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sábado, 15 de outubro de 2011

Portuenses aderiram em massa ao protesto global contra a crise


A democracia saiu à rua e os portuenses literalmente invadiram a sua cidade. No âmbito da manifestação global contra a crise, em que participaram milhões de pessoas, em vários países, a Invicta cobriu-se de um manto colorido de bandeiras e cartazes, e foram muitos os que quiseram dar conta da sua indignação perante o actual cenário social e económico em Portugal. Largos milhares de pessoas concentraram-se, pelas 15 horas, na Praça da Batalha, de onde rumaram depois para a Avenida dos Aliados.

Em ambos os locais houve palavras de ordem gritadas contra o Governo, contra a banca e contra a troika, e apesar de José Sócrates e o anterior executivo não terem escapado às críticas, a verdade é que foram os nomes de Passos Coelho, Cavaco Silva e Vítor Gaspar os alvos preferenciais das vaias dos “indignados”. E se o actual governo teve estado de graça, há que reconhecer que foi curto, porque nas ruas há já quem diga que não faltará muito para haver derramamento de sangue, e para que o actual primeiro-ministro comece a ter razões para temer pela sua segurança.

Passavam poucos minutos das 15 horas quando foram abertas as hostilidades na Batalha. O microfone estava aberto e acessível a quem quisesse dizer publicamente o que lhe ia na alma, e foram muitos os que subiram a escadaria da Igreja de Santo Ildefonso para usar da palavra. Havia cartazes escritos em inglês e em castelhano, e um casal alemão, à conversa com o Mente Despenteada 3, reconheceu a elevada ingerência da Alemanha na política de todos os países da União Europeia, considerando que os portugueses se vêem actualmente confrontados com desafios muito complicados, com a perda do poder de compra a crescer avassaladoramente, sem que o Estado esteja a ser capaz de dar garantias de que a austeridade terá bons resultados.

O protesto seguiu depois pela Rua de Passos Manuel, a caminho da principal praça da cidade, onde foi distribuído aos manifestantes e jornalistas presentes um comunicado do grupo Indignados do Porto, onde podia ler-se que, tal como na Islândia, na Grécia ou em Espanha, “também nós, em Portugal, queremos dar voz à indignação e dizer não”. Recusando o que dizem ser “o ideal economicista da sociedade, capaz de gerar e perpetuar profundas desigualdades e injustiças brutais”, afirmam pugnar por uma sociedade mais justa e equitativa, que abra caminho a um mundo novo, diferente, mais justo e mais solidário, responsabilidade que recai, segundo o documento, sobre todos nós.


“Este governo foi eleito com mentiras”

O Mente Despenteada 3 fez o percurso entre a Praça da Batalha e a Avenida dos Aliados à conversa com José Soeiro. O dirigente bloquista, sociólogo e ex-deputado à Assembleia da República, foi comentando aquilo que via, envolto num mar de gente descontente e indignada mas com disposição para agir e lutar, sem nunca baixar os braços...

Como vês a adesão a esta manifestação aqui no Porto?
Do ponto em que estou não me é ainda possível ter a dimensão exacta da manifestação, mas é muita gente! São muitos milhares de pessoas. Não sei quantificar, mas é muita gente. Acho que uma das razões para que haja tanta gente é o facto de terem passado apenas dois dias sobre o anúncio deste corte brutal de dois meses de vencimento para grande parte dos funcionários públicos, de uma nova subida do IVA… É mais austeridade, e acho que as pessoas estão fartas. O facto de estarem hoje aqui é o sinal desse sentimento, porque assim é impossível sobreviver… Retirar o rendimento às pessoas significa que elas deixarão de ter capacidade para responder às suas necessidades, e isso significa que haverá mais desemprego, o que vai gerar mais recessão… É um ciclo infernal, do qual não se sai! E o que é mais absurdo nisto tudo é que nós olhamos para a Grécia, vemos o que se está a passar por lá, o que estas medidas estão a provocar, e aqui continua-se a fazer o mesmo, com o argumento de que temos de obedecer ao FMI, com a Banca a marcar presença no Conselho de Ministros onde estas decisões são tomadas e a assegurar a manutenção das suas margens, e com a maioria da população a ser brutalmente atacada…

