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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Crazy cat ladies ou nem por isso...


Alexandra Falardo tem 37 anos e é voluntária da Animais de Rua desde 2011, altura em que fundou, praticamente sozinha, o segundo núcleo da associação no Algarve (o primeiro tinha sido criado em Lagos, cerca de um ano antes). Tem actualmente 15 gatos em casa, a maior parte deles recolhida em situações de risco e destinada a adopção. Enquanto aguardam o dia em que finalmente terão o lar e a família que merecem, vão ficando. E entretanto vão chegando mais…

Joana Silva tem 23 anos, é uma das mais recentes voluntárias do núcleo (função que acumula com o voluntariado no Canil de S. Francisco, em Loulé, na Cruz Vermelha e no Refúgio Aboim Ascensão). Além de participar nas capturas, é família de acolhimento temporário de quatro gatos e recentemente acolheu, por alguns dias, um cão jovem que encontrou junto a um contentor do lixo.

Alexandra e Joana não são duas “crazy cat ladies” como as que vemos nos filmes. Não são velhotas solteironas e rabugentas que conspurcam as ruas com sacos de arroz cozido e que “armazenam” gatos para mascarar a solidão. São jovens sensíveis e atentas ao mundo que as rodeia, que não resistem ao ímpeto de ajudar e proteger animais em risco, e que fazem de tudo para lhes assegurar uma vida mais digna, mais tranquila e mais feliz.

Quando uma gata de rua morre no parto e deixa órfãs, com minutos de vida, cinco bolinhas ainda sem pêlo, o que pode um ser humano fazer? Virar costas sorrateiramente, como quem não viu nada, e convencer-se de que não podia ajudar? Ou pegar nos gatinhos, embrulhá-los em mantas quentes, no calor do coração enternecido, e dispor-se a criá-los a biberão, alimentando-os de duas em duas horas, de dia e de noite, sabendo que eventualmente perderá um, ou dois, ou três…, mas que com sorte conseguirá salvar algum? Para Alexandra a questão nem se coloca! Se há hipótese de salvar uma vida, mesmo que remota, se é possível, ainda que muito difícil, é esse o caminho.

Joana pensa e age da mesma forma. Se um animal precisa de um lar, de um porto seguro, mesmo que temporário, que importa se a casa está lotada? “Cá em casa é assim que os animais são educados: com muito carinho”, dizia há dias num post do Facebook, ilustrado com uma fotografia que acabaria por servir de cartaz numa campanha de angariação de famílias de acolhimento do Núcleo de Faro da Animais de Rua. Não é tarefa fácil. Encontrar famílias que se disponham a acolher um cão ou um gato de rua, ajudando a prepará-lo para ser adoptado e feliz, é tão complicado como encontrar voluntários com tempo e vontade para ajudar nas capturas, no transporte para as clínicas, na distribuição de ração, nos eventos, na venda de merchandising…


O Núcleo de Faro da Animais de Rua, como a generalidade das associações, tem poucos voluntários, e são quase sempre os mesmos a acudir a todas as situações. Não são super-heróis, mas todos os dias salvam vidas. Não têm capa e espada, nem sequer poderes inimagináveis ao homem comum, mas todos os dias vestem a camisola do amor pelos animais, e tudo fazem para lhes dar as condições de vida e de dignidade que merecem. Todos os dias acordam e adormecem a pensar nos cães e nos gatos que só conhecem porque outros os abandonaram ou negligenciaram. Têm vitórias para celebrar e derrotas para lamentar. Vidas que ganham, vidas que perdem. Faz parte. Às vezes choram, mas são mais, felizmente, as vezes em que sorriem. Estão com os animais de rua, de coração, todos os dias e todas as noites. Sempre.

Texto e foto: CARLA TEIXEIRA
Publicado no jornal «Barlavento» de 15 de Outubro de 2015

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Algarve em duas rodas: o BTT veio para ficar!

FOTO: CARLA TEIXEIRA

São cada vez mais e estão por toda a parte. Homens e mulheres, equipados mais ou menos a rigor, com máquinas mais ou menos apetrechadas, aproveitando os fins-de-semana ou aquela horinha depois do trabalho, sozinhos ou em grupo, os algarvios estão rendidos ao charme da bicicleta. A prática de BTT tem crescido de forma exponencial nos últimos anos, e se para alguns a coisa não passa de uma moda, para outros é garantidamente um amor para a vida. Nada estranho numa região com mais de 300 dias de sol por ano e que detém a maior rota ciclável do país, com 214 quilómetros.

