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quinta-feira, 7 de abril de 2016

A experiência sociológica nas salas de espera dos hospitais portugueses


Por causa de um súbito e intenso mal-estar de uma amiga, entre o Centro de Saúde e o Hospital de Faro passei ontem uma bela tarde a limpar com o rabo as cadeiras de salas de espera da Saúde nesta cidade. Até aqui nada de surpreendente, de tão conhecida que é a realidade do funcionamento dos sistemas de saúde em Portugal! É de facto digna de estudo a forma como as coisas se passam nesta área no nosso país! A história começa logo no atendimento na Linha Saúde 24, a que a minha amiga recorreu numa primeira fase, por viver na Cidade de Faro há relativamente pouco tempo e não ter ainda, apesar de já ter feito o pedido em Agosto do ano passado, médico de família atribuído! Nesta linha, apesar de considerarem que o problema dela poderia ser bastante grave e carecer de intervenção imediata e até de exames complexos (TAC, por exemplo), enviaram-na para o centro de saúde, onde algumas horas depois lhe foi explicado pela médica que a atendeu que nenhum dos exames que permitiriam despistar as suspeitas que tinham do mal que a acometia podiam ser realizados ali! Nice... Fomos então para o Hospital. Deixei-a à porta da Urgência e quase uma hora depois quem precisava de atendimento urgente era eu, tal foi a dificuldade em encontrar um lugar legal para estacionar o carro sabia-se lá por quanto tempo! Acabei por deixar num parque pago, já que nestes sítios, já sabemos, há sempre lugares que chegam e sobram para as necessidades. Go figure! Entrei finalmente na urgência, onde fui encontrar a minha amiga, já com a triagem feita, de pulseira amarela no pulso, na sala de espera correspondente: para quem não sabe, o Hospital de Faro tem uma sala de espera para os "verdes" e outra para os "amarelos", e nada para as outras cores, suponho que pelo optimismo desenfreado de quem acha que mais urgentes "laranjas" e "vermelhos" poderão ser todos atendidos no imediato. Oh, santa ingenuidade! Um placard na parede informava que a espera prevista para os doentes "amarelos" era de 1h30. Brincalhões, os senhores que se dão ao trabalho de escrever estas coisas num placard numa parede de uma sala de espera atafulhada de gente crente no que os olhos deixam ver que é uma mentira completa! Ainda não eram 16h00 e na sala ecoavam frases como "estou aqui há quatro horas", "estou aqui desde as 9h00" e afins... Entre espera, atendimento, exames, novo atendimento, diagnóstico, medicação e saída da urgência, a minha amiga precisou de mais de cinco horas. Eu já lá esperei sete, só para chegar a ver a cara do médico, e por isso, tristemente, tenho de concluir que este até nem foi um caso assim tão dramático de espera. Mas estar umas horas fechada numa sala de espera com gente tão diversa e tão patusca como a que ontem pude apreciar merece, garanto-vos, aprofundado estudo. Permanecer numa sala de espera de um centro de saúde ou de um hospital português - ou, se tiverem sorte, dos dois na mesma tarde - é uma experiência sociológica que quase nos convence de que há mesmo cromos (e, para nossa desgraça, nem são assim tão raros) como os que vê quem vê os "reality shows" de domingo à noite da TVI. É que eu, pelo menos até ontem, acreditava que aquela gente era fabricada. Que eram actores, foleiros mas actores, pagos para se fazerem passar por pessoas "normais"... Ontem, porém, vi e ouvi de tudo naquela sala. Desde pessoas que exalavam de cada poro um cheiro nauseabundo a suor de meses ou de ciganos que garantiam ter planos para ter "mais sete ou oito filhos, que são a alegria de um pai" (abençoados rendimentos mínimos!), ou ainda de homens a dizer que iam "para o tasco enfiar copos de whisky para enganar as dores" a ignorantes orgulhosos na ostentação da sua ignorância: uma estava espantada, e crente de que tinha descoberto o "esquema para nos enganarem" de toda a gente ter pulseira amarela. Achava ela que era um embuste "para ninguém se queixar da espera": "Dão pulseira amarela a todos e assim ninguém sabe quem é o mais grave nem quem deve ser atendido primeiro". Expliquei-lhe que aquela era a "sala dos amarelos" e que era apenas por isso que todos tinham a tal pulseira amarela. Olhou para mim como se eu lhe explicasse como se põe a trabalhar um foguetão da NASA e nem se dignou a responder. A mesma criatura atreveu-se depois a debater questões políticas com as vizinhas de infortúnio: dizia ela, ante o espanto generalizado dos poucos que tinham dois dedos de testa e que o destino sentara naquele espaço diminuto atulhado de cadeiras com e sem rodas, que os jornais e as televisões nos enganam todos os dias. Arregalei os olhos, num primeiro momento, pensando que de facto sairia daquela cabecinha pensadora uma ideia estruturada, mas a senhora saiu-se com esta: "Não percebo como é que dizem que estamos numa democracia se temos um Presidente da República! Se isto fosse uma democracia, teríamos de ter um Presidente da Democracia! Não percebo por que é que dizem que vivemos numa democracia", insistia a senhora. Eu, neste particular, estou com ela. Não sei como pode alguém dizer que se vive numa democracia num país cujos destinos são escolhidos pelo voto deste tipo de pessoas. Democracia? A malta vive é num circo!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Porque não basta ter cérebro, é preciso saber usá-lo...



Gosto de pensar que tenho um cérebro e que sei usá-lo. Não digo que sou um novo Einstein, ou coisa que o valha, mas gosto de pensar pela minha cabeça – acho que ela serve também para isso, e não apenas para experiências com os champôs e os colorantes da moda –, de ter opiniões minhas, fundamentadas pelo meu conhecimento e pela carga empírica que a vida me vai pondo em cima dos ombros. Não entendo, por essa razão, aquela coisa tão tipicamente portuguesa de “emprenhar pelos ouvidos”. Fulano diz-nos uma coisa (normalmente diz mal de Beltrano), e nós, sem tentar sequer averiguar se o que ele diz é verdade, passamos a ter um ódio de morte pelo Beltrano, esse escroque que se finge de simpático mas na verdade deve ter a chave do Inferno debaixo da almofada que usa para dormir! :P

Convenhamos... As opiniões de cada um são isso mesmo: opiniões de cada um. Se uma pessoa – mesmo que seja o teu melhor amigo – tem uma má opinião sobre algo ou alguém, convém que percebas, antes de tomares as dores dele, se essa opinião é válida. Se tem de facto uma razão de ser, ou se resulta, como tantas vezes acontece, do diz-que-disse da malta da zona! Eu, como já disse, gosto de pensar pela minha cabeça. Foi assim que nasceu o nome deste blog, aliás! Numa certa noite do longínquo ano de 2003, quando falava com um amigo sobre tantas e tantas coisas que nos enchem os dias, disse-me ele que achava interessante o facto de eu nunca fazer juízos de valor sobre pessoas e realidades que não conhecia. Que achava muito sensato o facto de eu não tecer comentários, bons ou maus,  sobre determinada coisa, até ter pelo menos a chance de a conhecer com os meus olhos, com os meus ouvidos e com a minha capacidade de pensar. Para esse meu amigo, a minha era uma mente despenteada que recusava ser penteada por pentes alheios. Gostei da metáfora, e assim ficou.

Ao longo dos últimos meses tenho confirmado o que, bem no fundo, sempre soube: as pessoas não pensam. Preferem comer a papa que outros prepararam, que dá menos trabalho e no fim é menos a louça que têm para lavar. É sempre mais fácil dizer, quando se prova que estão errados, que “foi fulano que me disse”. Os fulanos mentem. Premeditadamente ou não, por maldade ou ignorância, por descuido ou impreparação, as pessoas mentem, adulteram, traficam ideias que nem sempre correspondem à verdade. E as outras pessoas ouvem, assimilam, não questionam sequer a veracidade dessas ideias. Pois eu não vou por aí. Eu questiono tudo, e depois destes meses a confirmar como a humanidade pode ser mentirosa, dissimulada e hipócrita, faço ainda maior questão de pensar por mim. Costumo dizer que tenho olhos grandes para poder ver bem. E mesmo não tendo orelhas de abano, gosto de pensar que têm o tamanho suficiente para me fazer chegar o que preciso de ouvir. E tenho cérebro, para usar, para pensar, para desconstruir conceitos e construir novas ideias, minhas e só minhas.

Acusam-me frequentemente de ser demasiado frontal. Politicamente incorrecta, verdadeira além da conta, se é que me entendem. Pode ser. Pode ser que, como me dizem, isso me tenha prejudicado ao longo da vida. Nisso acredito piamente, nem contesto. É mais do que certo que por diversas vezes me dediquei a causas que não mereciam o meu empenho e me aproximei de pessoas que não tinham nível para aguentar a minha amizade, ou sequer para a apreciar, até porque as pessoas só gostam de nós enquanto lhes dizemos o que querem ouvir e lhes damos “oupas” às opiniões e aos juízos de valor que proferem, por mais toscos que sejam. Ora, eu não gosto de ser tosca. Estive quase 10 meses na barriga da mãe, acho que tenho a obrigação de ter nascido bem acabada! E por isso, caros amigos, não tenciono mudar uma vírgula na minha forma de ser e de agir, que é sempre – disso faço questão – educada e respeitadora, mas não servil e idiota. Quem não gostar da pinga pode sempre mudar de tasco! ;)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Por que é que as pessoas não têm filhos?