Como é que a manifestação de hoje pode ajudar a travar esse ciclo infernal de que falas?
O grande desafio é a luta social, as pessoas fazerem-se ouvir. A rua é o espaço em que nasceu a democracia, e é na rua que ela tem de voltar a fazer-se ouvir…

Mas não há ainda a ideia de que sair à rua e protestar não resolve grande coisa?
Pois, essa é, quanto a mim, a dimensão que falta trabalhar. As pessoas mobilizam-se mais facilmente se sentirem que há uma alternativa palpável, e essa alternativa passa pelo esforço de construção de um programa político, de sabermos como é que saímos disto, com que políticas. Várias hipóteses têm sido aventadas, desde a taxação das mais-valias, a renegociação da dívida, o fim dos off-shores… No fundo, é preciso pôr o sistema financeiro a contribuir para a resolução desta crise, e compreender que um país não se gere como se gere uma casa. Porque numa casa não há off-shores, nem há especulação financeira (o filho não especula com o dinheiro da mãe), enfim… O país não é uma casa! Para podermos, a médio prazo, sair desta situação, é preciso levar a cabo uma política expansionista, e não recessiva. É preciso criar emprego, é preciso investir, e é preciso que o Estado invista. Não é pela via dos cortes sistemáticos, porque quanto mais se corta menos a economia resiste. Perde-se poder de compra e até o Estado recolhe menos impostos, porque as pessoas têm menor rendimento, compram menos…

 Mas isso é extremamente claro. Não deveria sê-lo também para o Governo, que ainda por cima é liderado por uma pessoa formada em Economia?!
É extremamente claro, sim. O que acontece, muito simplesmente, é que isto colide com os interesses do capitalismo financeiro e de quem beneficia dele, e que é quem comanda esta crise. Neste momento, a riqueza está a ser transferida directamente de quem trabalha para pagar aos bancos, à dívida. É uma transferência directa de rendimento dos trabalhadores para o sector financeiro, e portanto, neste momento, quem manda é o sector financeiro. Manda no PSD, manda nas instituições internacionais que tutelam o país…

Então, e como é que se resgata o país às garras do sistema financeiro?
Só com democracia. Saindo à rua e exigindo, por exemplo, uma auditoria de cidadãos à dívida, como está a fazer-se na Grécia. Ou seja, nós queremos saber quem é que está a ficar com o dinheiro. Esse é um primeiro princípio de transparência na informação, para a poder daí se poder construir alternativas. As pessoas têm de sair à rua, dizer que isto é insustentável. As pessoas têm de dizer: “Parámos. Acabou, já chega”. Porque acho que só nessa altura é que conseguiremos fazer com que o poder político acorde. O problema, acho, não é elegermos outras pessoas. O problema é mesmo aquele conjunto de entidades que nós não elegemos. É que quem tem poder hoje – o Banco Central Europeu, a troika, de que o BCE faz parte, ou mesmo a Comissão Europeia – não é eleito.

Era o que se lia há pouco em alguns cartazes: ninguém votou em Angela Merkel…
Precisamente. E por isso temos de avançar para formas de democracia à escala europeia, para que possamos exigir que esta gente responda perante o povo. No actual modelo não há ninguém que responda ao povo! Os governos nacionais dizem que “isto é muito mau, mas temos de fazer porque eles obrigaram”, e “eles”, os que obrigam, são sempre pessoas que não têm de prestar contas a ninguém. Desse ponto de vista, o capitalismo está a acabar com a democracia. Acho que é evidente que aqueles que foram eleitos não estão a agir nos interesses do povo que os elegeu, e sim de uma minoria, mas o nosso alvo não é a democracia. É a falta de democracia. O problema não está na nossa capacidade para eleger pessoas, mas sim no facto de o poder estar concentrado nas mãos de pessoas que nós não temos capacidade de eleger e de controlar.

