Foto: Nuno André Freire/Agência Lusa
Há no fogo uma grandeza que assusta. Que nos impele à fuga, ao instinto de sobrevivência. Que nos faz ter medo, querer salvar o que é nosso mas, sobretudo, querer salvar a nossa pele, e a pele dos que amamos. E há homens e mulheres, grandes, superiores a tudo isso, que abdicam da tranquilidade nos dias, e nas noites, para, naquele que será porventura o maior esforço solidário do mundo, assumirem, sob duras condições, a luta contra esse inimigo, poderoso e letal.
A luta é desigual, como nos mostram as notícias mais recentes e as de anos anteriores: pelas minhas contas, são já quatro os bombeiros apanhados pelas chamas nos incêndios dos últimos dias. Homens e mulheres que se entregaram a uma batalha que não era deles, para salvar bens e pessoas que não lhes eram nada, num acto heróico e acima do que é capaz o ser humano comum, muito mais apto a lutas absurdas por razões ainda mais obtusas.
Quatro pessoas perderam a vida nos incêndios dos últimos dias em Portugal. Há também feridos, mais ou menos graves, há desespero estampado nos rostos de milhares de pessoas, há perdas e danos elevados e, para as famílias destes bombeiros, perdas e danos irreparáveis. Há revolta também. E a minha vai sobretudo para os agentes causadores deste drama que ano após ano se renova no nosso país. Todos os anos, haja mais ou menos calor, mais ou menos chuva, mais ou menos justificação, há milhares de hectares de floresta que simplesmente desaparecem, arrastando na voragem das chamas os pertences de famílias inteiras e, bem mais grave do que isso, a vida e a razão de viver de muitas pessoas.
Não tenho palavras para expressar a dor que sinto por essas vidas que se perdem, pois sei o que é perder alguém que se ama acima de tudo e de todas as coisas. Não quero entrar em polémicas sobre quem devia ter enviado as condolências às famílias e o não fez, porque as vidas que se perderam são muito mais importantes do que isso, e as pessoas que assim perderam a vida merecem muito mais respeito e atenção do que qualquer polémica colateral. Estas pessoas não tinham de morrer! Não era esta a hora delas. Estavam a ajudar outras pessoas, mereciam viver muito mais anos apenas por isso. E no entanto foram apanhadas por incêndios ateados tantas vezes por seres menores, sem escrúpulos, sem uma réstia de humanidade...
Aos bombeiros falecidos deixo o meu incomensurável respeito. Às famílias enlutadas sentidas condolências. Às corporações de bombeiros e a todas as pessoas que ao lado deles enfrentaram as chamas e tentaram minorar os danos, o meu agradecimento. Como cidadã, como ser humano, como pessoa atenta e que já esteve em cenários difíceis como os que estas pessoas enfrentaram, ainda que apenas como jornalista, sei o que sofrem, o quanto se entregam, a força que conseguem inventar nos braços e nas pernas para nunca desistirem. Não há palavras que tranquilizem agora as famílias e os amigos que os perderam para sempre. A não ser a convicção de que eram heróis e morreram como tal. Não é, nem de perto, uma consolação, mas há-de servir para que, um dia mais tarde, consigam sorrir ao pensar neles. E esse sorriso, sei-o bem, será a prova de que o amor vence todas as barreiras, mesmo a da morte, e de que quem ama ama mesmo para sempre...
Obrigada, bombeiros portugueses!

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