Muitas pessoas têm a mania dos filhos. Se os têm só falam deles, se os não têm fazem contas ao dia em que hão-de tê-los ou lamentam o tempo que perderam a preparar-se para os ter até ao momento em que, quando estavam prontas, já ser demasiado tarde. Se as pessoas não se perguntam por que é que (ainda) não tiveram filhos, há sempre alguém pronto a fazer essa pergunta por elas! "Então, quando é que tens um filho?", "Para quando o rebento?", "Já estão juntos há tanto tempo, não pensam nisso?!"...

Bem sabemos que a população portuguesa está envelhecida, e que faz falta que nasçam muitas crianças, mas nem toda a gente pode ou quer contribuir para esse crescimento demográfico, ainda que reconheça nele um desígnio nacional premente! O que me choca nem é tanto a pergunta, mas antes a insistência, a cobrança, a ideia de que é obrigatório a quem está num relacionamento estável ou atinge uma certa idade o projecto de ter um "rebento". Ou vários. E depois aquela ideia nojenta de que "uma mulher sem filhos é incompleta, é apenas meia-mulher"...

Ter filhos não é nem pode ser algo imposto pelos outros. Ter filhos, ou não os ter, é um assunto nosso, do foro íntimo de cada um de nós, do casal, da família, de cá de casa. Privado! Sei que nem sempre há maldade na pergunta, mas caramba... Se duas pessoas estão juntas há cinco, 10, 15 anos e não têm filhos, ou é porque não querem ou é porque não podem, não vos parece claro?! Parem de perguntar, de exigir, de cobrar um prazo para o que nunca vai acontecer!

Já vos passou pela cabeça que essa pergunta que repetem até à exaustão ecoa todos os dias na cabeça de milhões de pessoas em todo o mundo, como uma obrigação a satisfazer para gáudio e capricho de terceiros, para quem é fraco e não pensa pela própria cabeça, ou como uma triste confirmação de uma incapacidade, de um "defeito" que nos tolhe e nos deprime, se ter filhos era algo que queríamos muito, desde miúdos, mas que afinal nos é impossível ter? "Para quando um rebento?", perguntam vocês. E para quando meteres-te na tua vida, perguntamos nós!

Por circunstâncias imensas e muito variáveis há pessoas que não podem ter filhos ou que escolheram não os ter. Get over it! Mesmo sendo pessoas amorosas, que adoram crianças, que se emocionam com as crianças dos outros, há pessoas que nunca vão ter filhos, fixem bem isto! Habituem-se à ideia! E parem de os exigir, de os reclamar! Porque um dia destes a pessoa farta-se de ouvir a pergunta e quando lhe perguntarem pelo rebento arriscam-se a que ela vos rebente a cara toda! Just saying... 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Um ano de Cookie, um amor para toda a vida!


Faz hoje um ano que adoptámos a Cookie. Foi por acaso que a conheci, como foi por acaso que conheci quem ma apresentou e quem me apresentou quem ma apresentou. Quando estive internada no Porto conheci a Orlanda, que depois, sabendo que me tinha mudado para Faro, me apresentou e me fez “amiga do Facebook” da Cecília, que definiu como uma “amiga dos animais”. Foi a Cecília que naquele fabuloso fim-de-tarde me pôs nas mãos a minha primogénita. “Olá, eu sou a tua mamã”, atirei eu àqueles olhos grandes e amarelos que se lançavam aos meus como flechas, indagando quem era e o que lhe queria. Li no olhar da Cecília, bondoso como ela, que tinha apreciado o carinho que pus na voz na primeira vez em que falei à minha miúda.

O amor nasceu logo ali, brotando da sementinha que, horas antes, a Cecília tinha lançado à terra através do Facebook, ao publicar o anúncio de uma gatinha para adopção. A Cookie deveria ter entre seis e oito meses. Decidimos depois, por falta de melhor informação, que aquele seria o dia em que completaria os sete meses. Era pequenina e escanzelada, tinha o pêlo eriçado e sem brilho, e toda ela era olhos. Olhos inequivocamente amarelos, que mais tarde foram esverdeando. Era linda. É linda, mas agora mais cheia de carninha, de brilho, de manifestações amorosas de graça e de uma candura que parecia impossível de atingir, tal era o medo que demonstrava de tudo e de todos. Apesar de ter dormido encostadinha a mim logo na primeira noite, ronronando com as minhas festinhas e deixando que lhe pusesse a mão por cima, em jeito de abraço, demorou meses a confiar em mim ou no papá. Em deixar-se tocar sem reagir, sem arranhar, sem tentar fugir.

A curiosidade, tão característica nos felinos, ganha na Cookie novos contornos: faz dela uma sombra de cada gesto meu, de cada movimento. Segue-me para todo o lado desde o primeiro dia, a ponto de me surpreender enquanto durmo, com gritinhos quase mudos (a Cookie nunca miou), toques ao de leve com as patinhas e até lambidelas no cabelo (esse vício nunca perdeu), quando arrumo a casa ou até no banho. É a minha sombrinha, e só deixa de o ser, por pouco tempo, quando se deixa ficar à janela, “a ver os pipius” até adormecer. Quando acorda vem sempre cumprimentar quem estiver em casa, e é cada vez mais faladora e meiga no cumprimento. Até me ralha quando saio de casa e não a levo, que é quase sempre.

Meio ano depois de adoptarmos a Cookie trouxemos para casa a Sushi. Depois de cerca de três meses a alimentá-la na rua, juntamente com outros dois gatinhos que dividiam com ela um barracão em Faro, o inesperado momento em que ela, além de comer tudo o que lhe levei naquela noite, resolveu saltar-me para o colo precipitou a adopção que nos últimos tempos equacionávamos. Tinha lido que “os gatos são mais felizes aos pares”, e mesmo sabendo que a convivência entre duas fêmeas pode ser complicada, arriscámos. A Cookie poderia ser mais feliz com uma irmã, e a Sushi vivia na rua, entregue à fome e ao frio que naquela altura, Dezembro, era cortante. Tínhamos de a trazer.

A adaptação não foi (não está a ser!) fácil, mas a cada dia que passa elas parecem entender-se e aceitar melhor a ideia de que ambas estão para lavar e durar cá em casa. E nós não podíamos estar mais certos de que fizemos a melhor escolha possível. As nossas meninas são duas gatas, e as gatas, toda a gente sabe, são as melhores pessoas do mundo! A Cookie está connosco há um ano, a Sushi há meio. E parece (juro, parece mesmo!) que sempre aqui estiveram, que sempre fizeram parte de nós. Ou somos nós que fazemos parte delas, nem sei bem. Acho que somos partes do mesmo fruto, no fundo. Amor deve ser isto! :)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Se isto não se tivesse passado comigo, talvez não acreditasse...


Se, como eu, são daquelas pessoas que sempre acharam que a política é terreno de gente pouco séria, então preparem-se para ter a certeza, pois a situação que vou agora relatar-vos, e que se passou comigo (se não fosse comigo nem sei se acreditava!) é verdadeiramente reveladora…

Não sou, nunca fui e sempre disse que jamais seria militante de qualquer partido político. Não acredito em partidos nem na filosofia que lhes está subjacente, e arrepia-me a disciplina que é inerente a quem pensa e age em conjunto, de forma premeditada e ponderando todos os ângulos e efeitos de uma acção ou de uma palavra, pois sempre fui muito mais do tipo de pensar pela cabeça que trago em cima dos ombros, e que não serve só para ser emoldurada pelos caracóis do cabelo. 

A verdade é que nunca tomei qualquer medida no sentido de me inscrever como militante em qualquer formação político-partidária, e foi por isso com enorme espanto que hoje descobri, por um inacreditável acaso, que afinal parece que sou militante do Partido Socialista. Não sei como, não sei desde quando. Sei apenas que figuro como tal, segundo me foi hoje comunicado pelo site para inscrição e participação, apenas como simpatizante, nas eleições primárias do próximo dia 28 no PS.

Sendo certo que sempre recusei ser militante de qualquer partido, mesmo tendo sido convidada várias vezes para aderir a pelo menos dois, e que continuo a sentir essa aversão (a bem dizer começo a senti-la de forma cada vez mais clara e absoluta), hoje quis inscrever-me como simpatizante do PS para poder votar no candidato que prefiro ver no lugar de secretário-geral socialista e como provável candidato a primeiro-ministro nas eleições legislativas do próximo ano. 

Visando esse objectivo, fui então ao site das primárias e preenchi o formulário respectivo. Pretendia afirmar-me como simpatizante e usar esse estatuto apenas no acto eleitoral referido, e nunca tornar-me militante, mas assim que cliquei para envio da proposta de inscrição recebi a mensagem de que não poderia inscrever-me como simpatizante por já ser militante…


Ora, como já aqui disse, em momento algum anuí na militância, apesar dos convites que me foram feitos. Nunca fiz sequer um gesto ou tomei uma atitude que fosse no sentido da militância, no PS ou em qualquer outro partido. Parece óbvio que alguém o fez por mim, o que nem é assim tão espantoso, se tivermos em conta que ainda recentemente, no mesmo partido, houve quem inscrevesse pessoas já falecidas e lhes pagasse as quotas! Será que também pagaram as minhas?!