Pessoas que não respondem perante o eleitorado…
Exacto. Pessoas não respondem perante o povo, e como tal estão-se a marimbar. Vêem as manifestações e pensam: “Porreiro! Não tenho de responder perante eles”. Acho que esse é o grande problema na actualidade. A democracia à escala europeia é uma das dimensões mais importantes da resposta aos actuais problemas, penso.

E internamente, apenas quatro meses depois de termos ido a eleições legislativas e termos mandatado um novo governo esta manifestação não está de certo modo ferida de alguma falta de legitimidade? Como é que podemos reclamar legitimamente de um governo que acabámos de empossar nas urnas, com uma percentagem expressiva de votos?
Poderia pensar-se assim, mas creio que mesmo quem votou no PSD votou ouvindo Passos Coelho dizer que cortar no subsídio de férias e de Natal era um disparate; votou ouvindo-o dizer que a austeridade não pode recair sempre sobre os mesmos; votou ouvindo-o dizer que é preciso crescimento económico; votou ouvindo-o dizer que é preciso criar emprego! É óbvio que quem tivesse um pouquinho mais de atenção e lesse o programa político do PSD – onde não estão claramente explanadas todas estas medidas, este arraso (porque se estivesse, evidentemente eles não ganhavam as eleições), mas está o essencial da sua ideologia liberal – perceberia que esta seria a linha de actuação deste governo. Por isso, de certa forma, acho que quem tem a legitimidade ferida é o próprio governo, porque foi eleito dizendo que não ia fazer precisamente o que está a fazer…

Com mentiras?
Com mentiras. Esse é um dos dramas da política, porque só temos duas alternativas: ou se rompe o pacto com a troika, ou não há hipótese de haver democracia e de o país sobreviver. O pacto com a troika vai destruir o país.

E romper o pacto com a troika não vai também destruir o país e deixá-lo isolado, à margem da Europa?
Por isso, para romper o pacto com a troika teria de haver uma acção concertada de Portugal com a Grécia, com a Irlanda, eventualmente com Espanha, porque, por exemplo, não sou nada favorável à saída de Portugal do euro. Poderiam dizer-nos que essa solução representaria um empobrecimento. Pois é. Por isso devemos evitá-la, mas aquilo a que hoje assistimos é também um empobrecimento brutal: as pessoas perderam 20 por cento do seu rendimento, só nos salários, e depois ainda houve os aumentos nos impostos. Daqui a dois anos vamos olhar para trás e perceber que perdemos metade do rendimento. Isso é insustentável! Num país em que já existe uma franja de 20 por cento de pessoas a viver na pobreza, a continuar a cortar assim nas políticas sociais o que vejo daqui a uns anos é um país desertificado, transformado numa espécie de uma aldeia interior da Europa onde não vive ninguém, com uma crescente taxa de emigração entre as pessoas que têm alguma qualificação e que procuram emprego noutros sítios… É uma destruição do nosso futuro.