| CARLA TEIXEIRA

Famoso pelas praias de areia branca e águas tépidas, pelos invernos curtos e amenos e verões longos e quentes, pela rica gastronomia e pelo vasto património natural e construído, o Algarve é hoje a terceira região mais rica de Portugal, depois do Vale do Tejo e da Madeira, com um PIB per capita de 86% da média da União Europeia (Eurostat 2011). É também o mais importante destino turístico nacional e um dos mais relevantes a nível europeu. Palco perfeito para a prática de desportos de ar livre, tem na bicicleta a sua maior embaixadora: com um histórico de vitórias na Volta a Portugal (1947, 1948, 1988, 2008, 2009 e 2010) e presença assegurada dos melhores atletas do mundo na Volta ao Algarve, no BTT a região destaca-se pelos imensos praticantes, mais ou menos conhecidos do grande público, e pelo facto de aqui, no Clube BTT Terra de Loulé, estar sediada a maior escola de ciclismo do país.
Miguel Raimundo, conhecido no meio desportivo como Mike, e Rui Silvestre, que na sua Algarve Nature Adventure dinamizam diversas actividades ao ar livre em terra, mar e ar, consideram que “o BTT está na moda” e por isso “tem conquistado muitos adeptos no Algarve”, que reúne condições de excelência para a prática da modalidade: “O clima é muito agradável durante grande parte do ano, temos a maior ciclovia do país, colectividades muito activas na organização de provas e o apoio de várias entidades”, públicas e privadas. “Vemos com bons olhos este aumento do interesse pelo BTT, que concilia a prática de exercício físico com o usufruto da Natureza e das características únicas da região”, explicam.
À margem da Mike & Friends Ultra BTT 2014, prova organizada pela Algarve Nature Adventure que em Outubro ligou Vila Nova de Mil Fontes a Faro, num percurso de cerca de 160 quilómetros, Miguel e Rui confidenciaram que “o apoio da Câmara Municipal de Faro tem sido inexcedível”, materializando-se, naquela prova, na cedência de um autocarro para transportar os participantes até Milfontes, de onde depois pedalaram até Faro, e dos balneários da Escola Afonso III para os banhos no final da prova. Apontando a crise como “a desculpa mais fácil para as empresas recusarem dar apoio” a este tipo de iniciativas, Mike diz que na verdade “há muitos eventos a decorrer praticamente ao mesmo tempo, e por vezes há empresas que ficam desagradadas com o amadorismo na organização de algumas provas, e que depois se retraem na hora de apoiar estes eventos”.
Bruno Rosa, atleta da equipa BTT Loulé que habitualmente vemos em provas do campeonato nacional, da Taça de Portugal ou do Open de Espanha, e que há meses se sagrou Campeão Nacional Universitário de BTT Cross Contry, foi o primeiro a cortar a meta na Mike & Friends 2014, ao fazer os 160 quilómetros em 6h25m. “Não tinha noção da concorrência, porque não tinha visto a lista de inscritos antes da prova, mas estava optimista e confiante. Esperava ficar no top 5, mas felizmente acabei por vencer”, disse o atleta no final da maratona, acrescentando que “nestas provas de maior distância é preciso fazer uma boa gestão da parte física e da parte psicológica, e ter algumas noções de leitura de GPS, esperando que ele não falhe. Hoje tive alguns problemas com isso, mas acabei por conseguir ultrapassá-los e terminar a prova em primeiro lugar, o que me deixa bastante feliz”.

PEDALAR NO FEMININO
FOTO: CARLA TEIXEIRA
“A Ultra acaba de ficar mais bonita! Há uma senhora inscrita”. Foi assim que a Algarve Nature Adventure apresentou, no evento criado no Facebook para reunir os participantes da Ultra BTT, a única atleta do sexo feminino a registar-se na prova. Ana Sofia Cruz, técnica de contabilidade de Faro, ousou, aos 44 anos, ser a única mulher entre mais de 60 homens, e percorreu, taco a taco com eles, os 160 quilómetros da prova. E não, não foi a última classificada!
Demorou mais de 10 horas a cumprir o percurso, mas a satisfação de participar foi enorme, pois embora pratique desporto desde sempre (atletismo na adolescência e actualmente ginástica localizada, spinning e canoagem), desde que descobriu o BTT não imagina a sua vida sem pedalar. Desafiada por uma amiga a participar num passeio de bicicleta de 25 quilómetros em Alte, no Concelho de Loulé, há cinco anos, nem pensou duas vezes: “Não andava de bicicleta desde criança, e nem tinha uma, mas a minha amiga emprestou-me a antiga dela e fui. A partir daí nunca mais parei, e pouco tempo depois estava a comprar a minha primeira bicicleta”, recorda. Em média pedala duas vezes por semana, e fá-lo essencialmente por lazer, embora reconheça que “o bichinho da competição” a faz tentar ir sempre um pouco mais longe.
Ana faz parte de uma equipa informal de BTT, a Gurus Bike Team, “um grupo de amigos de ginásio que descobriram no gosto por pedalar um interesse comum”. É normalmente com esse grupo que pedala, considerando que é sempre mais agradável praticar em grupo do que sozinha. Atraída pela “sensação de liberdade” que o BTT proporciona, e pela certeza de poder ir a qualquer lado de bicicleta, limitada apenas pela sua capacidade física e pelas características da máquina, diz-se também “fascinada” pela forma como a modalidade permite “o contacto com a Natureza, a possibilidade de conhecer lugares lindíssimos, muitas vezes inacessíveis por outros meios, e o convívio saudável que surge naturalmente entre os praticantes. Até hoje não houve desporto que me apaixonasse mais”, assegura.
Mulher num desporto ainda muito tomado pelos homens, garante não sentir discriminação: “Os que me conhecem sabem que partilhamos os mesmos interesses e que não gosto de ser tratada de modo diferente por ser mulher. Sempre fui muito bem recebida e aprendi imenso com os amigos que praticam BTT comigo”. Sobre o facto de haver ainda poucas mulheres na modalidade, responde assim: “Suponho que a ausência das mulheres se deva a diversos factores, um dos quais, talvez o mais determinante, a falta de disponibilidade, em geral, das mulheres, que na nossa sociedade têm um papel mais activo a nível familiar, o que lhes toma muito tempo”. Tendo dois filhos já adultos, admite que teria sido muito complicado quando eles eram menores dedicar o tempo que hoje dedica ao BTT, e por isso compreende que haja poucas mulheres a dispor desse tempo.
Desafiada a deixar uma mensagem aos praticantes em geral e às mulheres em particular, Ana Sofia diz aos que já praticam para continuarem a pedalar e aos que ainda não experimentaram que o façam, pois “a sua vida mudará para melhor! O BTT é um desporto que se adequa a todas as fases da nossa vida. Acho que as mulheres devem procurar encontrar tempo para o praticar e não devem deixar-se intimidar por ainda sermos poucas. Venham e tragam amigas! Assim seremos mais”. Em jeito de conclusão, atesta que conheceu mais gente desde que pratica BTT do que no resto da sua vida. “Quanto mais pedalo, mais vontade tenho de pedalar e de aceitar novos desafios, e de testar os meus limites. A prática do BTT tornou-me uma pessoa melhor, mais feliz e mais segura, pessoal e profissionalmente. Hoje não tenho medo arriscar e estou sempre pronta para descobrir novos trilhos, mesmo que sejam sinuosos”…

Trocar o comboio pela bicicleta

Foi entre comboios e estações que, há quase dois anos, vários profissionais do Centro de Manutenção da REFER (Rede Ferroviária Nacional) em Tunes descobriram um interesse e uma paixão em comum: a bicicleta. Alguns eram já praticantes assíduos, outros estrearam-se nessa altura, com a organização de passeios e convívios. Nem sempre conseguem reunir o grupo completo, mas há um pequeno núcleo que pelo menos uma vez por semana, depois do trabalho, troca o comboio pelas duas rodas e parte à descoberta de novos trilhos…
| CARLA TEIXEIRA