Tive o cuidado de enviar estas e outras perguntas ao PS, usando o endereço de e-mail constante na secção de contactos do site. Até ao momento não recebi resposta, o que é perfeitamente compreensível porque apenas se passaram alguns minutos desde o envio dessa comunicação. A verdade é que estou tão furiosa com isto que não consigo ficar calada nem mais um segundo! 

Como é possível que uma pessoa seja inscrita como militante de um partido sem saber, e sobretudo sem querer ser militante?! A falta de ética e de seriedade já chegou a este ponto?! E agora, como é que saio disto? Como é que me desvinculo de uma militância que não escolhi e que só descobri por acaso?! E se por acaso eu fosse, por minha vontade, militante de outra formação partidária, quem assumiria a responsabilidade pela aparente má-fé da minha suposta dualidade?!

Tudo isto é sujo. É nojento. Doentio.
Como pode a política ser tão fascinante, se os políticos são capazes de ser tão abjectos?!

sábado, 24 de maio de 2014

Pauliteiros de Vila Nova de Anços promovem 6º festival infantil


O Grupo de Pauliteiros de Vila Nova de Anços, uma pequena aldeia do Concelho de Soure, no Distrito de Coimbra, promove no próximo dia 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, a sexta edição do seu Festival Infantil de Danças e Cantares. A tarde promete ser animada, com actuações do grupo anfitrião e de mais três ranchos folclóricos.

O início da festa está marcado para as 15 horas, com a realização do habitual desfile dos vários grupos participantes pelas ruas da localidade, após o que, cerca de meia hora mais tarde, terão lugar as suas actuações. A secção infantil do Grupo de Pauliteiros de Vila Nova de Anços abre o programa, seguindo-se o Rancho Juvenil da Casa do Povo de Arganil, o Rancho Etnográfico Infantil da Borda do Campo e, a fechar, o Rancho Folclórico Infantil das Fazendas de Almeirim. A entrada é gratuita e aberta não só aos locais, mas a todos os interessados, oriundos de qualquer ponto do país.

Criado a 15 de Agosto de 1935, o Grupo de Pauliteiros de Vila Nova de Anços é hoje um dos mais antigos grupos de folclore em actividade em Portugal. A formação da secção infantil é relativamente recente, mas tem conquistado enorme sucesso junto de todos os que assistem às suas interessantes actuações, de tal forma que este é já o sexto festival dedicado em exclusivo aos pauliteiros mais jovens, e que conta sempre com a participação de outros ranchos folclóricos infantis.

Os pauliteiros mais pequeninos são uma versão mini dos mais velhos, conhecidos e prestigiados aquém e além-fronteiras, tantas são as solicitações para actuarem nos mais diversos pontos do país e até lá fora. Os Pauliteiros de Vila Nova de Anços sentem sempre alguma dificuldade em escapar à comparação com os de Miranda do Douro – a maioria dos portugueses desconhece mesmo a existência de outros grupos de pauliteiros em Portugal –, mas frisam que têm características muito próprias. Desde logo o traje, mais sóbrio e menos garrido do que os do grupo transmontano, mas também os paus com que se apresentam nos espectáculos, mais curtos do que os usados pelos bailarinos mirandeses (medem cerca de 60 centímetros de comprimento apenas e têm cerca de três de diâmetro) são pintados de branco com listas vermelhas, tendo as extremidades em azul e amarelo (as cores da freguesia). No topo ostentam duas fitas em cruz, com as cores de Portugal.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Responsáveis do «Janeiro» condenados a trabalho comunitário

FOTO: LISA SOARES/GLOBAL IMAGENS

O Tribunal de Gondomar condenou, este segunda-feira, Eduardo Costa e José Reis, responsáveis pela empresa Sedico, detentora do jornal "O Primeiro de Janeiro", a uma pena de dois anos de prisão, substituída por 480 horas de trabalho comunitário. Eduardo de Oliveira Costa e José Pereira Reis foram condenados pelo crime de abuso confiança fiscal, num processo-crime relacionado com dívidas às Finanças superiores a dois milhões de euros.

Na sessão de leitura da sentença, a juíza titular do processo afirmou ficar "provado o crime para os dois", acrescentando que a culpa de Eduardo Costa e José Reis "foi elevadíssima", porque ambos sabiam das dívidas ao Estado e não as quiseram pagar. "Desde janeiro de 2002 até março de 2008 nunca as pagaram", frisou a juíza, considerando que este dado "revela que desde o primeiro momento optaram por não as pagar". Os 2.085.162,54 euros de dívida relativos ao Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) "nunca foram postos em causa" pelo Tribunal, tendo a juíza dito que, apesar de José Reis argumentar durante o julgamento que "era apenas um pau mandado de Eduardo Costa", há documentos no processo "que o incriminam", designadamente "escritos e assinados" por si e que revelam que o arguido tinha "conhecimento da dívida" ao Fisco. Também o argumento de que sofreu um AVC em 1999 não colheu, uma vez que, disse a juíza, Reis "manteve-se no Janeiro, continuou a elaborar ofícios (...) e nunca renunciou por opção, nunca saiu da sede" da empresa.

Já em relação a Eduardo Costa, o Tribunal entendeu que, apesar de não haver documentos que o incriminem, "grande parte das testemunhas afirmaram nunca ter recebido ordem de José Reis". "No geral, testemunhas que trabalharam para a Sedico nunca receberam ordens de José Reis. Quem conheciam como patrão era Eduardo Costa", vincou a juíza. Assim, "a tese de que a intervenção que [Eduardo Costa] tinha era na redação não colhe", tendo a própria diretora do jornal, até julho de 2008, Nassalete Miranda, testemunhado ter "total autonomia editorial". "A sua intervenção estendia-se à área financeira, cabendo a José Reis o momento final de assinar os documentos", sublinhou a magistrada, para quem ficou também claro que Eduardo Costa "tinha conhecimento das dívidas".

Já quase no final da sessão, a juíza salientou que se as 480 horas de trabalho a favor da comunidade -- o máximo fixado por lei - não forem cumpridas, os dois irão para a prisão. Quando à Sedico, "não se sabe muito bem qual a situação concreta da empresa", concluiu a magistrada, referindo apenas ter sido declarada insolvente em 2009. No final do julgamento, enquanto não foi possível falar com Eduardo Costa, José Reis respondeu à Lusa de que não irá recorrer desta sentença.

Fonte: Jornal de Notícias

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Romaria a Nossa Senhora dos Remédios em Vila Nova de Anços


A Freguesia de Vila Nova de Anços, no Concelho de Soure, Distrito de Coimbra, estará em festa no próximo fim-de-semana, com a realização da sua tradicional Romaria a Nossa Senhora dos Remédios, que ocorre anualmente por alturas da Páscoa. O cartaz comemorativo arranca no próprio domingo pascal, mas conhece o seu ponto mais alto durante a tarde de segunda-feira, com a celebração religiosa e muita animação musical. A organização do evento coube desta vez à Sociedade Filarmónica Vilanovense, que assim pretende angariar apoios para dar continuidade à obra de construção da sua nova sede.
Do cartaz deste evento constam, no dia 20, pelas 11 horas, uma Arruada pelos Gaiteiros, e às 14h40, na Casa do Povo de Vila Nova de Anços, a habitual cerimónia do Enterro do Judas. No dia seguinte, pelas 10 horas, será também a Arruada pelos Gaiteiros a abrir as celebrações, mas as iniciativas mais marcantes estão reservadas para a tarde: a recepção à Filarmónica Vilanovense, pelas 15 horas; a celebração religiosa, que tem início 15 minutos depois; a actuação em palco da colectividade responsável pela organização da festa, às 16 horas; e, a fechar, a subida ao palco do Grupo Infantil dos Pauliteiros de Vila Nova de Anços, prevista para as 16h30. No recinto da festa estará disponível um serviço de bar e petiscos.
A Sociedade Filarmónica Recreativa e Beneficente Vilanovense foi fundada no dia 10 de Março de 1878, quando tocou a sua primeira marcha na praça onde se encontra o pelourinho, símbolo heráldico de Vila Nova de Anços. Desde essa data, a colectividade mantém a sua actividade de forma ininterrupta, visando sempre o objectivo primeiro de divulgar a música e a cultura local. A sua fundação surgiu no âmbito da actividade teatral, uma vez que tentou dar resposta àquela que era uma necessidade da altura: fazer o acompanhamento musical das operetas que eram levadas à cena naquela zona do país.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Dizem-me que sofro de um transtorno obsessivo compulsivo...


