quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Um pobre não gosta de se sentir pobre, por muito pobre que seja...
Um pobre nunca gosta de sentir que parece pobre, por muito pobre que realmente seja (é ou não é verdade?), e por isso é que, embora fuja deles a sete pés e lhes diga sempre que não estou interessada, não consigo evitar ficar um pouco triste quando um dos senhores dos quiosques Barclaycard dos centros comerciais olha para mim e decide não meter conversa. Pensará ele que não tenho estaleca para ter um cartão de crédito?! Logo eu, que gosto tanto de compras?!
Mau mesmo foi daquela vez em que, num centro comercial do Grande Porto, uma senhora que tentava impingir o dito cartão a todo e qualquer um que por ela passasse, ficou cheia de pena de mim quando lhe disse que estava desempregada há vários anos e que, mesmo que eu quisesse, ninguém me daria um cartão de crédito. Perguntou-me ela se não teria “um biscatezito, a fazer limpezas ou assim”.
Tenho de dizer que nada tenho contra as senhoras que fazem limpezas, pelo contrário! Só tenho admiração pela garra que têm para um trabalho que é exigentíssimo, muito puxado fisicamente e que, como é normal neste país, é muito mal pago. Mas caramba... por que raios achou aquela criatura que eu poderia ter “um biscatezito, a fazer limpezas ou assim”?!
Hoje fui às compras ao shopping e, apesar de vestir roupa simples e estar no meu natural estado de descabelamento, o senhor do Quiosque Barclaycard lá meteu conversa. “É só um minuto”, dizia ele. Demorou um bocadinho mais. Quando me ouviu dizer que estou desempregada desde 2009 franziu o sobrolho, fez um estalido com os lábios, aquele ar de pena... E depois perguntou-me se não gostaria de trabalhar no quiosque do Barclaycard. Ora aí está um desfecho inusitado para a tal conversa de um minuto sobre cartões de crédito para pobres que não gostam nada de parecer pobres.
Quando lhe perguntei por que rodam tanto os funcionários destes quiosques, não se atrapalhou – o que me fez gostar dele. Vê-se que tem veia de vendedor. “Sim, há uma grande rotatividade, porque este é um trabalho muito desgastante”, esclareceu. Eu, que até acredito que seja muito desgastante tentar vender cartões de crédito a quem os não quer ou não pode tê-los, completei a versão do meu gentil interlocutor, questionando-o se esse desgaste não resultaria da tal rotatividade elevadíssima, e se esta não se deveria ao facto de não venderem nada e por isso não cumprirem os objectivos irrealistas que lhes são impostos por quem os contrata.
Garantiu-me que não. Que “há pessoas a conseguir um rendimento mensal muito elevado”, e deu como exemplo colegas que chegam a receber mais de dois mil euros por mês. Ora, pegando numa anterior conversa que mantive há uns anos, em Vila do Conde, com outro funcionário de um quiosque destes, e tendo como verdade o que me disse - que por cada contrato celebrado o vendedor recebe 15 euros, pagos contra a emissão de recibo verde -, fiz as contas: para alguém receber dois mil euros teria de vender 133 cartões por mês. Isto sem passar recibo verde, porque como nesse caso metade do que se ganha vai para impostos, a criatura teria de impingir mais de 250 cartões por mês para chegar aos tais dois mil euros! Alguém acredita nisso? Eu não. Sou pobre, mas não sou pobre de espírito!
E assim se conclui, em pouco mais de um minuto, que a lábia de um vendedor o faz dizer coisas disparatadas com o ar mais sério deste mundo, como se de facto acreditassem no que dizem. Vim de lá com pena do rapaz, que todos os dias se veste e perfuma elegantemente para estar ali, horas a fio, de pé, a pedir “um minutinho” às pessoas que passam e se esforçam por ignorá-lo. Gostei dele pela resposta pronta que soube dar-me, não tanto pela mentira descarada em que queria que eu acreditasse. Despedi-me com um sorriso e um “dois mil euros?! Nem você acredita nisso”. Ele sorriu também e lá ficou, a desgastar-se...