FOTO: DIREITOS RESERVADOS

Aproximadamente 40 anos após o seu surgimento, na década de 1970, nas montanhas da Califórnia, nos Estados Unidos, o BTT continua a reunir adeptos em todo o mundo. No Algarve tem sido especialmente evidente, nos últimos anos, o crescimento da modalidade. São imensas as associações que promovem o uso da bicicleta, e que dinamizam a realização de provas e passeios para reunir os apaixonados, e é raro o dia, principalmente aos fins-de-semana, em que não os vemos, às dezenas, circular nas estradas e nos trilhos mais ou menos difíceis da região. Foi em busca dessa adrenalina, e da fuga ao stress que o BTT permite, que nasceu, há cerca de dois anos, no seio do Centro de Manutenção da REFER, em Tunes, um grupo de colegas de trabalho apostado em vencer obstáculos em cima das duas rodas. E se nem sempre é fácil reunir toda a gente, já que são muitas as condicionantes da vida e dos horários de cada um, há quem aposte a sério na assiduidade. Alexandre Vieira, de 32 anos, Luís Silva, de 36, Paulo Oliveira, de 44 anos, e Rui Justo, de 37, estão no grupo dos mais perseverantes e tentam nunca faltar à chamada. Uma vez por semana, normalmente às terças-feiras, partem para a sua “voltinha”, seguindo um percurso previamente definido, no âmbito de um grupo que já ultrapassou as fronteiras da REFER e acolhe agora elementos externos à empresa.

FOTO DO FACEBOOK
Apesar de ser o mais jovem dos quatro, Alexandre é o praticante com mais experiência e assiduidade: há 14 anos, uma queda aparatosa levou-o a abandonar o motocross, que até aí praticava, e foi depois disso que comprou a sua primeira bicicleta. Foi na zona de Coimbra, de onde é natural e onde vivia na altura, que se estreou nos passeios em duas rodas, e o BTT fascinou-o de tal forma que nunca mais parou: a primeira bicicleta, de um modelo mais simples e económico, foi rapidamente substituída por uma superior, e depois desse houve vários outros upgrades para ir melhorando o equipamento e a performance. Garante que não fica caro praticar BTT se houver alguns cuidados essenciais com a máquina, que deverá ser bem lavada, lubrificada e revista após cada saída. “O que custa mais é o investimento inicial, na compra da bicicleta. Depois o que se gasta é pouco significativo: em média não devo gastar mais do que 10 ou 15 euros por mês em barras de cereais, geles e bebidas isotónicas”. Já no que toca a manutenções extraordinárias, a despesa é menos previsível, porque depende do material que vai avariando ou sofrendo desgaste e que é preciso substituir.
Casado e com uma filha bebé, Alexandre reconhece que não tem hoje o tempo que gostaria de dedicar a este desporto, mas ainda assim tenta praticar uma ou duas vezes por semana. Gosta mais de pedalar com amigos, mas também o faz sozinho, quando isso não é possível. O que mais importa, diz, é sermos capazes de “libertar um pouco a pressão que temos diariamente em nós, devido a questões pessoais ou familiares, de trabalho ou outras. Devia haver maiores incentivos ao uso da bicicleta como meio de lazer e transporte”, diz, lamentando que, no BTT ou no ciclismo de estrada, os ciclistas não sejam respeitados como utilizadores de direito da via pública que são.
FOTO: SANDRA CONCEIÇÃO
Luís Silva sempre teve bicicletas, mas começou a pedalar “mais a sério” há três anos, altura em que vivia e trabalhava em Torres Vedras, berço de Joaquim Agostinho (ícone do ciclismo português que viria a morrer na sequência de uma queda na X Volta ao Algarve, em 1984) e terra de grandes tradições no desporto em duas rodas. Por influência de amigos, e porque queria iniciar algum tipo de actividade física, começou a pedalar regularmente. Fazia-o quase sempre em grupo, mas ocasionalmente também sozinho, tendo chegado a deslocar-se de casa para o local de trabalho (a Estação de Caminhos-de-Ferro do Ramalhal, a sete quilómetros da cidade) montado numa bicicleta que entretanto lhe foi furtada. O revés não o fez desistir do BTT.
A viver em Faro desde 2012, Luís participa religiosamente nas voltas das terças-feiras (que inicialmente eram às quartas, mas foram alteradas para não interferirem nas aulas da Licenciatura em Engenharia Eléctrica e Electrónica que frequenta em horário pós-laboral na Universidade do Algarve), e sempre que é possível vai pedalar nas manhãs de sábado ou de domingo, sozinho ou na companhia de Alexandre. O que Luís mais aprecia no BTT é a comunhão com a Natureza, e pedalar duas vezes por semana “sabe a pouco: se tivesse oportunidade, pedalaria mais vezes”, assevera. Depois de algum treino, diz, “o cansaço que sentimos no fim de cada jornada torna-se saboroso, porque representa mais alguns quilómetros percorridos e novos desafios superados”.
Consciente de que a prática regular de exercício físico nos ajuda a manter a mente sã num corpo são, sobre as vantagens de pedalar com colegas de trabalho, Luís é peremptório: “Acaba por ajudar a criar laços de amizade no emprego, o que torna mais agradável e descontraído o nosso quotidiano”, questão particularmente importante quando, como acontece amiúde na REFER, os funcionários são muitas vezes deslocados das suas cidades para outras, onde têm de viver e trabalhar. Natural de Vila Nova de Anços, no Concelho de Soure, Distrito de Coimbra, Luís reconhece que o Algarve tem características únicas para a prática do BTT: “Pelo clima e pela geografia, a região é bastante interessante para a prática deste desporto, que está na moda e tem conquistado muitos praticantes nos últimos anos”. Só falta, diz, que as cidades se adaptem melhor a este fenómeno: “O BTT, e o ciclismo em geral, é essencialmente um desporto, mas poderia ser visto também como um meio de transporte ecológico. Se as cidades se adaptassem a essa realidade teríamos menos tráfego automóvel e menos poluição, o que seria bom para todos”.