E como comentas, por exemplo, a antipatia que se sentia para com o anterior governo, e em particular para com José Sócrates, quando o actual governo está em funções há apenas quatro meses e já parece haver tanta revolta e tanta gente a querer pô-lo fora do poder?
No contexto de ditadura financeira em que vivemos (bem sei que temos a possibilidade de eleger os nossos representantes e de irmos para a rua manifestarmos o descontentamento que sentimos, e isso faz parte da democracia, mas acho que a economia não é democrática e o cenário actual é o de uma ditadura financeira), os primeiros-ministros que administram esta ditadura, e que não respondem pelo interesse geral, da maioria, mas estão presos aos interesses e ao poder do capital financeiro, vão “queimar-se” cada vez mais rapidamente, porque neste contexto, se não quiserem romper com essa ditadura, não lhes resta outro papel que não o de mensageiros das más notícias. Acho que o drama deste momento que estamos a viver é precisamente esse: os primeiros-ministros e todas as pessoas no poder que não quiserem romper com essa ditadura vão queimar-se como fósforos! Porque já não existe sequer o papel da política, a dimensão da escolha. Não. Nós fazemos o que eles nos mandam fazer! Hoje não respondemos pelo povo, mas representamos os mercados, e isso vai-se naturalizando… Por exemplo: quando foi anunciada esta reforma da Administração Local que está em curso, o que nos foi dito pelo Governo foi que ela teria de ser feita porque a troika nos obriga a poupar dinheiro. Deixou de haver uma discussão sobre o território, deixou de haver política! E isto é assim em todas as áreas…

Impera o critério meramente economicista.
É o carácter economicista destas políticas, mas que é economicista também porque há a ideia de que se gastou demasiado nos últimos anos, mas atenção, porque há países muito mais endividados do que Portugal! Historicamente, não é verdade que o país não tenha atravessado outros momentos como este, com dívidas desta dimensão. Como já disse, não se gere um país como se gere uma casa, e o endividamento nesta altura pode servir para evitar a bancarrota no futuro. Sobretudo estamos a ser alvo de um ataque especulativo. Grande parte do dinheiro que temos de pagar não é dinheiro que nos emprestaram, mas sim juros. Portanto, não estamos a pagar o que nos emprestaram. Estamos, de facto, a enriquecer um conjunto de entidades que estão a engordar à nossa custa, e que são insensíveis, precisamente porque não respondem perante nós! Estão-se a marimbar. Se viermos para a rua, eles dizem-nos para protestarmos com o governo. Hoje o poder maior não é o poder visível. É precisamente o poder invisível, e é contra esse poder que devemos usar as nossas energias, para torná-lo visível.

Diante de tudo isso, o actual contexto económico e social não deveria ser favorável a uma viragem à esquerda e não, como vimos por exemplo na Madeira, a um aumento da força da direita?
Seria. Seria, mas há um problema. No contexto da história da esquerda portuguesa, e dos partidos que fazem parte dessa história, enfrentamos uma situação complicada: é que a esquerda sem o Partido Socialista não tem força para um governo alternativo, mas neste momento um governo com o PS também não seria um governo alternativo, porque o PS, mediante estas medidas, já veio dizer que não votará contra o Orçamento de Estado. Que no essencial concorda com estas medidas. Não só os socialistas assinaram o acordo com a troika, e vêm agora defendê-lo, como vêm defender também o próprio Orçamento do PSD e do CDS. Objectivamente, o PS está hoje do lado do problema, e não do lado da solução. E isso é dramático, porque precisávamos que a esquerda tivesse força suficiente para apresentar uma alternativa ao país. Ora, o que hoje acontece é que aqueles que têm uma alternativa não têm força suficiente para a realizarem e para serem governo, e o partido que teria essa força, e que poderia devolver à esquerda a capacidade para liderar o destino do país, está a rolar noutro sentido. O problema é esse. Enquanto os partidos à esquerda do PS não tiverem força para impor ao PS uma alternativa e construir um novo bloco social e uma nova maioria, há um certo desânimo. As pessoas vêm para a rua, mas não visualizam uma alternativa concreta. Temos de juntar toda a massa crítica que no nosso país acha que o capitalismo está a destruir-nos. Precisamos de outra forma de encarar o trabalho, vendo os trabalhadores como um recurso, e não como um problema, e de ver as leis do trabalho como uma protecção e um direito humano, e não como um resquício do passado…

Precisamos de mudar de paradigma?
Sim, precisamos de um novo modelo económico, e de deixarmos de nos ajoelhar perante o capital financeiro. Vamos fazer uma auditoria à dívida e dizer que não pagamos uma parte dos juros, porque são ilegítimos, e que há uma parte da dívida motivada pela corrupção e que deve ser paga por quem a fez! Estamos a debater um problema que é de ausência de dinheiro, mas vendemos o BPN – onde enterrámos quatro mil milhões de euros – e fomos vendê-lo, por uma ninharia, a um tipo que tinha para com o BPN uma dívida maior do que o dinheiro pelo qual comprou o banco! Américo Amorim devia ao BPN mais dinheiro do que aquele que deu pela compra do banco, e quem meteu dinheiro nesse banco fomos nós!

