terça-feira, 26 de junho de 2012

Parabéns para mim!


O dia ainda mal nasceu e foram já muitas as pessoas que tiraram um bocadinho do seu tempo para me darem os parabéns e desejarem um dia feliz. Fizeram-no pessoalmente, por mensagens SMS ou de e-mail, pelo Facebook, de viva voz ao telefone... A todos o meu agradecimento e o meu sorriso mais sincero. Que tenham em dobro tudo aquilo que me desejarem!

Obrigada ao meu pai e à minha mãe, que num dia de inspiração me deram livre trânsito para esta vida, e que em todos os dias que se seguiram a esse transpiraram para me ajudarem a ser quem sou. Fruto do seu trabalho, da sua dedicação, do amor presente que sempre me deram, dos ensinamentos que comigo partilharam, do tanto que sempre me ensinaram, resultou este eu singular e único, indagador e por vezes resmungão, insatisfeito crónico, lutador e resistente. A eles devo tudo, a eles agradeço cada momento. Tem sido uma grande viagem!

Às minhas irmãs agradeço a luz que trouxeram à minha vida, uma de cada vez, e a concretização de um desejo que me acompanhava desde sempre. Com elas partilho o meu quotidiano, as minhas dores e o meu sofrimento, as alegrias e as tristezas, as vitórias e as derrotas, as conquistas e os sonhos mais audaciosos. Com elas aprendi a cuidar, a proteger, a partilhar, a sentir que há bocadinhos de nós que vivem e se prolongam nos outros! Com elas aprendi que um sorriso pode iluminar e uma lágrima pode destruir, mas que um abraço pode ajudar a suportar ou a resolver o mal que por vezes vem e nos belisca os sentidos!

Obrigada ao Luís, a metade da minha alma que durante muitos anos andou distante dos meus olhos, mas que eu sonhei sempre e sempre soube que existia. Há quase sete anos encheu de vida a minha existência, polvilhou de sorrisos e boas surpresas o meu ser, e me deu o que de mais precioso pode dar-se a alguém: o coração. Pela sua enorme generosidade, pelo olhar feliz e sereno que transporta sempre, pelas angústias que calou em mim, pela dor que partilhou, pelas palavras e pelos silêncios, pela mão estendida e pelas infindáveis horas de paciência que tem tido para comigo, obrigada! Tem sido uma viagem de sonho, fantástica e alucinada, como nós! :)

Aos meus amigos, reais e virtuais, os maiores e os mais pequeninos, os que me fazem sorrir apenas por existirem, os que estão comigo mesmo quando não estão comigo, que hoje e sempre se lembram de mim, mesmo que já raramente falemos ou que estejamos juntos menos vezes, obrigada! Aos que sabem que o dia de hoje será um dia difícil para mim, por me faltar o beijo e o sorriso do meu pai, a força de carácter e a genialidade dele, as suas gargalhadas e a sua jovialidade, muito obrigada por estarem aí, hoje e todos os dias!

Aos meus inimigos, se os tiver (e devo ter dois ou três...), obrigada também! Por me ensinarem a relativizar, a saber que não sou indiferente, que suscito ódios e invejas da mesma forma como suscito amores e saudades, que vos marquei sendo quem sou, que estou, mesmo que pairando como sombra, presente nas vossas vidas! Obrigada por não fazerem falta! :)

Para o meu novo ano de vida não trago sonhos ou projectos de grande monta. Costumo gostar de números e de anos ímpares, mas o 35 não deixa saudades. Aos 35 anos vi partir o meu pai (o meu ídolo e a minha génese), a minha tia preferida, os meus amigos Nero, Luna e Cheesy (animais, dirão alguns, mas amigos e pedacinhos do meu coração que se converteram em estrelinhas no meu céu). Aos 35 anos percebi que se pode morrer em vida, sofrendo além do suportável, porque amando além do dizível...