Talvez seja verdade. É verdade que gosto de arrumar as coisas à minha maneira, e que me irrito se alguém altera a ordem que estabeleci. É verdade que sou capaz de perder manhãs, tardes ou dias inteiros a arrumar uma divisão da casa ou mesmo um simples armário. É verdade que gosto de simetrias, de medir espaços para que fiquem simétricos, de arrumar coisas em caixas. Gosto de caixas. Compro muitas caixas, daquelas decoradas e bonitas, e meto tudo em caixas. Depois arrumo as caixas, por tamanhos e por cores, nos vários móveis ou em determinados recantos da casa. Arrumo os livros por tamanhos e cores, e os CD e DVD por ordem alfabética. Arrumo a roupa por tipos e por cores nas gavetas. As camisolas quentes vão para um lado, as mais frescas para outro, as de manga comprida ficam numa gaveta, as de manga curta vão, claro, para noutra, as cuecas e as meias são dispostas por cores, os tops e os soutiens em degradé...
Quando estendo a roupa também uso molas de tipos e de cores diferentes, consoante o estendal em que as utilizo e o fim para que as utilizo: no estendal interior, que tem cerdas mais grossas, uso molas maiores; no estendal exterior, porque tem corda mais fina e se cair alguma peça lá abaixo nunca mais a vemos, uso as molas mais pequeninas e mais fortes. As azuis são para a roupa do marido (quando não são suficientes uso também as verdes), as vermelhas são para a minha roupa (e se não chegarem uso depois as molas pretas), as amarelas para a roupa de casa. Estendo sempre as meias aos pares, e detesto encontrar meias solteiras, que nunca guardo nas gavetas enquanto não encontrar o par. Também organizo as coisas do marido. Peças de roupa que ele arruma "nos lugares errados", cadernos e livros que deixa espalhados na secretária ou no balcão da cozinha quando acaba de estudar, as bicicletas e os capacetes, as ferramentas e afins.
Quando saio à rua e levo carteira, toda a gente se ri da minha organização: tenho um arrumador de carteira, que permite ter sempre tudo muito arrumadinho lá dentro, e bolsas para tudo: para os óculos, para o rádio do carro (que ouço sempre no volume 19 ou 21), para o telemóvel, para os blocos de notas, porta-cartões, carteira para as notas, carteira para as moedas, bolsa para o auricular do telemóvel. Os bolsos da própria carteira têm utilizações pré-definidas: um para as chaves de casa, outro para as chaves do carro, um terceiro para o leitor de mp3, outro bolso para os elásticos e molas de cabelo, etc. e tal. E quando vamos às compras registo sempre as coisas por tipo e função (os detergentes todos juntos, os alimentos noutro grupo, cada coisa em seu saco, sem confusões nem misturas). E compro sempre sete maçãs. Nem seis, nem oito. Sete sempre. E sete tomates, sete cenouras, sete batatas... 
Gosto de constância, de tudo sempre na mesma. Não gosto de trocar as partes de trás dos brincos, mesmo que sejam exactamente iguais. Não gosto de trocar carregadores e cabos USB dos aparelhos (telemóveis, câmaras fotográficas, leitores de cartões), mesmo que sejam exactamente iguais. É a minha organização e dou-me bem com ela. É graças a este sistema organizativo que raramente esqueço de onde coloquei determinada coisa, e que mesmo de olhos fechados meto a mão na carteira e encontro em segundos aquilo de que preciso. Terei um transtorno obsessivo compulsivo? Talvez tenha. "É provável", pensam vocês. "É maluquinha", pensarão também. Sim, talvez seja. Mas sou assim e gosto. Gosto do meu esquema organizativo, gosto das minhas manias, gosto das minhas rotinas. Gosto de saber com o que conto e fico muitas vezes de pé-atrás com surpresas, mesmo que depois se revelem boas. Sou como sou. E quem não gostar da pinga... que mude de tasco! :)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O jardim da minha alma já não vive onde vivia...

“Se protegeres com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão”. Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Quando era miúda, principalmente depois do nascimento da minha primeira irmã, quando a minha mãe ficou em casa a cuidar dela e deixou de poder acompanhar-me todas as manhãs no caminho para a escola e todas as tardes no regresso a casa, costumava percorrer sozinha um longo caminho a pé. Saía do colégio, depois das aulas e de ter feito os trabalhos de casa, e partia ao encontro do meu pai, num ponto previamente definido de onde depois seguíamos juntos para casa. Chegava quase sempre antes dele, e por isso, com a experiência de fazer aquele caminho, comecei a treinar o passo e a saber onde e por quanto tempo podia parar sem correr o risco de me atrasar para lhe cair nos braços e contar como tinha sido o meu dia.

Algures nesse caminho, quase a chegar ao cruzamento onde nos encontrávamos, havia uma casa com muros altos, amarelos, e um imenso jardim, com árvores e flores, que todos os dias espreitava da rua. O jardim escondia a fachada da casa, porque eram altas as árvores, mas parecia nunca estar ninguém. E eu ficava ali, largos minutos, a contemplar em silêncio aquele jardim imenso, e a casa de fachada escondida onde não parecia haver ninguém para apreciar a beleza singular daquele quadro. Um dia, não sei se com coragem ou desmedida ousadia – é quase a mesma coisa, não é? – fiz mais do que apenas contemplar o jardim. Abri o portão e entrei, como se a casa fosse minha, naquela casa amarela de muros altos. Andei por ali, deambulando entre as flores, abraçando as árvores, falando com borboletas e outros bichos que voavam à minha volta. Não apareceu ninguém para me repreender.

Voltei no dia seguinte, e de novo entrei sem que ninguém aparecesse para me proibir ou recriminar. No dia seguinte também, e no outro dia, e no outro, e no outro… Aquele passou a ser o meu ritual diário no regresso do colégio. Nunca contei a ninguém que entrava todos os dias naquele jardim, e que ficava ali a falar com as árvores, as flores, os pássaros e as borboletas. Não sei se alguma vez alguém me viu, ou se alguém sabia daquele meu encontro vespertino com a Natureza, e talvez comigo, com a minha própria alma. Ali, naqueles minutos em que passeava por entre o verde do jardim e o amarelo dos muros altos da casa, sentia-me bem. Estava sozinha, mas era como se estivesse rodeada de amigos. Falava com eles, rodopiava entre as árvores, abraçava-as, inventava diálogos em que era uma princesa e os meus amigos imaginários eram príncipes, cavaleiros, donzelas e criadas, pessoas e animais capazes de dançar comigo, de partilhar comigo os seus devaneios, as suas crenças, os seus medos e os seus maiores sonhos.

Talvez já naquele tempo fosse louca. Talvez houvesse já dentro de mim aquela loucura em que hoje me revejo com prazer e aceitação, como se não houvesse outro remédio senão aceitar-me exactamente como sou, gostando até de ser exactamente assim. Já não danço entre flores, nem abraço árvores, e às vezes sinto falta disso. Sinto que me perdi da criança que fui, que jurei que seria sempre, no dia em que deixei de passar naquela rua, no regresso da escola, e de invadir os muros altos da casa amarela. Aquele era o meu jardim secreto, o jardim secreto da minha alma. Ali encontrava todos os dias o meu sorriso, a minha vontade de rodopiar entre as árvores, na minha dança com as borboletas. Naquele jardim, que por minutos era meu e apenas meu, sentia-me ser. Deixava-me ser, sentir, voar de dentro de mim para o mundo inteiro à minha frente…

Entretanto cresci. E às vezes tenho saudades de ser assim. De ser criança. De ser aquela criança que invadia casas de muros altos, que se permitia construir o jardim da sua alma nos jardins das casas dos outros. Há dias voltei àquela rua. Por acaso, sem premeditar. Procurei a casa amarela de muros altos, e ela lá estava. Mas os muros, que ainda são altos, já não são amarelos. São cinzentos, tristes, apagados. E o jardim já não é jardim, mas antes um enorme pátio de cimento onde há carros estacionados. A casa já não é uma casa. É a sede de uma empresa, com reclamos luminosos e amplas janelas de vidro duplo. A fachada foi alterada, e da casa não sobra qualquer magia daquele tempo em que ali construí o jardim da minha alma e rodopiei entre árvores e flores, dançando com as borboletas e falando com príncipes e princesas, cavaleiros e criadas que viviam apenas na minha imaginação.

Percebi então que o jardim da minha alma já não vivia ali. Que não há agora um espaço físico para esta magia que há dentro de mim e que me faz acreditar em príncipes e princesas, no amor e na saudade, no estar só mas sem deixar de ser feliz nessa solidão. Sei que a minha alma ainda floresce, luxuriante e rebelde como sempre foi, mesmo que não haja um lugar no mundo onde pessoas normais possam ver o meu jardim crescer. Sei que há flores dentro de mim, que há árvores que me abraçam e borboletas que esvoaçam enquanto falam comigo. Sei que mais ninguém vê o jardim que cresce à minha volta. Talvez pensem que sou doida quando me vêem falar com as plantas e os animais. Quando me vêem rir sozinha, sem perceberem que afinal não estou só. Estou comigo, no jardim da minha alma. Estou num lugar onde consigo abraçar quem amo, mesmo que já tenha partido, e em que consigo sorrir e ver a luz do sorriso das pessoas mais importantes da minha vida. Este é o jardim da minha alma. E era, até hoje, secreto. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Porta-a-porta: das vendas ao espancamento de portas fechadas...