FOTO DO FACEBOOK
Paulo Oliveira estreou-se no BTT há cerca de ano e meio. “No início fui apenas pelo convívio, mas depois isto tornou-se um hobby e uma forma de fazer alguma actividade física. Por viver longe da maioria dos colegas nem sempre tenho disponibilidade para as voltas em grupo, por isso às vezes vou pedalar sozinho. Normalmente saio de bicicleta uma vez por semana, mas se tivesse mais tempo aumentaria de certeza o número de saídas”, refere. Vincando que pedala essencialmente por prazer, recusa para já a participação em provas de competição, e foca-se nas “grandes vantagens deste desporto: o convívio, a realização de actividade física, a hipótese de conhecer locais que de outra forma não seria expectável que conhecesse”.
Tal como Alexandre e Luís, Paulo considera que “participar neste tipo de actividades com colegas de trabalho melhora as relações laborais e torna o dia-a-dia mais agradável”. Admitindo que, “se levada a sério, a prática de BTT pode ficar muito cara”, Paulo garante não ter muitos gastos, já que pedala apenas por prazer, sem grandes preocupações com a performance: “Comprei uma primeira bicicleta, que custou 400 euros, e mais tarde outra, um pouco melhor e mais cara. Além disso tenho de considerar a compra de consumíveis ou produtos de limpeza, e às vezes compro calções ou luvas. A busca do equipamento perfeito nunca acaba, mas temos de ter em conta o orçamento de que dispomos”, avisa.
FOTO: SANDRA CONCEIÇÃO
Rui Justo (ao centro na foto) estreou-se no BTT há cerca de 15 anos, mas registou um interregno de “sete ou oito” na sua prática. Casado, o engenheiro civil admite que nem sempre tem a disponibilidade que desejaria ter para a prática desportiva. Actualmente pedala em norma uma vez por semana, embora gostasse de o fazer pelo menos duas. Gosta especialmente de pedalar com amigos, usufruindo “ao máximo do ar livre e da paisagem” escolhida em cada saída. Procura o prazer quando pedala, mas reconhece que com a prática mais regular deste exercício o desempenho tende a ser mais eficaz e os limites físicos de cada praticante vão sendo naturalmente ultrapassados: “O BTT reforça a capacidade física, as relações interpessoais e a camaradagem, e potencia uma maior qualidade de vida e até uma melhor condição de saúde”.
No que respeita aos custos desta paixão, Rui considera que “podem ser reduzidos ou extremamente altos, em função da regularidade e do tipo de treinos ou competições em que se participa”. Pedalar no final de um dia de trabalho, na companhia de alguns colegas, “é uma excelente forma de aliviar algum stress”, assevera, acrescentando que compreende a prática de qualquer desporto como “um exercício de liberdade e de permanente superação dos próprios limites”.

Algarve na mega-ciclovia
que cruza toda a Europa


A Ecovia do Litoral Algarvio é a maior rota ciclável existente em solo português. Liga Sagres a Vila Real de Santo António, atravessando os 12 concelhos do litoral meridional do Algarve, e mergulha nas paisagens de rara beleza da Ria Formosa e da Ria de Alvor. São 214 quilómetros que servem também de ponto de partida para a primeira rota da Eurovelo, a mega-ciclovia europeia que em 2020 ligará 43 países, cruzando o continente em 14 rotas, num total de mais de 70 mil quilómetros…

| CARLA TEIXEIRA

A Comissão Europeia publicou, em Dezembro de 2013, o seu barómetro relativo à atitude dos europeus face à mobilidade urbana. À luz daquele documento, 49% dos cidadãos do Velho Continente fazem uso regular da bicicleta como meio de transporte no seu quotidiano. Uma média relativamente elevada que esconde as enormes discrepâncias verificadas numa análise da informação em cada um dos países: na Holanda, líder deste ranking, 43% dos cidadãos usam a bicicleta pelo menos uma vez por dia, 28% várias vezes por semana, 16% apenas algumas vezes por mês e só 13% referem não ter o hábito de pedalar. No outro extremo do gráfico, em Malta, só 1% dos cidadãos utiliza a bicicleta diariamente, 2% várias vezes por semana, 4% algumas vezes por mês e uns estrondosos 93% não têm ou nunca pegam na bicicleta. Algures pelo meio, embora a pender para o lado mais negro da tabela, surge Portugal, onde 7% dos cidadãos dizem utilizar a bicicleta todos os dias, 8% várias vezes por semana, 10% algumas vezes por mês e 75% nunca.
Sem números oficiais relativos às regiões de cada país, resta-nos a convicção de que o Algarve subverte um pouco o cenário traçado para Portugal, já que, pelas suas características únicas de clima e geografia, é raro o dia em que não vemos dezenas de pessoas montadas nas suas bicicletas, ao longo das estradas e ciclovias ou em trilhos mais ou menos acidentados e desafiadores. Para isso contribuirá certamente a existência de numerosos percursos cicláveis, com especial destaque para a chamada Ecovia do Litoral, a maior rota ciclável existente em Portugal. De Sagres a Vila Real de Santo António, estende-se ao longo de 214 quilómetros recheados de paisagens de tirar o fôlego ao mais capaz dos ciclistas e coincide, em toda a sua extensão, com a parte inicial do traçado da primeira rota da Eurovelo, a extensíssima rede de ciclovias actualmente em construção ao longo de todo o continente europeu e que em 2020 deverá ligar 43 países, num total de mais de 70 mil quilómetros.
Baptizada como Rota da Costa Atlântica, a Eurovelo 1 decalca precisamente todo o trajecto da Ecovia do Litoral e no final desta, em Vila Real de Santo António, atravessa a fronteira e prossegue por Espanha, França, Irlanda e Reino Unido, terminando na Noruega, mais de oito mil quilómetros depois. A rota que arranca em Portugal é a segunda mais extensa das 14 previstas, no âmbito de um ambicioso e muito interessante projecto que preconiza o fomento do uso da bicicleta, quer em passeios turísticos quer nas deslocações diárias das populações servidas por estas rotas. A conclusão desta enorme ciclovia deverá permitir, em teoria, que a partir de 2020 seja possível percorrer toda a Europa em duas rodas, de acordo com o ritmo e a disposição de cada ciclista, sendo que cada rota permitirá a fruição das paisagens, do património e dos costumes dos países em que se integra. No caso português, ao cruzar a paisagem singular do litoral algarvio a Eurovelo 1 brindará os visitantes com dunas, baías, enseadas e vastos areais espraiados ao longo da Ria Formosa e da Ria de Alvor.

