Começo o meu balanço de 2012 com uma notícia trágica: um homem foi hoje colhido por um comboio numa estação próxima daquela em que me encontro neste momento. Não creio, e as famílias deste e de tantos outros cidadãos que ao longo deste ano perderam a vida em Portugal em circunstâncias idênticas que me perdoem se não tiver sido o caso, que todas estas mortes tenham ocorrido por acidente ou por mera distracção. É rara a semana em que não ocorre uma colhida fatal por um comboio neste país, e em 2012 isso foi bem patente. São demasiados os casos para que possamos explicá-los com teorias de acaso ou de fortuitos momentos de distracção. Talvez este ano tenha sido negro para estas pessoas. Sei que foi um ano negro para mim. Nesta altura de balanço, talvez estas pessoas, que nem conheço, se tenham precipitado numa decisão final, fatal, preferindo morrer esmagadas por comboios do que continuar a viver esmagadas pela crise, pela miséria e pela fome, pelo aumento do curso de vida, pelos empréstimos contraídos e que deixaram de poder pagar, pelo desemprego galopante, pela falta de oportunidades, de uma família, de um amor até! Porque sim, este foi um ano negro.
Foi um ano negro de luto, porque se cheguei a Janeiro na sombra da morte do Nero, um fiel amigo de quatro patas e de 13 bonitos anos, e se em Fevereiro perdi, fruto de convicções erradas que me levaram a um negócio ruinoso, o meu amigo de quatro rodas e de outros tantos anos, despertei realmente para o drama em que este ano se tornaria, e em que tornaria toda a minha vida daqui em diante, quando em Março, em pleno Dia do Pai, vi partir para sempre o meu, antes mesmo de poder felicitá-lo e beijá-lo por essa ocasião.
Com o meu pai morri eu também, morreu a minha alegria de viver, o meu sorriso, a minha vontade de existir sequer. Porque o meu pai era meu amigo, meu mentor, meu ídolo, meu exemplo de vida, de força, de coragem e de bravura. O homem que nunca baixou os braços, que nunca deixou de ser o esteio de uma família, que nunca abandonou a luta por uma vida melhor, mesmo quando a vida o rasteou, trouxe-me o sabor amargo, intragável, de uma saudade até então desconhecida. De uma dor que, venha o que vier, será sempre inigualável. O meu pai, que a morte inesperadamente levou a 19 de Março de 2012, com apenas 57 anos e o que parecia ser uma saúde de ferro, ficará para sempre na memória dos que tiveram a felicidade de um dia poder privar com ele. E a sua partida pintou de negro, para sempre, este ano e toda a vida que me restar.
Dois dias depois, quando sepultávamos o meu pai, e entre a maior dor que alguma vez conhecemos e a tentativa de segurar na mão dos que, incrédulos como eu, ainda recusavam acreditar naquele desfecho, vimos partir para junto dele a Luna, um pedacinho de céu, fofinho e amoroso que, na pele de uma linda coelhinha, vivia cá em casa. Fofa e quente como todas as criaturinhas da sua espécie, teve também ela uma vida sofrida, antes de a acolhermos, e partiu naquele horrendo mês de Março, dois dias depois do meu pai. Em Abril, no dia 13 – anagrama do 31 de Agosto em que nasceu, o cancro levou-me a minha querida Tia Graça. Uma das pessoas mais bonitas que conheci, a melhor tia que alguém poderia ter ou desejar, uma pessoa sublime na sua generosidade e entrega aos outros, dona de um sorriso desarmante mesmo a poucos dias do fim, que foi para junto do meu pai três semanas depois de ele ter partido e de ela, no funeral dele, ter dito que seria a próxima a partir. E foi. Pouco tempo depois, tomada por uma pneumonia, morreu a Cheesy, a hamster mais linda que alguma vez existiu, que meses antes resistira estoicamente a uma cirurgia a um quisto, fintando as elevadas probabilidades de morrer na mesa do veterinário. Ironicamente, morreu de pneumonia…
Em Novembro, e para acabar o ano na "beleza" que o caracterizou, vi-me privada da minha (Su)Catita, violentamente abalroada por um Audi conduzido por um fulano que preferiu baixar-se para apanhar um telemóvel que lhe caiu da mão enquanto conduzia a parar num semáforo. Projectando-se contra a traseira do meu Opel Corsa, que por sua vez foi atirado contra a carrinha que também estava parada no semáforo à sua frente, o Audi mandou para a sucata, fazendo jus à alcunha carinhosa que eu lhe tinha dado, a minha voiture. E assim perdi, por razões diversas, mas no mesmo ano, dois automóveis de que gostava. Sem culpa alguma em qualquer dos casos...
