimo sobre direitos, explica-se bem os deveres, elogia-se a função que nos atribuem até que enjoemos dela, antes mesmo de começar, e depois percebemos, na prática, que nada era o que parecia ser. Aguentei uma manhã a andar de porta em porta com os tais vendedores de telefones. Um deles, o “chefe de equipa”, tecia rasgados elogios à minha “atitude”, dizia gostar muito da minha “postura”, “educada e curiosa”, talvez por eu fazer muitas perguntas a que ele nem sempre sabia dar uma resposta convincente.

Durante essa manhã eu apenas tinha de ver “como se fazia”. Não tinha de fazer ou dizer nada, apenas “aprender” com “a equipa”. Ainda assim, para não ser completamente enfadonho, passaram-me para as mãos um mapa com o nome das ruas que íamos “visitar” e os números de todas as portas a que teríamos de bater, sendo a minha missão anotar, à medida que avançávamos, e em cada um dos quadradinhos, se havia pessoas em casa, se tinham telefone fixo, quando pagavam de assinatura mensal e se estavam satisfeitas com o serviço. Caso ninguém abrisse a porta, tinha de assinalar no mapa que não estava ninguém e, nesse mesmo dia, teria de voltar a tocar à mesma campainha da parte da tarde. A missão era, portanto, andar o dia inteiro no mesmo quarteirão, a bater a todas as portas, a subir a todos os andares de todos os prédios, a falar com os velhotes que nos abriam as portas (durante o dia há muitos velhotes sozinhos em casa) como se sofresse de um qualquer problema mental que mantinha o sorriso amarelo como a gema do ovo cravado na minha cara, e a tentar impingir-lhes o telefone (e até tínhamos um, dentro de uma caixa, que o meu “colega” oferecia a todas as pessoas que abriam a porta, dizendo-lhes: “Este telefone é para si, é uma oferta” (que depois lhes tirava da mão quando as pessoas diziam que não estavam interessadas no serviço que estávamos a vender).

Para mim bastou. Se quisesse enganar velhotes tenho a certeza de que seria capaz de o fazer autonomamente, por minha conta e risco, gastando muito menos solas de sapatos e muito menos hipocrisia! Não estava interessada e disse logo à “equipa” que aquilo não era para mim. Uma vez mais o chefe elogiou a minha “atitude e postura”, por “ter ido observar antes de recusar”, por “não ter dito logo que não”. Tive a certeza de uma coisa: é preciso ser forte para ser vendedor de porta em porta. É preciso ser fisicamente possante, capaz de simular simpatia até ao infinito, mentir quando nos perguntam pelo intercomunicador o que queremos (porque ninguém abre a porta a quem diz que anda a vender telefones). Não é mesmo para qualquer um. Mas mais do que isso tudo, é preciso ter pouco amor-próprio também, e ajuda se formos uns grandes chatos. E chatos já vi muitos, no porta-a-porta e em muitos outros lugares que por todo o lado agora se transformam em pontos de venda de qualquer coisa. O que nunca tinha visto era um chato desesperado como o engravatado que hoje me bateu à porta. Tocar à campainha de uma pessoa meia dúzia de vezes em meia dúzia de minutos e depois ainda ousar bater à porta com os nós dos dedos não é coisa de gente normal…