Esta é, de facto, uma situação quase caricatural…
É caricatural, mas infelizmente há situações parecidas com esta na Europa. Não com o escândalo do BPN, porque nisso acho que tivemos uma certa originalidade, mas há de facto situações parecidas noutros países. E isso coloca uma questão interessante sobre este protesto, que é a possibilidade de aprofundar a dimensão europeia das próprias lutas. Nós precisávamos de uma saída à escala europeia, e para isso é preciso juntar as forças sociais à escala europeia. Para mim a solução é essa. O desafio é mesmo mudar a Europa.

Texto e fotos: Carla Teixeira
Outras fotos serão divulgadas oportunamente no Facebook

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Jornalista multimédia...


De bloco de notas numa mão e de telemóvel na outra, não perdi pitada da acção de campanha da candidata socialista à Câmara Municipal de Gondomar na Freguesia de Baguim do Monte!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Entrevista ao investigador Hélder Maiato

Em Julho de 2007 fui convidada pela editora Edeline para participar num projecto que considerei bastante interessante: a título gracioso, um conjunto de jovens sem qualquer publicação em livro era convidado a participar na elaboração de uma obra em que se daria destaque a outros jovens que, apesar da pouca idade, se destacavam já na área da Ciência e da Inovação. Fui convidada a entrevistar o promissor investigador Hélder Maiato, do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto. Foi uma conversa muito interessante. Curiosamente, depois do texto que me competia ter sido enviado, nunca mais consegui estabelecer contacto com a editora, e até ao momento desconheço se algum dia esse livro foi publicado. Por isso, e porque acho que o texto e o meu interlocutor merecem, dois anos depois deixo-vos aqui o relato dessa entrevista. É um pouco extensa, é um facto, mas o Hélder merece, e eu também.