Que o 36 traga melhores ventos, pois piores será difícil. Que aos 36 encontre finalmente a luz que tem faltado no meu caminho, e que aqueles que têm feito parte de mim, dos meus dias e dos meus afectos, continuem ao meu lado, com a coragem e a bondade de gostarem de mim! Obrigada a todos, por tudo e pelos pequenos nadas, por serem quem são e fazerem de mim aquilo que sou também. Vocês vivem no meu coração!

Parabéns para mim!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Gostava de ser uma pessoa simples...


Gostava de ser uma pessoa simples. Uma daquelas pessoas raras que, quando falam, são imediatamente entendidas pelas outras. Mesmo que falem mal, que se expressem com a sensibilidade de um tractor, com a elegância de um elefante numa loja de louças, com uma simplicidade que só a ignorância permite. Essas pessoas não sofrem com os mal-entendidos que afectam gente como eu. Não se sentem sozinhas, vazias e inúteis quando têm de esgrimir argumentos com outras pessoas, durante horas, para que depois as outras percebam aquilo que se disse e, não raras vezes, percebam que afinal estiveram sempre de acordo com a ideia expressa.
Gostava de ser uma dessas pessoas simples. Dessas que, mesmo falando mal e escrevendo ainda pior, se sentem sempre acompanhadas nos momentos mais duros das duas vidas. Pessoas que não precisam de terminar as frases, nem de explicar as anedotas, que falam com os olhos e que se deixam ler pelos olhos das outras. Gostava de ser uma dessas pessoas que, diante de um problema, um contratempo ou um imprevisto, vêm reconhecido o seu direito à exaltação, à voz mais elevada, aos dizeres menos politicamente correctos. Gostava de ser uma dessas pessoas que conseguem manter a calma diante dos disparates dos outros, da sua estreiteza de vistas, da sua incomensurável tendência para confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. Gostava de poder conversar com pessoas que não confundissem a minha defesa de uma posição com a condenação imediata de todas as outras. Gostava de falar com quem pudesse ser capaz de me entender, à primeira, sem necessidade de explicações, debates, longas trocas de palavras que quase sempre desaguam no vazio e no "deixa lá, que isso passa".
Detesto mal-entendidos. Irrita-me que as pessoas não sejam capazes de se entender. Sim, sou uma pessoa que se exaspera com aqueles que erguem barreiras em vez de muros, que não conseguem expor uma ideia sem fazer uma tempestade à volta do assunto, e que depois acusam os outros de terem falado mal, quando na verdade foram eles que não entenderam patavina do que se disse. Abomino a ideia de que pessoas com quem perdi o meu tempo a conversar sobre alguma coisa cheguem depois à conclusão de que eu disse uma coisa completamente diferente da coisa que eu efectivamente disse. Chateia-me, pronto! Isso faz de mim uma pessoa má? Não creio. Não apenas por isso, bem entendido. Fará de mim uma pessoa que se exalta com facilidade, como hoje me disseram? Talvez. Mas quem tem alma não tem calma, e eu tenho uma alma exigente e indomada. Gosto dela assim. Quem não gostar da pinga que mude de tasco!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Na mouche...


HÁ ALGUNS INCOMPETENTES, MAS POUCOS INOCENTES 

Como caixa de ressonância daqueles que de quem é porta-voz (tendo há muito deixado de ter voz própria), o presidente da Comissão Europeia, o português Durão Barroso, veio alinhar-se com os conselhos da troika sobre Portugal: não há outro caminho que não o de seguir a “solução” da austeridade e acelerar as “reformas estruturais” — descer os custos salariais, liberalizar mais ainda os despedimentos e diminuir o alcance do subsídio de desemprego.

Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo, é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República.

Durão Barroso é uma espécie de cata-vento da impotência e incompetência dos dirigentes europeus. Todas as semanas ele cheira o vento e vira-se para o lado de onde ele sopra: se os srs. Monti, Draghi, Van Rompuy se mostram vagamente preocupados com o crescimento e o emprego, lá, no alto do edifício europeu, o cata-vento aponta a direcção; se, porém, na semana seguinte, os mesmos senhores mais a srª Merkel repetem que não há vida sem austeridade, recessão e desemprego, o cata-vento vira 180 graus e passa a indicar a direcção oposta.

Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal: o contágio do subprime americano na banca europeia, que era afirmadamente inviável e que estoirou com a Islândia e a Irlanda e colocou a Inglaterra de joelhos; a falência final da Grécia, submetida a um castigo tão exemplar e tão inteligente que só lhe restou a alternativa de negociar com as máfias russas e as Three Gorges chinesas; como é que a tão longamente prevista explosão da bolha imobiliária espanhola acabou por rebentar na cara dos que juravam que a Espanha aguentaria isso e muito mais; como é que as agências de notação, os mercados e a Goldman Sachs puderam livremente atacar a dívida soberana de todos os Estados europeus, excepto a Alemanha, numa estratégia concertada de cerco ao euro, que finalmente tornou toda a Europa insolvente.

Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia — e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam.

Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos. O que podemos nós pensar quando o ex-ministro Teixeira dos Santos ainda consegue jurar que havia um risco sistémico de contágio se não se nacionalizasse aquele covil de bandidos do BPN? Será que todo o restante sistema bancário também assentava na fraude, na evasão fiscal, nos negócios inconfessáveis para amigos, nos bancos-fantasmas em Cabo Verde para esconder dinheiro e toda a restante série de traficâncias que de há muito — de há muito! — se sabia existirem no BPN? E como, com que fundamento, com que ciência, pode continuar a sustentar que a alternativa de encerrar, pura e simplesmente, aquele vão de escada “faria recuar a economia 4%”? Ou que era previsível que a conta da nacionalização para os contribuintes não fosse além dos 700 milhões de euros?

O que poderemos nós pensar quando descobrimos que à despesa declarada e à dívida ocultada pelo dr. Jardim ainda há a somar as facturas escondidas debaixo do tapete, emitidas pelos empreiteiros amigos da “autonomia” e a quem ele prometia conseguir pagar, assim que os ventos de Lisboa lhe soprassem mais favoravelmente?

O que poderemos nós pensar quando, depois de tantos anos a exigir o fim das SCUT, descobrimos que, afinal, o fim das auto-estradas sem portagens ainda iria conseguir sair mais caro ao Estado? Como poderíamos adivinhar que havia uns contratos secretos, escondidos do Tribunal de Contas, em que o Estado garantia aos concessionários das PPP que ganhariam sempre X sem portagens e X+Y com portagens?

Mas como poderíamos adivinhá-lo se nos dizem sempre que o Estado tem de recorrer aos serviços de escritórios privados de advocacia (sempre os mesmos), porque, entre os milhares de juristas dos quadros públicos, não há uma meia dúzia que consiga redigir um contrato em que o Estado não seja sempre comido por parvo?

A troika quer reformas estruturais? Ora, imponha ao Governo que faça uma lei retroactiva — sim, retroactiva — que declare a nulidade e renegociação de todos os contratos celebrados pelo Estado com privados em que seja manifesto e reconhecido pelo Tribunal de Contas que só o Estado assumiu riscos, encaixou prejuízos sem correspondência com o negócio e fez figura de anjinho. A Constituição não deixa? Ok, estabeleça-se um imposto extraordinário de 99,9% sobre os lucros excessivos dos contratos de PPP ou outros celebrados com o Estado. Eu conheço vários.

Quer outra reforma, não sei se estrutural ou conjuntural, mas, pelo menos, moral? Obrigue os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos.

Mais uma? Escrevam uma lei que estabeleça que todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras. Bruxelas não deixa? Deixa a Holanda ter um IRC que atrai para lá a sede das nossas empresas do PSI-20, mas não nos deixa baixar parte dos impostos às nossas empresas, numa situação de emergência? OK, Bruxelas que mande então fechar as empresas e despedir os trabalhadores. Cumpra-se a lei!