Antigamente, sempre que alguém tocava à campainha cá de casa, tínhamos o hábito de abrir a porta, ou de pelo menos ir ver quem era e ao que vinha. Com o tempo, porém, constatámos que na maior parte das vezes quem toca anda a pregar a fé, a vender qualquer coisa ou a pedir, para si ou para as festas anuais da freguesia. Depois de anos e anos a sofrer na pele o “privilégio” de ser alvo preferencial das acções de telemarketing de tudo o que era empresa do ramo, agora, talvez porque deixámos de ter telefone fixo, já ninguém nos telefona. Agora é no porta-a-porta que se materializa o calvário! É raro o dia em que, aqui na rua, não andam pessoas engravatadas e com pastas debaixo do braço, sorrisos mais amarelos do que a gema do ovo e exacerbados ataques de simpatia que soam a tudo menos a genuína alegria por verem quem está por detrás das portas que se vão abrindo. A nossa raramente se abre. E se vemos que é disso que se trata, vendedores e outros pregadores, mesmo que nos vejam entrar em casa, quando tocam agimos como se não estivesse ninguém. E tocam uma vez, às vezes duas, e depois desistem.

Hoje o surreal aconteceu. Vimos do terraço que andava um dos tais engravatados a bater a todas as portas e a tentar impingir a quem as abria qualquer coisa entre telefones e televisão por cabo. Ele não nos viu, e por isso viemos para dentro de casa e prontamente decidimos que não abriríamos a porta quando o tal homem tocasse. E ele tocou. Tocou uma vez, tocou duas, tocou três. Surpreendida com a insistência, pensei em ir lá abaixo dizer-lhe que não tínhamos interesse no que quer que ele estivesse a vender, mas tendo em conta que estava ocupada e que, se não abri a porta à primeira nem à segunda, não fazia sentido abri-la à terceira, continuei a fazer o que estava a fazer. Aparentemente, o fulano desistiu. Cinco minutos depois, quando já ninguém se lembrava do tal homem, da gravata, dos telefones e do sorriso da cor da gema do ovo, o som estridente da campainha fez-se ouvir de novo, e de novo por três vezes.

Entre a incredulidade perante a insistência e a raiva que começava a nascer-me cá dentro, estava prestes a vociferar qualquer coisa quando ouvi – pasme-se! – o homem a bater à porta com o punho cerrado. Como se quem não tivesse ouvido a campainha (e só um surdo de pedra conseguiria tal proeza, ainda por cima com o cão a ladrar como se viesse aí o fim do mundo) ouvisse, por artes mágicas, os nós dos dedos a bater na porta! Por fim a criatura marchou e nunca mais foi vista, mas ficou no ar a pergunta: que espécie de desespero leva um vendedor de telefones que anda de porta em porta, de rua em rua, a massacrar de tal maneira as campainhas, os batentes e os próprios nós dos dedos?! Que acham estas pessoas que têm assim de tão importante para dizer que não há, da outra parte, a possibilidade de simplesmente não haver qualquer interesse em ouvi-los? Ou, mais grave ainda, como é que não pensam que pode não estar ninguém em casa, porque tal como eles as outras pessoas também têm empregos e sítios onde estar durante a tarde?!

Foi então que me lembrei da minha curta – curtíssima – incursão no mundo das vendas porta-a-porta. Não durou mais do que uma manhã, e só me apanharam lá porque na entrevista de emprego em que tinha estado no dia anterior me disseram que o trabalho era na área da publicidade e da distribuição, e ninguém me falou no porta-a-porta. Disseram-me para me vestir bem, formal, e usar calçado confortável, e antes de sair do escritório, com o que depois soube serem dois vendedores, ninguém me disse para onde íamos. Mas adiante, que as técnicas de recrutamento actuais são o que todos já sabemos: diz-se o mínimo sobre direitos, explica-se bem os deveres, elogia-se a função que nos atribuem até que enjoemos dela, antes mesmo de começar, e depois percebemos, na prática, que nada era o que parecia ser. Aguentei uma manhã a andar de porta em porta com os tais vendedores de telefones. Um deles, o “chefe de equipa”, tecia rasgados elogios à minha “atitude”, dizia gostar muito da minha “postura”, “educada e curiosa”, talvez por eu fazer muitas perguntas a que ele nem sempre sabia dar uma resposta convincente.

Durante essa manhã eu apenas tinha de ver “como se fazia”. Não tinha de fazer ou dizer nada, apenas “aprender” com “a equipa”. Ainda assim, para não ser completamente enfadonho, passaram-me para as mãos um mapa com o nome das ruas que íamos “visitar” e os números de todas as portas a que teríamos de bater, sendo a minha missão anotar, à medida que avançávamos, e em cada um dos quadradinhos, se havia pessoas em casa, se tinham telefone fixo, quando pagavam de assinatura mensal e se estavam satisfeitas com o serviço. Caso ninguém abrisse a porta, tinha de assinalar no mapa que não estava ninguém e, nesse mesmo dia, teria de voltar a tocar à mesma campainha da parte da tarde. A missão era, portanto, andar o dia inteiro no mesmo quarteirão, a bater a todas as portas, a subir a todos os andares de todos os prédios, a falar com os velhotes que nos abriam as portas (durante o dia há muitos velhotes sozinhos em casa) como se sofresse de um qualquer problema mental que mantinha o sorriso amarelo como a gema do ovo cravado na minha cara, e a tentar impingir-lhes o telefone (e até tínhamos um, dentro de uma caixa, que o meu “colega” oferecia a todas as pessoas que abriam a porta, dizendo-lhes: “Este telefone é para si, é uma oferta” (que depois lhes tirava da mão quando as pessoas diziam que não estavam interessadas no serviço que estávamos a vender).

Para mim bastou. Se quisesse enganar velhotes tenho a certeza de que seria capaz de o fazer autonomamente, por minha conta e risco, gastando muito menos solas de sapatos e muito menos hipocrisia! Não estava interessada e disse logo à “equipa” que aquilo não era para mim. Uma vez mais o chefe elogiou a minha “atitude e postura”, por “ter ido observar antes de recusar”, por “não ter dito logo que não”. Tive a certeza de uma coisa: é preciso ser forte para ser vendedor de porta em porta. É preciso ser fisicamente possante, capaz de simular simpatia até ao infinito, mentir quando nos perguntam pelo intercomunicador o que queremos (porque ninguém abre a porta a quem diz que anda a vender telefones). Não é mesmo para qualquer um. Mas mais do que isso tudo, é preciso ter pouco amor-próprio também, e ajuda se formos uns grandes chatos. E chatos já vi muitos, no porta-a-porta e em muitos outros lugares que por todo o lado agora se transformam em pontos de venda de qualquer coisa. O que nunca tinha visto era um chato desesperado como o engravatado que hoje me bateu à porta. Tocar à campainha de uma pessoa meia dúzia de vezes em meia dúzia de minutos e depois ainda ousar bater à porta com os nós dos dedos não é coisa de gente normal…

sábado, 6 de julho de 2013

Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor...


Há, entre os poucos que me conhecem bem, os que gostam muito de mim e os que não me suportam. Alguns gostam muito de mim por motivos que desconheço, mesmo até quando eu nem gosto muito deles. No extremo oposto, há os que me detestam, mesmo quando nada fiz que justifique tamanha ira. Em qualquer dos casos, é para o lado que durmo melhor. Gosto de quem gosto, tento inspirar nos outros o tipo de sentimento que nutro por eles. Se consigo, óptimo; se não consigo, paciência.

O que não entendo é aquele tipo de gente que se faz constantemente de vítima, que inventa ódios que nunca senti, que vê em mim uma fonte de inesgotáveis desamores. Eu até sou boa pessoa, juro. E tento ser melhor a cada dia que passa. Dou aos outros muito mais do que recebo deles, e mesmo assim, na hora de criticar e de insultar, com ou sem razão, é sobre mim que recai a escolha dessa gente, mesmo daqueles a quem já dei provas bastantes do meu afecto e da minha disponibilidade. Se a ideia é escolher um alvo preferencial, I'm the one! E sabem de uma coisa? I could care less. É verdade que podia não me importar. Afinal, sou o que sou e não aquilo que querem fazer de mim nessas tristes interpretações da realidade muito particular que só existe na cabeça dessa gente. Mas sempre me perturbou o raciocínio de quem vê sempre nos outros a culpa para os seus males.

De uma coisa eu sei: não sou perfeita. Longe disso. Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor. E quem se mete comigo fica sempre com histórias para contar. Os que amei hão-de amar-me para sempre. Os que poderia ter odiado - mas que optei por apenas ignorar - hão-de para sempre lembrar-se de mim. Felizmente, e a idade tem-me ajudado nisso, sou mais de perdoar do que de revidar. Não perco tempo com a mesquinhez alheia. Vivo melhor assim. Quando a minha paciência acaba tendo a ter mau feitio, mas para já, para meu bem e para bem de todos, opto pelo silêncio. É sempre uma boa arma. A quem me ataca, num acesso de umbiguismo sem precedentes, fica dado o recado: quem vai à guerra dá e leva, e um dia veremos quem ganhou a maior parte das batalhas. Não tenho medo desse julgamento.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Já falta menos de uma semana...