Numa pequena sala do andar inferior do edifício do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto há numerosos livros a forrar as paredes. Livros e volumes de enciclopédias, de lombada grossa, onde avultam expressões científicas escritas em diversas línguas. O número 13 escrito na porta desmente o adágio dos azarados: Hélder Maiato define-se como um homem de sorte. Aos 31 anos tem um currículo de mérito assombroso, reconhecido aquém e além-fronteiras, assente na determinação que o liderou na construção de um percurso académico e profissional notável: licenciou-se em Bioquímica pela Universidade do Porto, depois integrou o 6º Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina, que o conduziu à Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, onde iniciou os seus estudos sobre a divisão celular, para depois concluir um doutoramento em Ciências Biométicas no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, a sua grande referência, quer em termos científicos, quer em termos artísticos.
Depois de uma permanência relativamente curta em Portugal – o suficiente para ter concluído aquela formação e ter casado – rumou numa aventura transatlântica. Foi nos Estados Unidos que fez o seu trabalho de pós-doutoramento em Microcicurgia Celular no Wadsworth Center, entidade afecta ao Departamento de Saúde de Nova Iorque. Desse breve percurso registou para a posteridade diversas publicações em revistas e jornais científicos de excelência a nível internacional, de que o «Embo Journal», o «Journal of Cell Biology», a «Cell» e a «Nature Cell Biology» são alguns exemplos. Em 2005 Hélder Maiato regressou a Portugal, e desde então assume as funções de investigador no IMBC e de professor auxiliar convidado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. No instituto lidera uma equipa de cientistas que se debruçou sobre a questão da divisão celular e da aneuploidia, e que esteve ligada ao desenvolvimento do primeiro sistema de microcirurgia laser em células vivas da Europa.
Sentado em frente ao microscópio, diz que é ali que se revela, apesar de ser entre os livros e em seminários que passa grande parte do seu tempo. Traz nos olhos a inquietude do buscador. Um brilho de quem tem tantas perguntas e se precipita na tentativa de encontrar respostas. No rosto, esculpido com a graça da juventude que ostenta também na forma descontraída de vestir – não se dá mal com as gravatas, mas prefere as T-shirts e os calções –, baila sempre um sorriso, franco mas tímido, tão discreto quanto generoso. Nascido em Matosinhos mas a viver actualmente em Gaia, brinca com a génese do nome: diz “não ter ideia” de onde vem o «Maiato», e garante que ao concelho da Maia nunca teve qualquer ligação. Ainda sem filhos, o jovem cientista afirma ser “uma pessoa de 31 anos igual às outras pessoas de 31 anos”, apontando gostos comuns aos das pessoas comuns com que se cruza nas ruas todos os dias.
Tem, como a generalidade dos jovens, gosto e aptidão para a prática desportiva. Não se deixa cativar por nada demasiado radical, porque gosta de “ter sempre os pés no chão”, mas já praticou diversas modalidades, inclusivamente na vertente de alta competição. Praticou voleibol durante vários anos, fez uma curta incursão pela escalada desportiva, e actualmente está mais familiarizado com o squach. “Adepto moderado” de futebol, é frequentador assíduo do Estádio do Dragão, e acredita que “o Futebol Clube do Porto é um emblema da cidade e do país” e “um exemplo de profissionalismo e de determinação face a um conjunto de objectivos traçados”.
Na música pauta o seu gosto por uma enorme abrangência de estilos, que vão do jazz e das “sonoridades mais calmas” ao heavy metal, apesar de reconhecer que a faceta mais dura era mais evidente na adolescência e que “parou nos Metallica”, não tendo desde então acompanhando a evolução daquelas modas do som. Em Portugal a grande referência é Carlos Paredes, que “sem dizer uma palavra soube transmitir como ninguém o que é ser português”. A Casa da Música, um “cristal de arrojo artístico” que o atrai e onde se sente bem, é um dos espaços onde gosta de usufruir da música.

A inovação...
Determinação e persistência são, para Hélder, os maiores traços do seu carácter, e no campo pessoal e profissional é à força com que se agarrou a diversos objectivos que foi traçando que atribui o sucesso alcançado. “Brincar aos cientistas será algo um pouco camuflado”, mas quando era menino “era bastante criativo. Brincava com legos, a construir e a criar”. O avô, que define como “um inventor no sentido literal da palavra”, exerceu grande influência sobre ele. “Ele tinha uma oficina onde fazia uma série de coisas, e eu ia para lá, às vezes participava, ajudava... E quando ele não estava, fazia as minhas próprias coisas. Talvez tenha nascido aí o «bichinho» do criar, e o gosto pelo desconhecido e pela investigação”, justifica. O caminho até à bioquímica não foi, no entanto, linear.
Quando frequentava o 12º ano de escolaridade estava ainda “um pouco indeciso”, porque desde criança revelara “muito gosto pelo desenho”, característica que levou sempre os professores a orientá-lo nesse sentido. No 9º ano seguiu uma “aventura” na área da Arte e do Design, mas cedo percebeu que não gostaria daquele domínio para uma carreira profissional, embora hoje se dedique a desenhar algumas peças de mobiliário, mas “apenas para uso pessoal”. A arquitectura, essa sim, uma paixão, poderia ter sido a alternativa profissional, se a ciência não tivesse falado mais alto. A bioquímica seduziu-o por ser “a licenciatura que melhor preparação oferece para a investigação”, mas estava longe de imaginar que essa escolha faria dele, volvidos poucos anos, um dos jovens investigadores de maior relevância na comunidade científica nacional.
Em 2005 Hélder Maiato fundou a sua equipa de investigação, que tem trabalhado no sentido de perceber o mecanismo de divisão das células e as implicações desse processo no desenvolvimento de doenças como o cancro ou a Trissomia 21. Saber “como é a informação genética de uma célula é transmitida às células da geração seguinte” é o grande objectivo da equipa do IMBC liderada pelo cientista. A grande inovação do trabalho desenvolvido pelos sete investigadores que lidera prende-se com o facto de, trabalhando com células vivas, terem conseguido “combinar uma série de tecnologias – não só moleculares, mas também ópticas, relacionadas com lasers – que nos permitem estudar dentro da célula, ainda viva, a importância de determinadas estruturas, genes e moléculas".
O trabalho de Hélder Maiato foi diversas vezes reconhecido internacionalmente, e a conquista de galardões, entre os quais avultam o Prémio da Sociedade Portuguesa de Genética Humana 2004, o Estímulo à Investigação da Fundação Calouste Gulbenkian ou o Prémio Crioestaminal em Investigação Boiomédica, confluem para a inequívoca confirmação do mérito das investigações que liderou. “Revelam algum reconhecimento e o reforço de que a estratégia que estabelecemos é uma estratégia válida e que poderá trazer grande informação sobre a divisão celular”. O investigador acredita que “foi também premiada a continuidade de um trabalho que chegou sempre a resultados importantes”, mas ainda assim considera “prematuro” traçar um balanço da investigação.