Outra? Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as “imparidades” a cargo do Estado: quem quiser comprar leva tudo ou não leva nada. E, já agora, que a operação financeira seja obrigatoriamente conduzida pela Caixa Geral de Depósitos (não é para isso que temos um banco público, por enquanto?). O quê, a Caixa não tem vocação ou aptidão para isso? Não me digam! Então, os administradores são pagos como privados, fazem negócios com os grandes grupos privados, até compram acções dos bancos privados e não são capazes de fazer o que os privados fazem?

E, quanto à engenharia jurídica, atenta a reiterada falta de vocação e de aptidão dos serviços contratados em outsourcing para defenderem os interesses do cliente Estado, a troika que nos mande uma equipa de juristas para ensinar como se faz. Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever...


Miguel Sousa Tavares
«Expresso», 2 de Junho de 2012 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O dia da criança é também um pouco meu...


“Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança”.
Victor Hugo


Há qualquer coisa de mágico nas crianças. No seu olhar, cândido e sereno, mesmo quando se envolvem nas maiores tropelias; no seu sorriso, que desconhece as mágoas que a idade adulta lhe trará; na simplicidade com que nos dizem como devemos resolver os nossos problemas e combater as nossas tristezas. Há dias, numa superfície comercial onde me encontrava a fazer compras com uma das minhas irmãs, surgiu de repente uma menina, dos seus cinco ou seis anos, que começou a fazer conversa comigo. A Catarina, como disse chamar-se, tinha na mão uma bola e preparava-se para ir à piscina no dia seguinte. É quase sempre assim quando me cruzo com crianças. Talvez pressintam que gosto delas, mesmo sem as conhecer, e se abeirem de mim para trocar meia dúzia de palavras por causa disso. Sinto, muitas vezes, que a maior parte dos adultos não tem a minha paciência para dialogar com os mais pequenos. Eu tenho, e esse é um dos meus maiores orgulhos, porque, como dizia Mêncio, “o grande homem é um adulto que não perdeu o coração de criança”.

As crianças são únicas. Todas as crianças. São pequeninos pedacinhos de céu colocados na terra para que percebamos que a vida é bem menos complicada do que parece. Há algumas semanas, o filho de uma amiga minha, de apenas três anos, tentava confortar-me pela recente partida do meu pai. Dizia-me ele, do alto da sua sabedoria, que a tristeza sairia rapidamente do meu coração se eu fosse comprar um brinquedo, e que mesmo que fosse um carrinho teria de ser cor-de-rosa porque eu sou uma menina. Parece simples, não parece? Tudo é simples para as crianças, que riem com as asneiras dos adultos, que deliram com a atenção que alguns adultos lhes dão, que esquecem os erros que outros adultos cometem com eles, que têm uma facilidade imensa de perdoar quem os magoa, como se nada tivesse acontecido. As crianças são mágicas, asseguro-vos. Taine justificou o facto de não ter filhos com a alegação de que gostava demasiado deles para poder dar-lhes vida. É uma afirmação que compreendo deveras. Não é fácil, no cenário actual em que mergulhámos este mundo, resolver ter filhos. É uma tarefa árdua, por vezes inglória...

Tal como referiu um dia Pasteur, “quando vejo uma criança ela inspira-me imediatamente dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser”. É exactamente o que sinto por todas as crianças que comigo se cruzam e que, não raras vezes, se dão comigo à confiança que não dão a outros adultos. Acho que me vêem como uma delas. Uma criança grande, que brinca e que ri, que os compreende, que os aceita como são, que não tenta moldá-los e fazer deles adultos em ponto pequeno! E é por isso que, para mim, o dia de hoje tem algo de especial. O Dia Mundial da Criança é também um pouco meu. Porque gosto de bonecas e carrinhos, porque gosto de me sentar no chão e construir castelos de legos, porque gosto de conversar com os mais pequenos e de conhecê-los e saber o que pensam, estimulá-los a pensar mais e melhor, ensinar-lhes o que sei e aprender com eles algumas competências que me faltam. Sigo o conselho de Josh Billings: “Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir, e guie-se por ela de vez em quando”…