REDE EM CRESCIMENTO

Surgido numa reunião da Federação Europeia de Ciclistas com as suas associadas Sustrans e Frie Fugle, o projecto Eurovelo foi formalmente apresentado em 1997 na cidade de Logroño, em Espanha, prevendo a criação de 12 rotas cicláveis de longo curso. Dez anos mais tarde, a federação assumiu a coordenação do projecto, que hoje contempla 14 percursos, numerados segundo a orientação que seguem: as rotas ímpares estendem-se de Norte para Sul, as rotas pares no sentido Este/Oeste (não existe o número 14, já que há oito percursos “verticais” mas apenas seis “horizontais”): 1 – Rota da Costa Atlântica: Cabo Norte/Sagres (8.168 km); 2 – Rota das Capitais: Galway/Moscovo (5.500 km); 3 – Rota dos Peregrinos: Trondheim/Santiago de Compostela (5.122 km); 4 – Rota da Europa Central: Roscoff/Kiev (4.000 km); 5 – Via Romea Francigena: Londres/Roma/Birindisi (3.900 km); 6 – Rota do Atlântico ao Mar Negro: Nantes/Constança (4.448km); 7 – Rota do Sol: Cabo Norte/Malta (7.409 km); 8 – Rota do Mediterrâneo: Cádis/Atenas e Chipre (5.888 km); 9 – Rota do Báltico ao Adriático: Gdansk/Pula (1.930 km); 10 – Circuito do Mar Báltico (7.980 km); 11 – Rota da Europa de Leste: Cabo Norte/Atenas (5.984 km); 12 – Circuito do Mar do Norte (5.932 km); 13 – Rota da Cortina de Ferro: Mar de Barents/Mar Negro (10.400 km); 15 – Rota do Reno: Andermatt/Hoek van Holland (1.320 km).


O BTT visto através da câmara fotográfica

FOTO DO FACEBOOK
Terra de aficionados pelo BTT, o Algarve conta sempre muitos espectadores nas muitas provas que se vão realizando na região. Há quem se limite a assistir às competições, mas há também quem registe para a posteridade os momentos mais marcantes. A maioria fotografa familiares e os amigos, mas outros, como Sandra Conceição, fotografam tudo e todos. É a paixão pela bicicleta vista de outro ângulo…

| CARLA TEIXEIRA

Sandra Conceição é uma das presenças mais assíduas nas inúmeras provas de BTT que se vão realizando por todo o Algarve. Não monta uma bicicleta, mas está quase sempre lá, de câmara fotográfica na mão, a registar os momentos mais marcantes de cada competição. Em 2009 foi desafiada por uma amiga para integrar a Secção de BTT «Os leões de Olhão», mas cedo percebeu que “não era grande ciclista” e optou por acompanhar os amigos como fotógrafa. Hoje, aos 39 anos, a recepcionista diz que venceu a timidez dos primeiros tempos e está à vontade atrás da câmara: “De início tinha receio de que as pessoas não gostassem de ser fotografadas por uma desconhecida, mas hoje vejo que não havia motivo para esse receio, porque sempre fui bem recebida. Os atletas ficam contentes por ter registos do seu esforço e as organizações ficam com meios para documentar as suas provas e para as divulgarem”, revela.
Não faz qualquer uso comercial das imagens. Partilha-as nas redes sociais e até as envia aos atletas que o solicitem. Quando lhe perguntam por que razão não tenta ganhar dinheiro com este hobby, diz que “isso implicaria uma logística mais complexa”. Apesar disso, reconhece que acompanhar estas provas dá bastante trabalho, pois é preciso preparar tudo com antecedência: “Temos de analisar bem o percurso, perceber qual a abordagem a fazer e posicionar-nos de modo a obter o melhor ângulo sem atrapalhar a prova. Acima de tudo não podemos ter receio de nos sujarmos. Quando vou acompanhar uma prova sei que vou apanhar lama, chuva e frio, e que apesar de me deslocar de carro, posso ter de fazer vários quilómetros a pé até encontrar um trilho visualmente agradável. Sei que terei de me sentar nos muros para deixar espaço para os atletas passarem, abstrair-me dos ruídos rastejantes ao redor…”.
Sobre a escassa participação das mulheres no BTT, Sandra é clara: “Não considero que seja por falta de capacidade ou coragem que há menos mulheres do que homens nas provas com percursos mais longos! Há atletas femininas com melhores resultados do que os participantes masculinos. Podem não estar mentalizadas de que são capazes de fazer mais, ou gostar de apreciar os percursos sem o sofrimento que uma maratona ou uma ultra-maratona implicam. Depois há a menor disponibilidade das mulheres, com os afazeres domésticos e os filhos, especialmente se forem pequenos, mas acho que é uma questão de tempo até que haja mais mulheres a apostar neste desporto”, vaticina.


NOTA
Esta reportagem foi realizada com o intuito de ser publicada no primeiro número de uma nova revista de âmbito nacional, com lançamento nas bancas previsto para Dezembro de 2014 ou Janeiro de 2015. Porém, esse lançamento acabou por ser adiado sine die, razão pela qual optei por publicar a reportagem no meu site e neste blog, já que seria injusto para todos os meus interlocutores que o tempo que me concederam, em entrevistas e na disponibilização de informações, fosse dado como perdido. A todos o meu agradecimento e o meu pedido de desculpas.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Responsáveis do «Janeiro» condenados a trabalho comunitário

FOTO: LISA SOARES/GLOBAL IMAGENS

O Tribunal de Gondomar condenou, este segunda-feira, Eduardo Costa e José Reis, responsáveis pela empresa Sedico, detentora do jornal "O Primeiro de Janeiro", a uma pena de dois anos de prisão, substituída por 480 horas de trabalho comunitário. Eduardo de Oliveira Costa e José Pereira Reis foram condenados pelo crime de abuso confiança fiscal, num processo-crime relacionado com dívidas às Finanças superiores a dois milhões de euros.