O caminho...
A finalização do próprio sistema-piloto de microcirurgia laser, o primeiro na Europa, é em si mesmo uma vitória, que só foi possível com os vários apoios recebidos pela sua equipa, entre os quais o recente Prémio Crioestaminal, que segundo o cientista permitiu “manter na minha equipa elementos-chave envolvidos no processo”, além da “aquisição de alguns componentes que permitem melhorar significativamente a performance do sistema”. Findo o processo mais ou menos moroso de angariação de fundos e apoios, Hélder Maiato considera ter agora todas as condições para dar início à fase de experimentação propriamente dita. Afirmando-se um optimista, diz que “com as pessoas certas tudo de consegue”, escamoteando assim o peso das dificuldades sentidas, mas já ultrapassadas.
Apesar dos seus curtos 31 anos, Hélder Maiato sabe que já colheu a admiração da comunidade científica portuguesa e internacional, mas assevera que está à procura do seu próprio caminho. “Não sei se isto é o que quero fazer para o resto da vida”, confidencia, embora considere ter neste momento “uma série de questões para as quais gostaria de ter resposta”, e que de alguma forma lhe dão energia para montar a estratégia correcta no sentido de encontrar as respostas que procura. “No fundo o que estamos a tentar fazer é encontrar respostas. Parece efémero, mas é isso que fazemos”, explica, em nome da equipa que dirige. Tendo em conta que este é “um trabalho de uma vida, e com um grau de certeza insuficiente”, o jovem cientista dá conta de uma forte convicção: a ciência é “uma área fascinante”.
Sabe que de cada resposta alcançada surgirão necessariamente novas perguntas, e esse processo contínuo de inquirir e descobrir, para voltar a inquirir, “faz parte do caminho científico”, sendo importante “ter uma liberdade e flexibilidade suficientes para nos deixarmos levar para onde os resultados nos encaminharem”. Sublinha que, no domínio científico, é massa crítica – as pessoas – que conta, mais do que os meios de que se dispõe, apesar de estes obviamente poderem castrar anseios de ir mais longe em termos de investigação. No entanto, para Hélder Maiato, “são as pessoas que fazem a diferença entre a boa e a má ciência”. “O facto de termos o melhor orçamento não serve de muito se não tivermos as pessoas certas. Sem elas jamais faremos boa ciência”, assegura.
Considerando que em Portugal a questão orçamental constitui um handicap, e que sempre que um cientista pensa em fazer um pós-doutoramento surge sempre no horizonte a necessidade de rumar aos Estados Unidos – “é lá que estão todos os recursos que permitem explorar melhor a capacidade criativa dos cientistas” –, diz que, “até por isso, é importante dotar os laboratórios nacionais das pessoas mais adequadas e com mais mérito”. Mas porque “obviamente ninguém faz omoletes sem ovos, é importante termos as pessoas, mas é preciso dar-lhes condições para que possam trabalhar”. Esse tem sido um dos factores que têm levado os cientistas portugueses para o estrangeiro, nomeadamente para os Estados Unidos. Contudo, Hélder Maiato acredita que “em Portugal têm sido tomadas as medidas certas para começar a atrair as pessoas de volta”.