Ao longo deste ano, dentro e fora de casa, vi partir muita gente e seres não humanos mas cativantes. Vi amigos passarem pelo mesmo drama que como um raio atingiu a minha família, e acompanhei a dor de pessoas conhecidas que perderam os seus entes queridos. Ganhei consciência, como antes nunca tinha tido, de que a vida é mesmo uma passagem, frágil e temporária como tantas outras coisas em nós. E isso doeu. Doeu perceber que não somos senhores de nós, nem dos que amamos, que não basta querermos muito para que alguém possa ficar para sempre junto de nós. Dói-me a fragilidade de que somos feitos, e que agora conheço tão bem! Aos meus amigos e conhecidos que, como eu, perceberam em 2012 que não há força que segure a morte, e que perderam pessoas que amam, fica o meu abraço, e a certeza de que sei o que sentem. Que lamento a dor por que passam, e que sinto, tal como eles, que essa dor nunca passará. Tentem, como eu tenho tentado, acordar todos os dias com um sorriso. Sei que não será fácil, que nem sempre será possível, mas tentar é melhor do que não tentar. E quando não conseguirem sorrir ao acordar, saibam que não estão sozinhos.
O negro do luto cobriu este ano com uma crueldade peculiar, e até as estatísticas o confirmam. Nunca, desde há muito tempo, tinha morrido mais gente do que aquela que nasceu. Aconteceu agora, em 2012. E a cada notícia de uma nova partida, a mesma fatal exclamação: “Este é um ano negro”. Em Outubro morreu Manuel António Pina. A escassos dias de completar 69 anos, partiu uma das pessoas a quem devo muito daquilo que sou, por ter sido ele quem, atento ao meu desempenho durante três meses de estágio no «Jornal de Notícias», apadrinhou a minha continuidade na empresa, no arranque da minha carreira como jornalista. Obrigada, meu querido amigo. Terás sempre a minha gratidão, pelo que me permitiste ser, e me ensinaste a ser, mas também por seres um elo mais de ligação com o meu pai, que como eu admirava a tua pessoa e as tuas ideias, as tuas crónicas e o teu modo de encarar a vida e de nos ensinar a vê-la com olhos de ver. Obrigada, querido amigo, por seres um exemplo e uma referência na minha vida! Nunca te esquecerei!
E para terminar o ano na “beleza” que o caracterizou, em Novembro fiquei privada da minha SuCatita, abalroada por um Audi desgovernado, conduzido por um distraído que se baixou para apanhar o telefone que lhe caiu das mãos enquanto conduzia, ali para os lados da Trofa. Ficam as saudades, que nada mais me resta dela…
Por estas e por muitas outras razões, menos pessoais mas igualmente graves, 2012 foi um ano negro e Portugal está de luto. De luto e em luta. Que 2013 vença todas as adversidades e seja, verdadeiramente e em todos os aspectos, um ano ímpar. Feliz Ano Novo!
ADENDA
Mas para contrabalançar, porque o ano foi péssimo mas nem tudo foi mau, saliento a entrada na minha vida, logo em Janeiro, do Odie - o cão adoptado pela minha irmã mais nova, e por essa via meu novo sobrinho -, bem como a presença constante, ao meu lado, dos que mais amo e dos amigos de sempre. Pessoas boas cujo sorriso e os gestos, como há dias me dizia uma dessas amigas, valem mais do que barras de ouro!
ADENDA
Mas para contrabalançar, porque o ano foi péssimo mas nem tudo foi mau, saliento a entrada na minha vida, logo em Janeiro, do Odie - o cão adoptado pela minha irmã mais nova, e por essa via meu novo sobrinho -, bem como a presença constante, ao meu lado, dos que mais amo e dos amigos de sempre. Pessoas boas cujo sorriso e os gestos, como há dias me dizia uma dessas amigas, valem mais do que barras de ouro!
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