quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O jardim da minha alma já não vive onde vivia...

“Se protegeres com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão”. Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Quando era miúda, principalmente depois do nascimento da minha primeira irmã, quando a minha mãe ficou em casa a cuidar dela e deixou de poder acompanhar-me todas as manhãs no caminho para a escola e todas as tardes no regresso a casa, costumava percorrer sozinha um longo caminho a pé. Saía do colégio, depois das aulas e de ter feito os trabalhos de casa, e partia ao encontro do meu pai, num ponto previamente definido de onde depois seguíamos juntos para casa. Chegava quase sempre antes dele, e por isso, com a experiência de fazer aquele caminho, comecei a treinar o passo e a saber onde e por quanto tempo podia parar sem correr o risco de me atrasar para lhe cair nos braços e contar como tinha sido o meu dia.

Algures nesse caminho, quase a chegar ao cruzamento onde nos encontrávamos, havia uma casa com muros altos, amarelos, e um imenso jardim, com árvores e flores, que todos os dias espreitava da rua. O jardim escondia a fachada da casa, porque eram altas as árvores, mas parecia nunca estar ninguém. E eu ficava ali, largos minutos, a contemplar em silêncio aquele jardim imenso, e a casa de fachada escondida onde não parecia haver ninguém para apreciar a beleza singular daquele quadro. Um dia, não sei se com coragem ou desmedida ousadia – é quase a mesma coisa, não é? – fiz mais do que apenas contemplar o jardim. Abri o portão e entrei, como se a casa fosse minha, naquela casa amarela de muros altos. Andei por ali, deambulando entre as flores, abraçando as árvores, falando com borboletas e outros bichos que voavam à minha volta. Não apareceu ninguém para me repreender.

Voltei no dia seguinte, e de novo entrei sem que ninguém aparecesse para me proibir ou recriminar. No dia seguinte também, e no outro dia, e no outro, e no outro… Aquele passou a ser o meu ritual diário no regresso do colégio. Nunca contei a ninguém que entrava todos os dias naquele jardim, e que ficava ali a falar com as árvores, as flores, os pássaros e as borboletas. Não sei se alguma vez alguém me viu, ou se alguém sabia daquele meu encontro vespertino com a Natureza, e talvez comigo, com a minha própria alma. Ali, naqueles minutos em que passeava por entre o verde do jardim e o amarelo dos muros altos da casa, sentia-me bem. Estava sozinha, mas era como se estivesse rodeada de amigos. Falava com eles, rodopiava entre as árvores, abraçava-as, inventava diálogos em que era uma princesa e os meus amigos imaginários eram príncipes, cavaleiros, donzelas e criadas, pessoas e animais capazes de dançar comigo, de partilhar comigo os seus devaneios, as suas crenças, os seus medos e os seus maiores sonhos.

Talvez já naquele tempo fosse louca. Talvez houvesse já dentro de mim aquela loucura em que hoje me revejo com prazer e aceitação, como se não houvesse outro remédio senão aceitar-me exactamente como sou, gostando até de ser exactamente assim. Já não danço entre flores, nem abraço árvores, e às vezes sinto falta disso. Sinto que me perdi da criança que fui, que jurei que seria sempre, no dia em que deixei de passar naquela rua, no regresso da escola, e de invadir os muros altos da casa amarela. Aquele era o meu jardim secreto, o jardim secreto da minha alma. Ali encontrava todos os dias o meu sorriso, a minha vontade de rodopiar entre as árvores, na minha dança com as borboletas. Naquele jardim, que por minutos era meu e apenas meu, sentia-me ser. Deixava-me ser, sentir, voar de dentro de mim para o mundo inteiro à minha frente…

Entretanto cresci. E às vezes tenho saudades de ser assim. De ser criança. De ser aquela criança que invadia casas de muros altos, que se permitia construir o jardim da sua alma nos jardins das casas dos outros. Há dias voltei àquela rua. Por acaso, sem premeditar. Procurei a casa amarela de muros altos, e ela lá estava. Mas os muros, que ainda são altos, já não são amarelos. São cinzentos, tristes, apagados. E o jardim já não é jardim, mas antes um enorme pátio de cimento onde há carros estacionados. A casa já não é uma casa. É a sede de uma empresa, com reclamos luminosos e amplas janelas de vidro duplo. A fachada foi alterada, e da casa não sobra qualquer magia daquele tempo em que ali construí o jardim da minha alma e rodopiei entre árvores e flores, dançando com as borboletas e falando com príncipes e princesas, cavaleiros e criadas que viviam apenas na minha imaginação.

Percebi então que o jardim da minha alma já não vivia ali. Que não há agora um espaço físico para esta magia que há dentro de mim e que me faz acreditar em príncipes e princesas, no amor e na saudade, no estar só mas sem deixar de ser feliz nessa solidão. Sei que a minha alma ainda floresce, luxuriante e rebelde como sempre foi, mesmo que não haja um lugar no mundo onde pessoas normais possam ver o meu jardim crescer. Sei que há flores dentro de mim, que há árvores que me abraçam e borboletas que esvoaçam enquanto falam comigo. Sei que mais ninguém vê o jardim que cresce à minha volta. Talvez pensem que sou doida quando me vêem falar com as plantas e os animais. Quando me vêem rir sozinha, sem perceberem que afinal não estou só. Estou comigo, no jardim da minha alma. Estou num lugar onde consigo abraçar quem amo, mesmo que já tenha partido, e em que consigo sorrir e ver a luz do sorriso das pessoas mais importantes da minha vida. Este é o jardim da minha alma. E era, até hoje, secreto. 

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