A democracia saiu à
rua e os portuenses literalmente invadiram a sua cidade. No âmbito da
manifestação global contra a crise, em que participaram milhões de pessoas, em
vários países, a Invicta cobriu-se de um manto colorido de bandeiras e
cartazes, e foram muitos os que quiseram dar conta da sua indignação perante o
actual cenário social e económico em Portugal. Largos milhares de pessoas
concentraram-se, pelas 15 horas, na Praça da Batalha, de onde rumaram depois
para a Avenida dos Aliados.
Em ambos os locais
houve palavras de ordem gritadas contra o Governo, contra a banca e contra a
troika, e apesar de José Sócrates e o anterior executivo não terem escapado às
críticas, a verdade é que foram os nomes de Passos Coelho, Cavaco Silva e Vítor
Gaspar os alvos preferenciais das vaias dos “indignados”. E se o actual governo
teve estado de graça, há que reconhecer que foi curto, porque nas ruas há já
quem diga que não faltará muito para haver derramamento de sangue, e para que o
actual primeiro-ministro comece a ter razões para temer pela sua segurança.
Passavam poucos
minutos das 15 horas quando foram abertas as hostilidades na Batalha. O microfone
estava aberto e acessível a quem quisesse dizer publicamente o que lhe ia na
alma, e foram muitos os que subiram a escadaria da Igreja de Santo Ildefonso para
usar da palavra. Havia cartazes escritos em inglês e em castelhano, e um casal
alemão, à conversa com o Mente Despenteada 3, reconheceu a elevada ingerência
da Alemanha na política de todos os países da União Europeia, considerando que
os portugueses se vêem actualmente confrontados com desafios muito complicados,
com a perda do poder de compra a crescer avassaladoramente, sem que o Estado
esteja a ser capaz de dar garantias de que a austeridade terá bons resultados.
O protesto seguiu
depois pela Rua de Passos Manuel, a caminho da principal praça da cidade, onde foi
distribuído aos manifestantes e jornalistas presentes um comunicado do grupo
Indignados do Porto, onde podia ler-se que, tal como na Islândia, na Grécia ou
em Espanha, “também nós, em Portugal, queremos dar voz à indignação e dizer não”.
Recusando o que dizem ser “o ideal economicista da sociedade, capaz de gerar e
perpetuar profundas desigualdades e injustiças brutais”, afirmam pugnar por uma
sociedade mais justa e equitativa, que abra caminho a um mundo novo, diferente,
mais justo e mais solidário, responsabilidade que recai, segundo o documento,
sobre todos nós.
“Este governo foi
eleito com mentiras”
O Mente Despenteada
3 fez o percurso entre a Praça da Batalha e a Avenida dos Aliados à conversa
com José Soeiro. O dirigente bloquista, sociólogo e ex-deputado à Assembleia da
República, foi comentando aquilo que via, envolto num mar de gente descontente
e indignada mas com disposição para agir e lutar, sem nunca baixar os braços...
Como vês a adesão a esta manifestação aqui no
Porto?
Do ponto em que
estou não me é ainda possível ter a dimensão exacta da manifestação, mas é
muita gente! São muitos milhares de pessoas. Não sei quantificar, mas é muita
gente. Acho que uma das razões para que haja tanta gente é o facto de terem
passado apenas dois dias sobre o anúncio deste corte brutal de dois meses de
vencimento para grande parte dos funcionários públicos, de uma nova subida do
IVA… É mais austeridade, e acho que as pessoas estão fartas. O facto de estarem
hoje aqui é o sinal desse sentimento, porque assim é impossível sobreviver… Retirar
o rendimento às pessoas significa que elas deixarão de ter capacidade para
responder às suas necessidades, e isso significa que haverá mais desemprego, o
que vai gerar mais recessão… É um ciclo infernal, do qual não se sai! E o que é
mais absurdo nisto tudo é que nós olhamos para a Grécia, vemos o que se está a
passar por lá, o que estas medidas estão a provocar, e aqui continua-se a fazer
o mesmo, com o argumento de que temos de obedecer ao FMI, com a Banca a marcar
presença no Conselho de Ministros onde estas decisões são tomadas e a assegurar
a manutenção das suas margens, e com a maioria da população a ser brutalmente
atacada…
Como é que a manifestação de hoje pode ajudar
a travar esse ciclo infernal de que falas?