Na sessão de leitura da sentença, a juíza titular do processo afirmou ficar "provado o crime para os dois", acrescentando que a culpa de Eduardo Costa e José Reis "foi elevadíssima", porque ambos sabiam das dívidas ao Estado e não as quiseram pagar. "Desde janeiro de 2002 até março de 2008 nunca as pagaram", frisou a juíza, considerando que este dado "revela que desde o primeiro momento optaram por não as pagar". Os 2.085.162,54 euros de dívida relativos ao Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) "nunca foram postos em causa" pelo Tribunal, tendo a juíza dito que, apesar de José Reis argumentar durante o julgamento que "era apenas um pau mandado de Eduardo Costa", há documentos no processo "que o incriminam", designadamente "escritos e assinados" por si e que revelam que o arguido tinha "conhecimento da dívida" ao Fisco. Também o argumento de que sofreu um AVC em 1999 não colheu, uma vez que, disse a juíza, Reis "manteve-se no Janeiro, continuou a elaborar ofícios (...) e nunca renunciou por opção, nunca saiu da sede" da empresa.

Já em relação a Eduardo Costa, o Tribunal entendeu que, apesar de não haver documentos que o incriminem, "grande parte das testemunhas afirmaram nunca ter recebido ordem de José Reis". "No geral, testemunhas que trabalharam para a Sedico nunca receberam ordens de José Reis. Quem conheciam como patrão era Eduardo Costa", vincou a juíza. Assim, "a tese de que a intervenção que [Eduardo Costa] tinha era na redação não colhe", tendo a própria diretora do jornal, até julho de 2008, Nassalete Miranda, testemunhado ter "total autonomia editorial". "A sua intervenção estendia-se à área financeira, cabendo a José Reis o momento final de assinar os documentos", sublinhou a magistrada, para quem ficou também claro que Eduardo Costa "tinha conhecimento das dívidas".

Já quase no final da sessão, a juíza salientou que se as 480 horas de trabalho a favor da comunidade -- o máximo fixado por lei - não forem cumpridas, os dois irão para a prisão. Quando à Sedico, "não se sabe muito bem qual a situação concreta da empresa", concluiu a magistrada, referindo apenas ter sido declarada insolvente em 2009. No final do julgamento, enquanto não foi possível falar com Eduardo Costa, José Reis respondeu à Lusa de que não irá recorrer desta sentença.

Fonte: Jornal de Notícias

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

De como um texto jornalístico colabora numa fraude...

FOTO: MENTE DESPENTEADA

É absolutamente notável! Este homem, abusivamente considerado um lutador neste artigo do «Jornal de Notícias» de hoje, chama-se Ricardo Frade, mas podia muito bem chamar-se Ricardo Fraude! Então diz a criatura que vai partir numa "viagem ultra-low-cost" até Skelleftea, na Suécia, sem dinheiro e recorrendo apenas à imaginação: "Vou ser só eu e a capacidade inata do ser humano de improvisar e resolver problemas", assegura ele. Conta depois como surgiu a ideia, de uma teima com o pai, e garante que com isto quer "fazer algo pelo nosso país, por todas as pessoas que não sabem como lidar com as tremendas dificuldades que estamos a viver". Pelo meio, a julgar pelo que se escreve no antetítulo, ainda critica os que "vivem obcecados por pseudonecessidades e que podiam ser mais felizes com menos dinheiro e mais improviso".

Pois muito bem! Estava eu a ler este texto quando, no último parágrafo (o esquema da pirâmide invertida na construção de um artigo jornalístico permanece um mistério para muitos jornalistas), leio o seguinte: "A partida está programada para 6 de Fevereiro, mas carece ainda de um empurrãozinho. É preciso dinheiro para a passagem de ida (só o regresso é que será de mãos a abanar)...". Lindo, não é? Digam lá que o homem não é imaginativo! É tão imaginativo que consegue levar uma jornalista a escrever um texto em torno da alegada imaginação que torna desnecessário o dinheiro que acaba... a pedir dinheiro! Fabuloso! Este fulano não tem lata. Tem um latão! 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

«Óbidos Pinholando» - Fotografia estenopeica


O meu amigo António Campos Leal inaugura, no próximo dia 15 de Abril, no Centro de Design de Interiores de Óbidos, a exposição fotográfica «Óbidos Pinholando», que estará patente naquele espaço desde o dia seguinte até 15 de Maio. Trata-se de uma iniciativa que congrega a instalação, a exposição de fotografia estenopeica e a mostra de câmaras e oficina, e que promete momentos deliciosos a todos os apaixonados pela imagem em geral e pela fotografia estenopeica em particular. Dono de uma personalidade forte e vincada, de uma assinalável cultura geral e de uma voz sonante e crítica, António Campos Leal é um verdadeiro apaixonado pela luz que irradia da fotografia. Dinamizador do blog Buraco de Agulha, participa também de uma extensa lista de outros espaços virtuais dedicados a esta área, onde partilha interesses, paixões e conhecimentos.

De acordo com a Wikipédia, “uma câmara pinhole é uma máquina fotográfica sem lente”, sendo a sua designação proveniente da expressão britânica “pin hole”, que significa precisamente “buraco de agulha”. A fotografia estenopeica parte, portanto, da utilização de uma caixa em que a luz não penetra senão por um pequenino orifício, através do qual se obtém uma imagem real invertida, que é projectada para a parede oposta ao pin hole. “Para produzir uma imagem razoavelmente nítida, a abertura tem de ser um furo pequeno, na ordem dos 0,5 mm, ou menos. O obturador da câmera pinhole consiste geralmente numa mão espalmada ou num qualquer material à prova de luz que cobre e descobre o furo. Estas câmaras requerem maior tempo de exposição do que as câmaras convencionais (entre cinco segundos e mais de uma hora).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma mentira chamada «O Primeiro de Janeiro»


Uma mentira em forma de capa de jornal. Na verdade, «O Primeiro de Janeiro», aquele que em tempos foi um grande jornal, com grandes profissionais, fechou as portas no dia 31 de Julho de 2008, com o despedimento colectivo e ilegal de toda a sua redacção (com salários em atraso e sem qualquer indemnização ou aviso prévio). O pasquim que abriu dois dias depois, usurpando o nome da publicação centenária, tem na verdade dois anos e meio, e nada mais do que isso! A pouca-vergonha continua!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Porque denunciar é preciso...