O futuro...
Recusando falar de um fenómeno de «fuga de cérebros», preconiza a necessidade de pôr em prática “medidas sustentadas e de longo prazo para levar os cientistas a regressar a Portugal”, explicando que o processo poderá ser demorado, “talvez de gerações”, mas salientando sempre que “as pessoas que regressam, e a quem são dadas as condições necessárias, conseguem fazer coisas, e isso deve servir como incentivo para que outras pessoas queiram regressar, e para atrair outras pessoas”. Os portugueses têm uma razão muito própria para voltarem ao seu país, mas há a necessidade de usar argumentos diferentes para atrair, além dos nativos, também os estrangeiros. São incentivos que “passam muito pela questão do dinheiro”, reconhece, mas que não se esgotam nesse aspecto.
Quando olha em volta, no panorama científico português, em busca de cientistas da sua faixa etária, Hélder Maiato é forçado a constatar que “são muito poucos os que trabalham em Portugal”. Os que partem são, muitas vezes, investigadores de grande valia, “pessoas fantásticas que, em qualquer sítio onde lhes sejam dadas as condições de que precisam, vão de certeza ter sucesso e trazer prosperidade aos que a eles se associarem”. Admitindo que no nosso país é latente a inexistência de oportunidades – “Olho para o lado e os meus amigos estão quase todos lá fora, porque não têm oportunidades de se afirmarem por cá” –, o investigador admite alguma “preocupação” com esse aspecto, mas frisa que “também há a necessidade de um maior empreendedorismo e iniciativa por parte das pessoas para criarem o seu próprio emprego”.
A determinação volta assim ao discurso de um homem que aprendeu a depender de si, mas que admite ter tido sempre “a sorte de estar no lugar certo à hora certa”, aproveitando todas as oportunidades que se desenharam no seu destino. Aponta, porém, a necessidade de políticas concretas para alavancar a Ciência portuguesa, exortando o Estado a assumir a criação de condições para fixar os investigadores portugueses, se não houver forma de os privados absorverem o tecido científico made in Portugal. “Se tivermos determinação podemos chegar onde quisermos”, enfatiza, acrescentando que “o importante é termos ambição e não nos sentirmos limitados na nossa capacidade de realização. Podemos chegar onde quisermos. O que conseguiremos vai depender de quanto isso é importante para nós e da nossa determinação”.
Na opinião de Hélder Maiato é indiscutível que “o futuro, como o passado, pertence aos cientistas”. O investigador considera que enquanto houver ciência haverá uma esperança, designadamente no que diz respeito à área das Ciências da Saúde, diz com evidente satisfação e orgulho que, “enquanto forem investidos recursos para explorar o desconhecido, haverá sempre esperança na resolução dos problemas, nomeadamente no que diz respeito à investigação sobre doenças”. Sentado ao seu microscópio, tem também a esperança de em breve chegar a respostas para tantas perguntas que se atropelam no pensamento inquieto da ciência. Aos investigadores que trabalham em Portugal deixa uma mensagem curta, mas plena de convicção e de certeza: “Fazer ciência em Portugal “é possível”.

Carla Teixeira
As imagens foram retiradas de diversos sites