O grande desafio é a
luta social, as pessoas fazerem-se ouvir. A rua é o espaço em que nasceu a
democracia, e é na rua que ela tem de voltar a fazer-se ouvir…
Mas não há ainda a ideia de que sair à rua e
protestar não resolve grande coisa?
Pois, essa é, quanto
a mim, a dimensão que falta trabalhar. As pessoas mobilizam-se mais facilmente
se sentirem que há uma alternativa palpável, e essa alternativa passa pelo
esforço de construção de um programa político, de sabermos como é que saímos
disto, com que políticas. Várias hipóteses têm sido aventadas, desde a taxação
das mais-valias, a renegociação da dívida, o fim dos off-shores… No fundo, é
preciso pôr o sistema financeiro a contribuir para a resolução desta crise, e
compreender que um país não se gere como se gere uma casa. Porque numa casa não
há off-shores, nem há especulação financeira (o filho não especula com o
dinheiro da mãe), enfim… O país não é uma casa! Para podermos, a médio prazo,
sair desta situação, é preciso levar a cabo uma política expansionista, e não
recessiva. É preciso criar emprego, é preciso investir, e é preciso que o
Estado invista. Não é pela via dos cortes sistemáticos, porque quanto mais se
corta menos a economia resiste. Perde-se poder de compra e até o Estado recolhe
menos impostos, porque as pessoas têm menor rendimento, compram menos…
Mas
isso é extremamente claro. Não deveria sê-lo também para o Governo, que ainda
por cima é liderado por uma pessoa formada em Economia?!
É extremamente claro,
sim. O que acontece, muito simplesmente, é que isto colide com os interesses do
capitalismo financeiro e de quem beneficia dele, e que é quem comanda esta
crise. Neste momento, a riqueza está a ser transferida directamente de quem
trabalha para pagar aos bancos, à dívida. É uma transferência directa de
rendimento dos trabalhadores para o sector financeiro, e portanto, neste
momento, quem manda é o sector financeiro. Manda no PSD, manda nas instituições
internacionais que tutelam o país…
Então, e como é que se resgata o país às
garras do sistema financeiro?
Só com democracia. Saindo
à rua e exigindo, por exemplo, uma auditoria de cidadãos à dívida, como está a
fazer-se na Grécia. Ou seja, nós queremos saber quem é que está a ficar com o
dinheiro. Esse é um primeiro princípio de transparência na informação, para a
poder daí se poder construir alternativas. As pessoas têm de sair à rua, dizer que
isto é insustentável. As pessoas têm de dizer: “Parámos. Acabou, já chega”. Porque
acho que só nessa altura é que conseguiremos fazer com que o poder político
acorde. O problema, acho, não é elegermos outras pessoas. O problema é mesmo
aquele conjunto de entidades que nós não elegemos. É que quem tem poder hoje –
o Banco Central Europeu, a troika, de que o BCE faz parte, ou mesmo a Comissão Europeia
– não é eleito.
Era o que se lia há pouco em alguns cartazes:
ninguém votou em Angela Merkel…
Precisamente. E por
isso temos de avançar para formas de democracia à escala europeia, para que
possamos exigir que esta gente responda perante o povo. No actual modelo não há
ninguém que responda ao povo! Os governos nacionais dizem que “isto é muito
mau, mas temos de fazer porque eles obrigaram”, e “eles”, os que obrigam, são
sempre pessoas que não têm de prestar contas a ninguém. Desse ponto de vista, o
capitalismo está a acabar com a democracia. Acho que é evidente que aqueles que
foram eleitos não estão a agir nos interesses do povo que os elegeu, e sim de
uma minoria, mas o nosso alvo não é a democracia. É a falta de democracia. O problema
não está na nossa capacidade para eleger pessoas, mas sim no facto de o poder
estar concentrado nas mãos de pessoas que nós não temos capacidade de eleger e
de controlar.
Pessoas que não respondem perante o
eleitorado…
Exacto. Pessoas não
respondem perante o povo, e como tal estão-se a marimbar. Vêem as manifestações
e pensam: “Porreiro! Não tenho de responder perante eles”. Acho que esse é o
grande problema na actualidade. A democracia à escala europeia é uma das
dimensões mais importantes da resposta aos actuais problemas, penso.