Crise obrigou-o a recorrer à reforma antecipada
Segurança Social empurra homem para a miséria e caridade de amigos

Começou a trabalhar com apenas 12 anos. Era aprendiz de serralharia. Fez carreira quase sempre na mesma empresa, onde ao longo da vida foi galgando escalões, e há uns anos, após o seu encerramento, aproveitou a indemnização para criar o seu próprio negócio. A vida corria-lhe bem, até ao dia em que a crise lhe bateu à porta. Em pouco tempo deixou de receber pelos trabalhos que ia realizando, e logo depois começou também a acumular dívidas. Hoje devem-lhe cerca de 120 mil euros, mas o empresário tem à perna o Fisco, a quem deve apenas 300. Obrigado a fechar as portas da firma, e sem direito a subsídio de desemprego (por ser patrão), pediu a reforma antecipada em Fevereiro, assim que fez 55 anos. Sofreu várias penalizações, por ser ainda muito novo. E se durante meses a fio não recebeu nada pelos trabalhos que realizou, desde que se reformou não recebeu qualquer prestação. Depois de uma vida inteira de descontos, está na miséria, e só tem ainda luz e água em casa porque tem amigos que não lhe viram a cara neste momento. Chamemos-lhe Mário, embora saibamos que poderia ter qualquer outro nome no Portugal de hoje…

Mário está desesperado. Dia após dia, concentra atenções no computador, onde consulta o extracto da conta bancária, e aguarda com impaciência a chegada do carteiro, à espera de boas notícias. Dia após dia, nada acontece. Telefona para a Segurança Social, vai até lá, e ouve sempre a mesma resposta: “Tem de ter paciência, aguardar mais uns dias, a ordem de pagamento já foi dada, mas como é a primeira vez demora”. Há semanas que é assim. E a família de Mário continua à espera. Casado e com filhos a cargo, tem contas de água, gás e electricidade para pagar. À mulher, fruto de dívidas acumuladas pela falta de liquidez da empresa, está a ser descontado um terço do vencimento. Mês após mês, a angústia toma conta destas pessoas quando chegam a casa as facturas dos serviços mínimos que mantêm activos. Têm conseguido pagá-las, sempre com atraso, graças a empréstimos de amigos e familiares e a um esforço desumano de poupança. Vivem infelizes, como se tivessem uma corda a apertar-lhes o pescoço. Permanentemente.

Há dias, Mário irrompeu num choro que surpreendeu a mulher e os filhos. Nunca o tinham visto assim, e temeram pelo pior. Na sua idade, uma angústia e um stress desta natureza podem ter maus resultados, e Mário já sofreu um enfarte. Não sabem como lidar com a situação. Estão apreensivos. A impotência dos cidadãos e das famílias face ao Estado é tremenda, e sabem que nada mais há a fazer do que esperar, mais e mais dias, quantos a Segurança Social quiser. O frigorífico está vazio. Nas contas bancárias o saldo é pouco mais do que nulo, quando não é negativo. O cartão de crédito tem ajudado a suprir algumas carências, mas a dívida é crescente, tem de ser bem vigiada. Sentem que vivem num túnel, longo e escuro, sem luz à vista. Viver assim não é viver, e esta família conhece agora uma vida de privações que nunca julgou possível. O que podem fazer, senão esperar? Pouco. Muito pouco. Depois de uma vida de trabalho e de contribuições pagas religiosamente, o que pode fazer Mário para pôr comida na mesa da sua família? Talvez nada. Talvez morra de fome e de tristeza antes de a Segurança Social dar por isso…

NOTA:Esta situação é real e verdadeiramente dramática. Para não ferir ainda mais os envolvidos, a sua identidade foi omitida. Mário é, obviamente, um nome fictício. Este caso poderia ter sido relevado aos meios de informação, mas neste momento, perante o cenário de caos em que o país está mergulhado, não teria o espaço e a dignidade que esta família merece. O Mente Despenteada está consciente de que haverá mais casos como este. Se souberem de algum, não hesitem em partilhá-lo com este espaço. Temos de denunciar estes casos, ou corremos o risco de ver morrer famílias inteiras às mãos da inépcia e da negligência do Estado Português, que tem como missão primeira impedir estes dramas, designadamente quando, como neste caso, eles não resultam da acção dos envolvidos. Esta família é vítima de um sistema que penaliza sempre os mais fracos em detrimento dos mais fortes. E até aposto, porque as conheço, que as grandes empresas que deixaram de pagar à empresa de Mário e a empurraram para a falência continuam a laborar sem grandes dificuldades. Tudo isto me enoja! Tudo isto é vergonhoso e inclassificável!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Eduardo Costa acusado de fuga ao fisco

O empresário que tem gerido o jornal «O Primeiro de Janeiro» nos últimos vinte anos foi acusado, em Fevereiro, pelo Tribunal de Gondomar de fuga ao fisco. Eduardo Costa, juntamente com o administrador Pereira Reis, é acusado do crime de abuso de confiança, por retenção na fonte de importâncias de IRS e IVA, referentes aos anos de 2002 a 2008, durante a administração da empresa Sedico – Edições de Comunicação SA (antiga O Primeiro de Janeiro SA). Ao todo, não entregaram ao Estado mais de 2 milhões de euros.

O processo teve origem em 2006, quando a empresa mudou a sede para uma morada fictícia, em Gondomar. Mesmo assim, o Ministério Público do Tribunal de Gondomar demorou quatro anos a produzir acusação, deixando prescrever o crime de abuso de confiança para parte das importâncias de IRS e IVA referentes aos anos de 2002 a 2005, não encontrando prova documental para o ano de 2007. São mais de 167 mil euros que o Ministério Público considera perdidos para o Estado.