Centro Comunitário de Estoi promove Jantar de S. Martinho solidário
O Centro Comunitário de Estoi realiza no próximo dia 14 de Novembro, sábado, pelas 19h30, na sua Tenda de Eventos, o seu Jantar de S. Martinho. Trata-se de um evento de solidariedade, cuja receita reverterá para a compra de equipamento para o parque infantil e materiais didácticos para a Creche e Jardim-de-Infância «O Caracol».
Os bilhetes, que dão acesso ao jantar (lombo com castanhas) e ao programa de animação, têm um preço unitário de 20 euros, e poderão ser adquiridos no Centro Comunitário ou na creche, podendo ser reservados através do endereço de e-mail tendadeeventos.ccestoi@gmail.com. A organização disponibiliza ainda, para quem tiver essa necessidade, o transporte da Aldeia de Estoi para o evento, assim como o regresso a casa no final da festa.
Para mais informações: 289 998 402 – 927 200 825 – 963 936 450
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Faro: Animais de Rua na Festa da Abóbora da Sardinha de Papel
O Núcleo de Faro da Animais de Rua vai, no próximo dia 31, sábado, participar activamente na Festa da Abóbora que a loja de artesanato Sardinha de Papel (Rua Conselheiro Bivar, nº 83, na baixa da cidade) vai promover com a presença de todos os artesãos que têm o seu trabalho exposto e à venda naquele espaço comercial.
No âmbito da parceria celebrada em finais de Agosto, que permite à Animais de Rua expor de forma gratuita na loja os seus artigos de merchandising, para que possam ser ali adquiridos por quem pretenda apoiar o trabalho de esterilização massiva de animais abandonados e carenciados que a associação leva a cabo, o Núcleo de Faro da AdR foi também convidado a fazer parte da festa.
Assim, os voluntários da Animais de Rua apresentarão também a concurso uma abóbora decorada a preceito para o evento. Não estará sujeita a prémio, como a dos restantes expositores participantes, pelo simples facto de que ao vencedor será oferecida a próxima mensalidade relativa à presença na loja, a cujo pagamento a AdR, por ser uma causa social e de promoção do bem-estar animal, não está vinculada.
Não obstante, o Núcleo de Faro da Animais de Rua quer contar com a presença de todos, e com os votos de quem apreciar a sua abóbora. A festa vai ter contos de horror, workshops, pinturas faciais e muita música, assegurada por Tony Love DJ Set. O arranque da celebração está programado para as 16h00, mas a diversão deverá invadir a noite e a madrugada de domingo, dia 1 de Novembro. Apareça, vote na sua abóbora favorita e divirta-se! Vai ser uma festa de assombro!
Mais informação aqui!
CIAA promove leilão solidário para ajudar animais
O CIAA – Combate à Indiferença e ao Abandono Animal está a promover desde o passado dia 24, no Facebook, um leilão solidário. O objectivo desta iniciativa, a que poderá associar-se clicando aqui, é a angariação de fundos para ajudar o CIAA, um empenhado grupo de cidadãos que trabalha exclusivamente em regime de voluntariado, a suportar o enorme volume de despesas decorrente do facto de, neste momento, ter a seu cargo cerca de meia centena de animais.
Entre peças de roupa, livros, brinquedos, vouchers para massagens e sessões fotográficas, entre outros artigos, são já perto de 100 as propostas a que pode aderir, com preços a partir de 1 euro. Ao licitar já estará a ajudar os muitos animais abandonados ou negligenciados, feridos ou a necessitar de tratamento médico urgente, esterilizações ou outro tipo de assistência. Entre no grupo e ajude, licitando os produtos disponíveis ou doando novos artigos para leiloar. A vida destes animais depende de si!
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Crazy cat ladies ou nem por isso...