E internamente, apenas quatro meses depois de
termos ido a eleições legislativas e termos mandatado um novo governo esta
manifestação não está de certo modo ferida de alguma falta de legitimidade? Como
é que podemos reclamar legitimamente de um governo que acabámos de empossar nas
urnas, com uma percentagem expressiva de votos?
Poderia pensar-se
assim, mas creio que mesmo quem votou no PSD votou ouvindo Passos Coelho dizer
que cortar no subsídio de férias e de Natal era um disparate; votou ouvindo-o
dizer que a austeridade não pode recair sempre sobre os mesmos; votou ouvindo-o
dizer que é preciso crescimento económico; votou ouvindo-o dizer que é preciso
criar emprego! É óbvio que quem tivesse um pouquinho mais de atenção e lesse o
programa político do PSD – onde não estão claramente explanadas todas estas
medidas, este arraso (porque se estivesse, evidentemente eles não ganhavam as
eleições), mas está o essencial da sua ideologia liberal – perceberia que esta
seria a linha de actuação deste governo. Por isso, de certa forma, acho que
quem tem a legitimidade ferida é o próprio governo, porque foi eleito dizendo
que não ia fazer precisamente o que está a fazer…
Com mentiras?
Com mentiras. Esse é
um dos dramas da política, porque só temos duas alternativas: ou se rompe o pacto
com a troika, ou não há hipótese de haver democracia e de o país sobreviver. O pacto
com a troika vai destruir o país.
E romper o pacto com a troika não vai também
destruir o país e deixá-lo isolado, à margem da Europa?
Por isso, para
romper o pacto com a troika teria de haver uma acção concertada de Portugal com
a Grécia, com a Irlanda, eventualmente com Espanha, porque, por exemplo, não
sou nada favorável à saída de Portugal do euro. Poderiam dizer-nos que essa
solução representaria um empobrecimento. Pois é. Por isso devemos evitá-la, mas
aquilo a que hoje assistimos é também um empobrecimento brutal: as pessoas perderam
20 por cento do seu rendimento, só nos salários, e depois ainda houve os
aumentos nos impostos. Daqui a dois anos vamos olhar para trás e perceber que
perdemos metade do rendimento. Isso é insustentável! Num país em que já existe
uma franja de 20 por cento de pessoas a viver na pobreza, a continuar a cortar
assim nas políticas sociais o que vejo daqui a uns anos é um país
desertificado, transformado numa espécie de uma aldeia interior da Europa onde
não vive ninguém, com uma crescente taxa de emigração entre as pessoas que têm
alguma qualificação e que procuram emprego noutros sítios… É uma destruição do
nosso futuro.
E como comentas, por exemplo, a antipatia que
se sentia para com o anterior governo, e em particular para com José Sócrates,
quando o actual governo está em funções há apenas quatro meses e já parece
haver tanta revolta e tanta gente a querer pô-lo fora do poder?
No contexto de
ditadura financeira em que vivemos (bem sei que temos a possibilidade de eleger
os nossos representantes e de irmos para a rua manifestarmos o descontentamento
que sentimos, e isso faz parte da democracia, mas acho que a economia não é
democrática e o cenário actual é o de uma ditadura financeira), os
primeiros-ministros que administram esta ditadura, e que não respondem pelo
interesse geral, da maioria, mas estão presos aos interesses e ao poder do
capital financeiro, vão “queimar-se” cada vez mais rapidamente, porque neste
contexto, se não quiserem romper com essa ditadura, não lhes resta outro papel
que não o de mensageiros das más notícias. Acho que o drama deste momento que
estamos a viver é precisamente esse: os primeiros-ministros e todas as pessoas
no poder que não quiserem romper com essa ditadura vão queimar-se como fósforos!
Porque já não existe sequer o papel da política, a dimensão da escolha. Não. Nós
fazemos o que eles nos mandam fazer! Hoje não respondemos pelo povo, mas
representamos os mercados, e isso vai-se naturalizando… Por exemplo: quando foi
anunciada esta reforma da Administração Local que está em curso, o que nos foi
dito pelo Governo foi que ela teria de ser feita porque a troika nos obriga a
poupar dinheiro. Deixou de haver uma discussão sobre o território, deixou de
haver política! E isto é assim em todas as áreas…
Impera o critério meramente economicista.