Despenteados amigos, já falta menos de uma semana para o dia do meu aniversário. Serão 37 os verões que completo, num ano que nem com a Primavera parece querer grande coisa, pelo que acho que mereço presentes dignos desse nome! Pela lógica, deveria listar aqui 37 presentes de sonho, para tornar mais fácil a vossa escolha (não quero que vos falte nada)! Mas como não sou assim tão exigente, e no fundo preocupo-me com a vossa saúde financeira, contento-me com estes cinco presentes que elenco aqui. Com a certeza de que, qualquer que seja a vossa escolha, sabereis certamente que o vosso presente me fará muito feliz! :)

1. Audi A3 E-Tron
(também pode ser o RS que eu não me aborreço)...


2. Blackberry Z10
(também pode ser o Q10, que eu ainda resisto um cadito aos telemóveis de teclado virtual)...


3. Aple MacBook Pro
(para este presente não incluo segunda escolha, porque é mesmo isto)...


4. Câmara fotográfica Nikon D7100
(ou outra de igual pompa e circunstância)...


5. Uma aparelhegenzinha Bang & Olufsen
(para dividir com o maridão, que é fã da marca, mas porque não quero que ele tenha de trabalhar umas sete vidas e meia para poder comprar uma)...


E pronto! Está a lista feita. Muito obrigada e até para o ano! :)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sócrates, marisco, leitão e outras iguarias…


Sou, desde que me conheço, uma pessoa diferente das outras. Não sou melhor nem pior do que os que me rodeiam, mas sou definitivamente diferente, e destaca-se nessa minha idiossincrasia a capacidade de gostar do que poucos gostam, ao mesmo tempo que não gosto daquilo que outros julgam ser maravilhas. Na escola os meus professores preferidos eram sempre aqueles de que a maioria da turma não gostava. Nos empregos que tive gostei sempre das pessoas mais polémicas, das aparentemente menos simpáticas, mas nunca das que faziam da preguicite o seu lema de vida e da má qualidade o rosto do seu trabalho. Era já adolescente quando comi pela primeira vez uma fatia de queijo, porque antes disso, mesmo nunca tendo provado, garantia que não gostava de queijo. Da mesma forma digo agora que não gosto de marisco, sendo que nunca provei qualquer tipo de marisco. Sei que nunca provarei, porque decidi que não gosto. Também não gosto de leitão, que faz as delícias da maior parte das pessoas que conheço, e certa vez, mesmo estando esganada de fome, não fui capaz de ir além de meia sandes do dito. Nem de caracóis, que também nunca provei. São coisas! 

Politicamente gosto de José Sócrates. Não, não sou socialista, e irrita-me que toda a gente pareça pensar que é preciso ser socialista para gostar de Sócrates. Também gosto de Honório Novo, e não sou comunista. E também gosto de João Teixeira Lopes e de José Soeiro, e isso não faz de mim bloquista. Por que carga de água é que ter admiração por Sócrates há-de fazer de mim socialista, alguém me explica?! E por que é que toda a gente gosta do que gosta, mas quem gosta de Sócrates tem de ser atacado, até por quem gosta de Passos Coelho, Miguel Relvas e Vítor Gaspar? E como é que alguém que gosta destes três acha que pode criticar quem gosta do que quer que seja?! Por que é que as pessoas não podem gostar do que gostam em paz e sossego, sem que venham logo, de todos os lados, dezenas de vozes, supostamente moralizadoras, dizer “não entendo como podes gostar desse gajo”. Mas alguém se preocupa em perceber por que é que eu não gosto de leitão ou marisco, e por que razão gosto muito de morangos, cerejas, caldo verde, presunto e mini-tostas com queijo de ervas?! Então, se fizerem o favor, parem lá com os moralismos bacocos e deixem-me em paz, com os meus gostos e os vossos desgostos. E metam na cabeça, de uma vez por todas, que gostar de Sócrates não é ser socialista! Ajuda se vos disser que não gosto de rótulos e cores e bandeiras? E se vos disser que não gosto de António José Seguro? 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Loja do Cidadão, porque há lá muitos!

Ontem percebi, com clareza e exactidão, por que razão nada funciona como deve ser em Portugal. É que, se há ditado popular que acerta em cheio na realidade portuguesa, é aquele do "cada cabeça, sua sentença". Vai daí, ninguém se entende, toda a gente se desentende, perde-se tempo precioso para tratar de uma qualquer porcaria sem jeito e no fim fica tudo na mesma. Recapitulemos: há cerca de 10 dias fiz um negócio de que, por circunstâncias várias, me arrependi. Indaguei a outra parte interveniente no dito negócio, que de imediato aceitou desfazê-lo.
Acordámos uma data para nos encontrarmos e procedermos à troca do bem transaccionado pelo dinheiro pago, e vice-versa. Na véspera desse encontro, e de forma consciente e muito responsável, a outra parte interessada foi saber concretamente quais os procedimentos legais a tomar para anular o negócio. Foi-lhe dito que seria melhor irmos ao mesmo notário onde tínhamos celebrado o registo de propriedade, pois lá seria fácil e rápido pedir a anulação do negócio, o que evitaria inclusivamente a realização de novo registo e o consequente pagamento do mesmo.
E assim foi. Lá fomos nós. Chegadas ao notário (o tal que tinha prestado as tais informações), fomos informadas de que, afinal, não era bem assim. Afinal, o registo tinha ido parar a Lisboa e era preciso ligar para a conservatória para pedir que parassem o processo e anulassem o negócio. O telefone bem tocou, mas do outro lado nem sinal de vida! Ficámos a saber que é sempre assim. Que "em Lisboa é raríssimo atenderem o telefone", e que, "se calhar, era melhor enviar um e-mail", sendo certo que o tempo de resposta dependeria exclusivamente do tempo que a pessoa que não tinha tempo para atender o telefone tivesse para ler o e-mail e responder ao mesmo. Em vez disso, fomos aconselhadas a ir à Loja do Cidadão mesmo em frente, pois "eles têm acesso à base de dados e conseguem resolver o problema". Atravessámos a rua, entrámos na Loja do Cidadão. E então percebi por que é que aquilo que chama assim. Não é porque lá se venda cidadãos, nada disso! Mas que há lá muitos, quase sempre muito enfadados e com ar de quem está prestes a explodir de raiva, isso há!
Esperámos duas horas. Duas horas para que a única funcionária disponível para o atendimento daquele tipo de questões passasse do cliente 20 (o número em que ia a lista de chamada quando tirámos a nossa senha) ao cliente 37, que éramos nós. Duas horas! Ao fim desse tempo, perdido por duas pessoas com muito mais o que fazer do que aquecer cadeiras numa sala de espera, soou a campainha e era a nossa vez. Em muito menos tempo, verdade seja dita, ficámos a saber que tínhamos de facto perdido todo aquele tempo ali. Pois "não era ali que tínhamos de resolver o problema", pois que "o notário nos tinha despachado, porque fazer um negócio é muito mais fácil do que desfazê-lo", pois que "era preciso ligar para Lisboa, mas lá nunca atendem o telefone". Senti a raiva a crescer dentro de mim, mas controlei a vontade de insultar aquela gente toda para perguntar como é que se resolvia a questão, se no notário nos tinham mandado para ali, e se ali diziam que no notário é que a coisa se resolvia. Tínhamos de "enviar um mail para Lisboa". Aliás, "tinha de ser o notário a enviar o mail, porque foi no notário que o registo foi feito"...
Atravessámos de novo a rua, entrámos no notário. Espantadas por ainda andarmos com os documentos de um lado para o outro, tentaram "ligar para Lisboa, que nunca atende o telefone". Conseguiram perceber, da mesma forma que na Loja do Cidadão também já tinham percebido, que o registo ainda não foi concluído e que, como tal, o negócio ainda não estava feito. Mas como "em Lisboa nunca atendem o telefone", restava enviar o tal mail, "a ver se ainda íamos a tempo de anular o negócio", mas que "seria muito difícil", e que mais valia, talvez, deixar que o negócio se consumasse, os registos fossem enviados para minha casa, e depois ir lá de novo, fazer novo registo, e pagar de novo, celebrando novo negócio, invertendo aquele que queríamos anular e que ainda não estava legalmente consumado. Perceberam? Nós também não. Há um negócio que legalmente ainda não está registado, e que como tal ainda não existe, e duas pessoas que querem desfazer o negócio, mas não pode ser desfeito porque "Lisboa nunca atende o telefone".
Resultado: viemos embora com o negócio por desfazer, embora na realidade ainda não esteja legalmente feito, e com a incumbência de lá voltarmos para, uma vez que seja feito, o desfazermos. E isto tudo porque "em Lisboa nunca atendem o telefone". Assim se funciona em Portugal. De mãos atadas.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012, um ano para esquecer...


