“Nunca
ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança”.
Victor
Hugo
Há
qualquer coisa de mágico nas crianças. No seu olhar, cândido e sereno, mesmo
quando se envolvem nas maiores tropelias; no seu sorriso, que desconhece as
mágoas que a idade adulta lhe trará; na simplicidade com que nos dizem como
devemos resolver os nossos problemas e combater as nossas tristezas. Há dias,
numa superfície comercial onde me encontrava a fazer compras com uma das minhas
irmãs, surgiu de repente uma menina, dos seus cinco ou seis anos, que começou a
fazer conversa comigo. A Catarina, como disse chamar-se, tinha na mão uma bola
e preparava-se para ir à piscina no dia seguinte. É quase sempre assim quando
me cruzo com crianças. Talvez pressintam que gosto delas, mesmo sem as
conhecer, e se abeirem de mim para trocar meia dúzia de palavras por causa
disso. Sinto, muitas vezes, que a maior parte dos adultos não tem a minha
paciência para dialogar com os mais pequenos. Eu tenho, e esse é um dos meus
maiores orgulhos, porque, como dizia Mêncio, “o grande homem é um adulto que
não perdeu o coração de criança”.
As
crianças são únicas. Todas as crianças. São pequeninos pedacinhos de céu
colocados na terra para que percebamos que a vida é bem menos complicada do que
parece. Há algumas semanas, o filho de uma amiga minha, de apenas três anos,
tentava confortar-me pela recente partida do meu pai. Dizia-me ele, do alto da
sua sabedoria, que a tristeza sairia rapidamente do meu coração se eu fosse
comprar um brinquedo, e que mesmo que fosse um carrinho teria de ser cor-de-rosa
porque eu sou uma menina. Parece simples, não parece? Tudo é simples para as
crianças, que riem com as asneiras dos adultos, que deliram com a atenção que
alguns adultos lhes dão, que esquecem os erros que outros adultos cometem com
eles, que têm uma facilidade imensa de perdoar quem os magoa, como se nada
tivesse acontecido. As crianças são mágicas, asseguro-vos. Taine justificou o
facto de não ter filhos com a alegação de que gostava demasiado deles para
poder dar-lhes vida. É uma afirmação que compreendo deveras. Não é fácil, no
cenário actual em que mergulhámos este mundo, resolver ter filhos. É uma tarefa
árdua, por vezes inglória...
Tal
como referiu um dia Pasteur, “quando vejo uma criança ela inspira-me
imediatamente dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode
vir a ser”. É exactamente o que sinto por todas as crianças que comigo se
cruzam e que, não raras vezes, se dão comigo à confiança que não dão a outros
adultos. Acho que me vêem como uma delas. Uma criança grande, que brinca e que
ri, que os compreende, que os aceita como são, que não tenta moldá-los e fazer
deles adultos em ponto pequeno! E é por isso que, para mim, o dia de hoje tem
algo de especial. O Dia Mundial da Criança é também um pouco meu. Porque gosto
de bonecas e carrinhos, porque gosto de me sentar no chão e construir castelos
de legos, porque gosto de conversar com os mais pequenos e de conhecê-los e
saber o que pensam, estimulá-los a pensar mais e melhor, ensinar-lhes o que sei
e aprender com eles algumas competências que me faltam. Sigo o conselho de Josh
Billings: “Guie uma criança pelo caminho que ela deve seguir, e guie-se por ela
de vez em quando”…

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