É o carácter
economicista destas políticas, mas que é economicista também porque há a ideia
de que se gastou demasiado nos últimos anos, mas atenção, porque há países
muito mais endividados do que Portugal! Historicamente, não é verdade que o
país não tenha atravessado outros momentos como este, com dívidas desta
dimensão. Como já disse, não se gere um país como se gere uma casa, e o
endividamento nesta altura pode servir para evitar a bancarrota no futuro. Sobretudo
estamos a ser alvo de um ataque especulativo. Grande parte do dinheiro que
temos de pagar não é dinheiro que nos emprestaram, mas sim juros. Portanto, não
estamos a pagar o que nos emprestaram. Estamos, de facto, a enriquecer um
conjunto de entidades que estão a engordar à nossa custa, e que são
insensíveis, precisamente porque não respondem perante nós! Estão-se a
marimbar. Se viermos para a rua, eles dizem-nos para protestarmos com o
governo. Hoje o poder maior não é o poder visível. É precisamente o poder invisível,
e é contra esse poder que devemos usar as nossas energias, para torná-lo
visível.
Diante de tudo isso, o actual contexto económico
e social não deveria ser favorável a uma viragem à esquerda e não, como vimos
por exemplo na Madeira, a um aumento da força da direita?
Seria. Seria, mas há
um problema. No contexto da história da esquerda portuguesa, e dos partidos que
fazem parte dessa história, enfrentamos uma situação complicada: é que a
esquerda sem o Partido Socialista não tem força para um governo alternativo,
mas neste momento um governo com o PS também não seria um governo alternativo,
porque o PS, mediante estas medidas, já veio dizer que não votará contra o
Orçamento de Estado. Que no essencial concorda com estas medidas. Não só os
socialistas assinaram o acordo com a troika, e vêm agora defendê-lo, como vêm
defender também o próprio Orçamento do PSD e do CDS. Objectivamente, o PS está
hoje do lado do problema, e não do lado da solução. E isso é dramático, porque
precisávamos que a esquerda tivesse força suficiente para apresentar uma
alternativa ao país. Ora, o que hoje acontece é que aqueles que têm uma
alternativa não têm força suficiente para a realizarem e para serem governo, e
o partido que teria essa força, e que poderia devolver à esquerda a capacidade
para liderar o destino do país, está a rolar noutro sentido. O problema é esse.
Enquanto os partidos à esquerda do PS não tiverem força para impor ao PS uma
alternativa e construir um novo bloco social e uma nova maioria, há um certo
desânimo. As pessoas vêm para a rua, mas não visualizam uma alternativa
concreta. Temos de juntar toda a massa crítica que no nosso país acha que o
capitalismo está a destruir-nos. Precisamos de outra forma de encarar o
trabalho, vendo os trabalhadores como um recurso, e não como um problema, e de
ver as leis do trabalho como uma protecção e um direito humano, e não como um
resquício do passado…
Precisamos de mudar de paradigma?
Sim, precisamos de
um novo modelo económico, e de deixarmos de nos ajoelhar perante o capital
financeiro. Vamos fazer uma auditoria à dívida e dizer que não pagamos uma
parte dos juros, porque são ilegítimos, e que há uma parte da dívida motivada
pela corrupção e que deve ser paga por quem a fez! Estamos a debater um
problema que é de ausência de dinheiro, mas vendemos o BPN – onde enterrámos
quatro mil milhões de euros – e fomos vendê-lo, por uma ninharia, a um tipo que
tinha para com o BPN uma dívida maior do que o dinheiro pelo qual comprou o
banco! Américo Amorim devia ao BPN mais dinheiro do que aquele que deu pela
compra do banco, e quem meteu dinheiro nesse banco fomos nós!
Esta é, de facto, uma situação quase
caricatural…
É caricatural, mas
infelizmente há situações parecidas com esta na Europa. Não com o escândalo do
BPN, porque nisso acho que tivemos uma certa originalidade, mas há de facto
situações parecidas noutros países. E isso coloca uma questão interessante
sobre este protesto, que é a possibilidade de aprofundar a dimensão europeia
das próprias lutas. Nós precisávamos de uma saída à escala europeia, e para
isso é preciso juntar as forças sociais à escala europeia. Para mim a solução é
essa. O desafio é mesmo mudar a Europa.
Texto e fotos: Carla Teixeira
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