Começo o meu balanço de 2012 com uma notícia trágica: um homem foi hoje colhido por um comboio numa estação próxima daquela em que me encontro neste momento. Não creio, e as famílias deste e de tantos outros cidadãos que ao longo deste ano perderam a vida em Portugal em circunstâncias idênticas que me perdoem se não tiver sido o caso, que todas estas mortes tenham ocorrido por acidente ou por mera distracção. É rara a semana em que não ocorre uma colhida fatal por um comboio neste país, e em 2012 isso foi bem patente. São demasiados os casos para que possamos explicá-los com teorias de acaso ou de fortuitos momentos de distracção. Talvez este ano tenha sido negro para estas pessoas. Sei que foi um ano negro para mim. Nesta altura de balanço, talvez estas pessoas, que nem conheço, se tenham precipitado numa decisão final, fatal, preferindo morrer esmagadas por comboios do que continuar a viver esmagadas pela crise, pela miséria e pela fome, pelo aumento do curso de vida, pelos empréstimos contraídos e que deixaram de poder pagar, pelo desemprego galopante, pela falta de oportunidades, de uma família, de um amor até! Porque sim, este foi um ano negro.

Foi um ano negro de luto, porque se cheguei a Janeiro na sombra da morte do Nero, um fiel amigo de quatro patas e de 13 bonitos anos, e se em Fevereiro perdi, fruto de convicções erradas que me levaram a um negócio ruinoso, o meu amigo de quatro rodas e de outros tantos anos, despertei realmente para o drama em que este ano se tornaria, e em que tornaria toda a minha vida daqui em diante, quando em Março, em pleno Dia do Pai, vi partir para sempre o meu, antes mesmo de poder felicitá-lo e beijá-lo por essa ocasião.

Com o meu pai morri eu também, morreu a minha alegria de viver, o meu sorriso, a minha vontade de existir sequer. Porque o meu pai era meu amigo, meu mentor, meu ídolo, meu exemplo de vida, de força, de coragem e de bravura. O homem que nunca baixou os braços, que nunca deixou de ser o esteio de uma família, que nunca abandonou a luta por uma vida melhor, mesmo quando a vida o rasteou, trouxe-me o sabor amargo, intragável, de uma saudade até então desconhecida. De uma dor que, venha o que vier, será sempre inigualável. O meu pai, que a morte inesperadamente levou a 19 de Março de 2012, com apenas 57 anos e o que parecia ser uma saúde de ferro, ficará para sempre na memória dos que tiveram a felicidade de um dia poder privar com ele. E a sua partida pintou de negro, para sempre, este ano e toda a vida que me restar.

Dois dias depois, quando sepultávamos o meu pai, e entre a maior dor que alguma vez conhecemos e a tentativa de segurar na mão dos que, incrédulos como eu, ainda recusavam acreditar naquele desfecho, vimos partir para junto dele a Luna, um pedacinho de céu, fofinho e amoroso que, na pele de uma linda coelhinha, vivia cá em casa. Fofa e quente como todas as criaturinhas da sua espécie, teve também ela uma vida sofrida, antes de a acolhermos, e partiu naquele horrendo mês de Março, dois dias depois do meu pai. Em Abril, no dia 13 – anagrama do 31 de Agosto em que nasceu, o cancro levou-me a minha querida Tia Graça. Uma das pessoas mais bonitas que conheci, a melhor tia que alguém poderia ter ou desejar, uma pessoa sublime na sua generosidade e entrega aos outros, dona de um sorriso desarmante mesmo a poucos dias do fim, que foi para junto do meu pai três semanas depois de ele ter partido e de ela, no funeral dele, ter dito que seria a próxima a partir. E foi. Pouco tempo depois, tomada por uma pneumonia, morreu a Cheesy, a hamster mais linda que alguma vez existiu, que meses antes resistira estoicamente a uma cirurgia a um quisto, fintando as elevadas probabilidades de morrer na mesa do veterinário. Ironicamente, morreu de pneumonia…

Em Novembro, e para acabar o ano na "beleza" que o caracterizou, vi-me privada da minha (Su)Catita, violentamente abalroada por um Audi conduzido por um fulano que preferiu baixar-se para apanhar um telemóvel que lhe caiu da mão enquanto conduzia a parar num semáforo. Projectando-se contra a traseira do meu Opel Corsa, que por sua vez foi atirado contra a carrinha que também estava parada no semáforo à sua frente, o Audi mandou para a sucata, fazendo jus à alcunha carinhosa que eu lhe tinha dado, a minha voiture. E assim perdi, por razões diversas, mas no mesmo ano, dois automóveis de que gostava. Sem culpa alguma em qualquer dos casos...

Ao longo deste ano, dentro e fora de casa, vi partir muita gente e seres não humanos mas cativantes. Vi amigos passarem pelo mesmo drama que como um raio atingiu a minha família, e acompanhei a dor de pessoas conhecidas que perderam os seus entes queridos. Ganhei consciência, como antes nunca tinha tido, de que a vida é mesmo uma passagem, frágil e temporária como tantas outras coisas em nós. E isso doeu. Doeu perceber que não somos senhores de nós, nem dos que amamos, que não basta querermos muito para que alguém possa ficar para sempre junto de nós. Dói-me a fragilidade de que somos feitos, e que agora conheço tão bem! Aos meus amigos e conhecidos que, como eu, perceberam em 2012 que não há força que segure a morte, e que perderam pessoas que amam, fica o meu abraço, e a certeza de que sei o que sentem. Que lamento a dor por que passam, e que sinto, tal como eles, que essa dor nunca passará. Tentem, como eu tenho tentado, acordar todos os dias com um sorriso. Sei que não será fácil, que nem sempre será possível, mas tentar é melhor do que não tentar. E quando não conseguirem sorrir ao acordar, saibam que não estão sozinhos.

O negro do luto cobriu este ano com uma crueldade peculiar, e até as estatísticas o confirmam. Nunca, desde há muito tempo, tinha morrido mais gente do que aquela que nasceu. Aconteceu agora, em 2012. E a cada notícia de uma nova partida, a mesma fatal exclamação: “Este é um ano negro”. Em Outubro morreu Manuel António Pina. A escassos dias de completar 69 anos, partiu uma das pessoas a quem devo muito daquilo que sou, por ter sido ele quem, atento ao meu desempenho durante três meses de estágio no «Jornal de Notícias», apadrinhou a minha continuidade na empresa, no arranque da minha carreira como jornalista. Obrigada, meu querido amigo. Terás sempre a minha gratidão, pelo que me permitiste ser, e me ensinaste a ser, mas também por seres um elo mais de ligação com o meu pai, que como eu admirava a tua pessoa e as tuas ideias, as tuas crónicas e o teu modo de encarar a vida e de nos ensinar a vê-la com olhos de ver. Obrigada, querido amigo, por seres um exemplo e uma referência na minha vida! Nunca te esquecerei!

E para terminar o ano na “beleza” que o caracterizou, em Novembro fiquei privada da minha SuCatita, abalroada por um Audi desgovernado, conduzido por um distraído que se baixou para apanhar o telefone que lhe caiu das mãos enquanto conduzia, ali para os lados da Trofa. Ficam as saudades, que nada mais me resta dela…

Por estas e por muitas outras razões, menos pessoais mas igualmente graves, 2012 foi um ano negro e Portugal está de luto. De luto e em luta. Que 2013 vença todas as adversidades e seja, verdadeiramente e em todos os aspectos, um ano ímpar. Feliz Ano Novo!


ADENDA
Mas para contrabalançar, porque o ano foi péssimo mas nem tudo foi mau, saliento a entrada na minha vida, logo em Janeiro, do Odie - o cão adoptado pela minha irmã mais nova, e por essa via meu novo sobrinho -, bem como a presença constante, ao meu lado, dos que mais amo e dos amigos de sempre. Pessoas boas cujo sorriso e os gestos, como há dias me dizia uma dessas amigas, valem mais do que barras de ouro! 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Neste ano não há Natal...


Falta pouco mais de uma semana para a noite da consoada, e por todo o lado há Natal a saltar das montras das lojas, há gente a correr com sacos e pacotes, com fitas e laços, com listas de presentes que, apesar dos tempos difíceis, não ficarão por comprar. Todos os anos, por esta altura, costumo ser uma dessas pessoas. Por esta altura, o pinheirinho - que todos os anos costumava ser enfeitado no dia 1 de Dezembro, mas que desta vez apenas ocupou o seu lugar no passado dia 13 - tem habitualmente a seus pés alguns embrulhos e algumas caixas, de várias formas e tamanhos, coloridas e alinhadas com desvelo e carinho. Desta vez não é assim. Tardiamente colocado no seu posto, o pinheiro permanece apagado, sem presentes a acompanhá-lo nestes dias. Falta-me o espírito natalício. Falta o Nero a morder as fitas e a atirar ao chão as bolas. Falta o meu pai - o grande entusiasta desta quadra cá em casa - a abanar os presentes, a tentar adivinhar o que está dentro dos pacotes com o nome dele, a lançar as suas suspeitas e, muitas vezes, a acertar no conteúdo das prendas que lhe comprávamos. Falta-me o meu pai. E falta-me o Nero, que já fez falta no nosso Natal do ano passado. Falta-me a vontade de ver a mesa enfeitada, falta-me a inspiração para comprar presentes, falta-me a luz das ruas a dançar-me nos olhos e a música a tocar-me na alma. Falta-me o Natal, na verdade. E a pouco mais de uma semana da noite da consoada, há em mim a urgência de sentir a alegria que era usual nestes dias. Alegria que sei que não terei. Neste ano não há Natal.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Para ti, Pai!