Alexandra Falardo tem
37 anos e é voluntária da Animais de Rua desde 2011, altura em que fundou,
praticamente sozinha, o segundo núcleo da associação no Algarve (o primeiro
tinha sido criado em Lagos, cerca de um ano antes). Tem actualmente 15 gatos em
casa, a maior parte deles recolhida em situações de risco e destinada a adopção.
Enquanto aguardam o dia em que finalmente terão o lar e a família que merecem,
vão ficando. E entretanto vão chegando mais…
Joana Silva tem 23
anos, é uma das mais recentes voluntárias do núcleo (função que acumula com o
voluntariado no Canil de S. Francisco, em Loulé, na Cruz Vermelha e no Refúgio
Aboim Ascensão). Além de participar nas capturas, é família de acolhimento
temporário de quatro gatos e recentemente acolheu, por alguns dias, um cão
jovem que encontrou junto a um contentor do lixo.
Alexandra e Joana não
são duas “crazy cat ladies” como as que vemos nos filmes. Não são velhotas
solteironas e rabugentas que conspurcam as ruas com sacos de arroz cozido e que
“armazenam” gatos para mascarar a solidão. São jovens sensíveis e atentas ao
mundo que as rodeia, que não resistem ao ímpeto de ajudar e proteger animais em
risco, e que fazem de tudo para lhes assegurar uma vida mais digna, mais
tranquila e mais feliz.
Quando uma gata de
rua morre no parto e deixa órfãs, com minutos de vida, cinco bolinhas ainda sem
pêlo, o que pode um ser humano fazer? Virar costas sorrateiramente, como quem
não viu nada, e convencer-se de que não podia ajudar? Ou pegar nos gatinhos,
embrulhá-los em mantas quentes, no calor do coração enternecido, e dispor-se a
criá-los a biberão, alimentando-os de duas em duas horas, de dia e de noite,
sabendo que eventualmente perderá um, ou dois, ou três…, mas que com sorte
conseguirá salvar algum? Para Alexandra a questão nem se coloca! Se há hipótese
de salvar uma vida, mesmo que remota, se é possível, ainda que muito difícil, é
esse o caminho.
Joana pensa e age da
mesma forma. Se um animal precisa de um lar, de um porto seguro, mesmo que
temporário, que importa se a casa está lotada? “Cá em casa é assim que os
animais são educados: com muito carinho”, dizia há dias num post do Facebook, ilustrado
com uma fotografia que acabaria por servir de cartaz numa campanha de
angariação de famílias de acolhimento do Núcleo de Faro da Animais de Rua. Não
é tarefa fácil. Encontrar famílias que se disponham a acolher um cão ou um gato
de rua, ajudando a prepará-lo para ser adoptado e feliz, é tão complicado como
encontrar voluntários com tempo e vontade para ajudar nas capturas, no
transporte para as clínicas, na distribuição de ração, nos eventos, na venda de
merchandising…
O Núcleo de Faro da
Animais de Rua, como a generalidade das associações, tem poucos voluntários, e são
quase sempre os mesmos a acudir a todas as situações. Não são super-heróis, mas
todos os dias salvam vidas. Não têm capa e espada, nem sequer poderes
inimagináveis ao homem comum, mas todos os dias vestem a camisola do amor pelos
animais, e tudo fazem para lhes dar as condições de vida e de dignidade que merecem.
Todos os dias acordam e adormecem a pensar nos cães e nos gatos que só conhecem
porque outros os abandonaram ou negligenciaram. Têm vitórias para celebrar e
derrotas para lamentar. Vidas que ganham, vidas que perdem. Faz parte. Às vezes
choram, mas são mais, felizmente, as vezes em que sorriem. Estão com os animais
de rua, de coração, todos os dias e todas as noites. Sempre.
Texto e foto: CARLA TEIXEIRA
Publicado no jornal «Barlavento» de 15 de Outubro de 2015
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