Ontem percebi, com clareza e exactidão, por que razão nada funciona como deve ser em Portugal. É que, se há ditado popular que acerta em cheio na realidade portuguesa, é aquele do "cada cabeça, sua sentença". Vai daí, ninguém se entende, toda a gente se desentende, perde-se tempo precioso para tratar de uma qualquer porcaria sem jeito e no fim fica tudo na mesma. Recapitulemos: há cerca de 10 dias fiz um negócio de que, por circunstâncias várias, me arrependi. Indaguei a outra parte interveniente no dito negócio, que de imediato aceitou desfazê-lo.
Acordámos uma data para nos encontrarmos e procedermos à troca do bem transaccionado pelo dinheiro pago, e vice-versa. Na véspera desse encontro, e de forma consciente e muito responsável, a outra parte interessada foi saber concretamente quais os procedimentos legais a tomar para anular o negócio. Foi-lhe dito que seria melhor irmos ao mesmo notário onde tínhamos celebrado o registo de propriedade, pois lá seria fácil e rápido pedir a anulação do negócio, o que evitaria inclusivamente a realização de novo registo e o consequente pagamento do mesmo.
E assim foi. Lá fomos nós. Chegadas ao notário (o tal que tinha prestado as tais informações), fomos informadas de que, afinal, não era bem assim. Afinal, o registo tinha ido parar a Lisboa e era preciso ligar para a conservatória para pedir que parassem o processo e anulassem o negócio. O telefone bem tocou, mas do outro lado nem sinal de vida! Ficámos a saber que é sempre assim. Que "em Lisboa é raríssimo atenderem o telefone", e que, "se calhar, era melhor enviar um e-mail", sendo certo que o tempo de resposta dependeria exclusivamente do tempo que a pessoa que não tinha tempo para atender o telefone tivesse para ler o e-mail e responder ao mesmo. Em vez disso, fomos aconselhadas a ir à Loja do Cidadão mesmo em frente, pois "eles têm acesso à base de dados e conseguem resolver o problema". Atravessámos a rua, entrámos na Loja do Cidadão. E então percebi por que é que aquilo que chama assim. Não é porque lá se venda cidadãos, nada disso! Mas que há lá muitos, quase sempre muito enfadados e com ar de quem está prestes a explodir de raiva, isso há!
Esperámos duas horas. Duas horas para que a única funcionária disponível para o atendimento daquele tipo de questões passasse do cliente 20 (o número em que ia a lista de chamada quando tirámos a nossa senha) ao cliente 37, que éramos nós. Duas horas! Ao fim desse tempo, perdido por duas pessoas com muito mais o que fazer do que aquecer cadeiras numa sala de espera, soou a campainha e era a nossa vez. Em muito menos tempo, verdade seja dita, ficámos a saber que tínhamos de facto perdido todo aquele tempo ali. Pois "não era ali que tínhamos de resolver o problema", pois que "o notário nos tinha despachado, porque fazer um negócio é muito mais fácil do que desfazê-lo", pois que "era preciso ligar para Lisboa, mas lá nunca atendem o telefone". Senti a raiva a crescer dentro de mim, mas controlei a vontade de insultar aquela gente toda para perguntar como é que se resolvia a questão, se no notário nos tinham mandado para ali, e se ali diziam que no notário é que a coisa se resolvia. Tínhamos de "enviar um mail para Lisboa". Aliás, "tinha de ser o notário a enviar o mail, porque foi no notário que o registo foi feito"...
Atravessámos de novo a rua, entrámos no notário. Espantadas por ainda andarmos com os documentos de um lado para o outro, tentaram "ligar para Lisboa, que nunca atende o telefone". Conseguiram perceber, da mesma forma que na Loja do Cidadão também já tinham percebido, que o registo ainda não foi concluído e que, como tal, o negócio ainda não estava feito. Mas como "em Lisboa nunca atendem o telefone", restava enviar o tal mail, "a ver se ainda íamos a tempo de anular o negócio", mas que "seria muito difícil", e que mais valia, talvez, deixar que o negócio se consumasse, os registos fossem enviados para minha casa, e depois ir lá de novo, fazer novo registo, e pagar de novo, celebrando novo negócio, invertendo aquele que queríamos anular e que ainda não estava legalmente consumado. Perceberam? Nós também não. Há um negócio que legalmente ainda não está registado, e que como tal ainda não existe, e duas pessoas que querem desfazer o negócio, mas não pode ser desfeito porque "Lisboa nunca atende o telefone".
Resultado: viemos embora com o negócio por desfazer, embora na realidade ainda não esteja legalmente feito, e com a incumbência de lá voltarmos para, uma vez que seja feito, o desfazermos. E isto tudo porque "em Lisboa nunca atendem o telefone". Assim se funciona em Portugal. De mãos atadas.

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