Não sei dizer-te adeus. Ainda é cedo, demasiado cedo, para deixares vazio este lugar que é teu. Para partires, de repente, arrancado assim aos tantos abraços que ainda queria dar-te. Passaram sete meses, pai, e o bater do meu coração continua a bater-me, como uma pancada seca, um grito mudo que se afoga nas minhas entranhas e que me devora o peito, a alma, o pensamento. Um som inaudível que me enlouquece. Um vazio que me preenche. Um frio que me racha por dentro, que me cristaliza as lágrimas, que me sufoca e me impede de respirar. O teu lugar é aqui, ao meu lado, no aconchego desta casa que é nossa. E no entanto não estás aqui, senão em todas as coisas e em todos os lugares. Há sete meses que não estás aqui, ainda que a tua ausência seja a mais presente das minhas poucas certezas. Hoje quero abraçar-te, ainda mais do que quero todos os dias, e envolver-te nos meus braços como naquele hediondo início de tarde, e quero ver-te acordar finalmente. Sorrir como sorrias. Há sete meses que espero, pai. Espero por um sinal teu. Uma estrela mais brilhante no céu, uma música que irrompe num lugar inusitado, um calorzinho nas mãos quando toco algo que te pertenceu. Sinto às vezes uma brisa no rosto. Leve, como um beijo pousado em silêncio. Penso que és tu. Quero pensar que és tu. Falo-te, mas não respondes, pelo menos na mesma língua. E sonho. Sonho que te abraço enfim, e que estamos de novo juntos, desta vez para sempre. Amo-te, pai! E morro um pouco a cada dia que passa. Morro de saudades.

31 de Outubro de 2012, dia 227

domingo, 9 de setembro de 2012

Da "geração mais bem preparada de sempre"...


Irrita-me solenemente ouvir dizer que os jovens de hoje constituem "a geração mais bem preparada de sempre" (isto quando não dizem que esta é a geração "melhor preparada" de sempre, porque isso então faz-me querer pôr uma bomba em alguns cérebros). Afinal, os jovens de hoje estão preparados para quê? Olhem bem à vossa volta e analisem, por alguns minutos, os comportamentos, e sobretudo as conversas, dos jovens de hoje. Metade (para ser bondosa) não sabe dizer nada. Não é capaz de ter uma conversa com cabeça, tronco e membros, nem é capaz de dissertar, ainda que breve e superficialmente, sobre qualquer tema da vida social, cultural, política ou económica contemporânea.
Os jovens de hoje sabem fazer de tudo com um iPod, um iPad ou um iPhone. E todos querem ter uma ou várias coisas dessas. Sabem sacar filmes e músicas na internet, sabem ludibriar os pais para que estes lhes dêem tudo aquilo de que precisam e, mais ainda, de tudo o que apenas eles acham que precisam. Sabem beber até cair, sabem fazer figuras tristes nas ruas, quando bebem e muitas vezes sem beberem. Sabem onde e a quem comprar drogas, e mesmo que não tenham dinheiro para comer, arranjam-no sempre para a dose, para a "cuca", para o café e o tabaco, para a 15ª tatuagem ridícula, para o piercing e para as calças de marca, que muitos usam a cair pelo rabo!
Dir-me-ão que o meu discurso é o de uma avozinha, e que nem todos os jovens são iguais. De acordo. Não tenho a pretensão de os conhecer todos. Seja! Mas queremos mesmo falar de percentagens no que toca às competências dos jovens de hoje? E já agora, os que não são assim - os que se portam bem, que estudam e progridem sem incidentes de maior na sua vida académica, estão preparados para quê? Por mais estudioso e trabalhador que um jovem de hoje seja, saberá fritar um ovo sem perguntar à mãe quais são os ingredientes para essa "receita"? Saberá preencher sem ajuda os impressos do IRS? Saberá mudar um pneu no caso de viajar sozinho e ter um furo? Ou fará aquilo que em tempos um amigo me disse que fazem todas as mulheres, que, diante de um pneu furado, "apenas podem chamar um homem"?!
Afinal, para que estão assim tão bem preparados os jovens de hoje? Estarão preparados para as angústias de que também se faz a vida moderna? Estarão preparados para o desemprego, para administrar uma casa, para criar uma família, para responder, sem frustrações e depressões, a todos os desafios que lhes são impostos pelo simples facto de estarem vivos? Estarão preparados para decidir o futuro desta geração e das que se lhe seguirão? Estarão preparados para assumir as consequências dos seus actos e das suas escolhas? Por que é que acho que não? Por que é que acho que as pessoas resumem o "grau de preparação" de uma geração ao número crescente de anos que essa geração andou na escola, muitas vezes apenas a passear os livros, sem qualquer resultado prático desses passeios?
E os que abandonam a escola porque não obtêm resultados, ou porque as famílias precisam do contributo deles, diminuto que seja, para porem comida na mesa? E os que, mesmo estudando e atingindo até elevados níveis de ensino, são incapazes de entender uma anedota simples sem a devida explicação de quem a conta? E os que chegam aos 40 anos a depender totalmente dos pais, e às vezes de avós e tios, que nunca na vida trabalharam ou tiveram maior responsabilidade do que a de sair da cama a tempo de que outra pessoa lhes arrume o quarto? Sim, há jovens assim. Sim, são muitos. Fazem parte desta geração, fazem. Preparados? Disso é que tenho muitas - mesmo muitas - dúvidas...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Foi bom enquanto durou! Ou então não...

Quatro dias bastaram para que fosse a uma entrevista e passasse da condição de desempregada de longa duração à de empregada, e novamente ao mesmo estatuto. Lamentavelmente, não sou uma super-mulher, e não aguentei o duríssimo teste de resistência física e mental que é trabalhar numa loja (que na verdade são duas) de sandes, saladas e sopas. Antes de mais, a devida homenagem a todas as mulheres que fazem disso o seu quotidiano, porque é de facto um desafio hercúleo. Permanecer horas e horas de pé, sempre na mesma posição e a realizar vezes sem fim os mesmos exactos movimentos, não é coisa fácil. Estar horas e horas a lavar louça (que nunca pára de chegar porque há sempre gente a sujar), jornadas intermináveis de exercícios como desfiar frango, triturar maçãs e delícias do mar, fazer pastas de atum, frango e delícias, aprender a funcionar com fornos e fritadeiras industriais, limpar fornos e fritadeiras industriais, desmontar máquinas de sumos e limpar todos os componentes e parafusos, acondicionar frigoríficos e câmaras, limpar frigoríficos e câmaras, limpar tudo, sujar tudo e voltar a limpar tudo, varrer, passar o chão a pano, decorar os lugares de todos os objectos e as dezenas de procedimentos diferentes que compõem o quotidiano de um restaurante onde tudo é feito todos os dias, e depois ainda servir sandes, sopas, saladas, bebidas e sobremesas com um sorriso no rosto é, para o comum dos mortais (como eu), uma prova de fogo. Que não superei.
Aprendi imenso nestes quatro dias, acreditem. Sobre o funcionamento de centros comerciais e restaurantes, mas acima de tudo sobre as pessoas e sobre mim. Foi bom sentir-me útil novamente, porque o desemprego consome-nos, principalmente se sempre fomos pessoas de trabalhar, de nos mexermos, de estarmos sempre a fazer qualquer coisa. Mas não estive à altura deste desafio, e lamento-o profundamente, porque sei que há pessoas que contavam comigo, e porque sei que o salário ao fim do mês, ainda que diminuto, daria jeito. Mas não fui capaz de continuar. Quem, como eu, sofreu uma tromboembolia pulmonar há quatro anos, e que quase morreu por causa disso, sabe os malefícios que podem advir de estar horas e horas de pé, sempre na mesma posição, com as pernas a inchar e as dores a subir e a instalar-se em todo o corpo. Não há maneira de definir estes dias que passaram senão como o inferno na terra. Não, nem tudo foi mau. Claro que não. Conheci algumas pessoas interessantes, dinâmicas e muito competentes, que além de tudo o que me ensinaram, e de curtas histórias e lições de vida que generosamente partilharam comigo em duas ou três conversas mais ou menos fugazes, me mostraram que em todas as coisas há sabedoria, profissionalismo, qualidade. Gostei de conhecer a Bina e a Regina, principalmente estas duas, porque são pessoas dignas de serem exemplos para a maioria dos portugueses, pelo seu carácter e capacidade de entrega a um projecto, e por valorizarem o esforço que fiz e a pessoa que sou. Obrigada às duas por isso.
Aos que desiludi pelo falhanço na minha resistência física e psíquica, peço desculpa. Ao meu pai, de quem sempre julguei ter herdado a força e a coragem para aguentar os momentos menos bons; à minha mãe, por continuar a ser incapaz de a ajudar no seu esforço diário para suportar as despesas de uma casa; às minhas irmãs, por não ser capaz de lhes dar um exemplo de coragem, de força e de dinâmica na superação das minhas muitas limitações; ao Luís, por tê-lo desiludido naquilo que pretendia ser um investimento no meu e no nosso futuro; a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditaram que eu seria capaz e me desejaram sucesso e felicidades. Foi bom enquanto durou! Ou então não...