Apesar de a acusação recair sobre Eduardo Costa, o empresário de Oliveira de Azeméis não figurava na estrutura accionista da empresa, mesmo sendo reconhecido publicamente como o seu presidente. O administrador Pereira Reis, que se assumiu como “testa de ferro” de Eduardo Costa, fez diversas participações contra o seu conterrâneo na PGR, no DIAP do Porto e mesmo na secretaria do Tribunal de Comércio de Gaia, que declarou a insolvência da Sedico, ainda em 2008.

A Sedico, entretanto, tem os seus bens à venda, por propostas em carta fechada, num processo contestado pelos jornalistas despedidos ilegalmente há dois anos, que se constituíram credores da empresa. Em causa está o espólio fotográfico do jornal centenário e o arquivo das edições entre 1868 e 1990, encontrado na casa do pai de Eduardo Costa, em São Roque, Oliveira de Azeméis.

Os jornalistas contestam as avaliações do espólio fotográfico e do arquivo das edições do jornal, porque não sabem quem as fez, nem em que data. Também desconhecem quem são e o que fazem os quatro trabalhadores da Sedico, que estão no lote do activo a alienar pelo valor base de 223 mil euros.

Os jornalistas de «O Primeiro de Janeiro», ilegalmente despedidos no Verão de 2008, estranham todo este processo e pediram ao juiz do Tribunal de Comércio de Gaia que retirasse a presidência da Comissão de Credores a Eduardo Costa, estando ainda a aguardar por uma decisão. O empresário, enquanto responsável pela cooperativa Editorialcult, CRL (antiga Folha Cultural, CRL), apresentou-se como principal credor da Sedico; juntamente com a irmã, Lúcia Jesus Costa, reclamam da empresa que geriram, uma verba de cerca de 8 milhões de euros. Os créditos dos jornalistas e gráficos e outros trabalhadores ascendem a 840 mil euros.

Redacção muda para a Rua de Santa Catarina

Entretanto, «O Primeiro de Janeiro» já mudou novamente de empresa proprietária e transferiu a sede para o n.º 489, na Rua de Santa Catarina, Porto, para um edifício que alegadamente pertence a Eduardo Costa. O jornal é detido agora pela Globinóplia Unipessoal Lda (uma empresa de locação de propriedade intelectual e produtos similares, detida na totalidade pela Gadgetresult SGPS, SA) e é editado pela Cloverpress, Lda. (uma sociedade detida pela Folio Comunicação Global Lda. e pela Gadgetresult). Para trás fica a Caderno Digital, uma empresa de Ovar que foi comprada e gerida por Eduardo Costa, mas que ainda detém a propriedade do título, de acordo o registo de publicações da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

«O Primeiro de Janeiro» continua a ser produzido por quatro jornalistas com salários em atraso. Estes profissionais estão vinculados à Norte Press – Comunicação Social, Lda., Fólio – Comunicação Global, SA, e Sedico – Serviços de Comunicação, SA. Nenhum tem contrato com as novas empresas, Globinóplia e Cloverpress, tal como não tinham com a Caderno Digital. A Autoridade das Condições de Trabalho, por diversas vezes chamada a intervir, nunca conseguiu pôr cobro a esta situação.

Com a mudança das instalações para o edifício na Rua de Santa Catarina, teme-se que o espólio fotográfico do jornal, que ficou na Rua de Coelho Neto, e que está às ordens do Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia, esteja em risco de ser destruído ou degradado.

Porto, 12 de Abril de 2010
Os jornalistas despedidos ilegalmente do Jornal «O Primeiro de Janeiro»

quarta-feira, 24 de março de 2010

Exposição «Estado d’Alma» no Porto

Inaugura amanhã, pelas 17h30, nas instalações do Posto de Turismo da Câmara Municipal do Porto (em frente à Sé Catedral), a exposição de pintura «Estado d’Alma», com obras da minha ainda muito recente amiga Elisete Marques, que receberá os convidados. Sobre este evento, que se manterá patente no mesmo espaço até ao próximo dia 18 de Maio, afirma a artista que “a pintura percorre o caminho que vai da finalidade prática à finalidade espiritual, do objectivo ao composicional”.

Elisete Marques é empresária e vive na Freguesia de Mafamude, no Concelho de Vila Nova de Gaia. Afirma-se como “curiosa, amiga, fiel, generosa, teimosa e idiota” (só pelo facto de ter muitas ideias). Administradora/redactora do blog Divagando no Abstracto, interessa-se pela pintura, pela poesia e pela política, entre outros temas de actualidade. «Equador», de Miguel Sousa Tavares, é o livro que aponta como seu favorito, e na música aprecia “todas as dos Beatles”.

terça-feira, 23 de março de 2010

Passos Coelho visita Município de Anadia

É já amanhã que o candidato à liderança do PSD Pedro Passos Coelho visita o Concelho de Anadia. De acordo com informações avançadas pelo Gabinete de Comunicação da autarquia, o programa da visita arranca pelas 17 horas, junto ao Complexo Desportivo das Piscinas Municipais, onde o presidente da Câmara, Litério Marques, receberá a comitiva. Em seguida, e ainda de acordo com a mesma nota, Passos Coelho e o autarca anadiense visitarão diversos equipamentos públicos.

Passos Coelho é candidato à presidência do PSD, numa corrida em que defronta José Pedro Aguiar-Branco, Paulo Rangel e Jorge Castanheira de Barros. O site da candidatura do fundador da JSD vive no endereço http://www.passoscoelho-mudar.com/, onde se traça a seguinte biografia do candidato:

Pedro Passos Coelho nasceu em Coimbra, a 24 de Julho de 1964. Com cinco anos, foi viver com a sua família para Silva Porto, Angola, onde iniciou a instrução primária, que viria a completar já em Luanda. Em 1974, regressou para a terra dos seus avós, Valnogueiras, no concelho de Vila Real. Actualmente reside em Lisboa, é casado e tem três filhas. É licenciado em Economia, pela Universidade Lusíada de Lisboa. Começou a trabalhar como professor do Ensino Secundário, acabando por se dedicar ao sector empresarial, sobretudo na área do Ambiente. Ingressou em 2004 no grupo Fomentinvest, como director financeiro, sendo desde 2007, administrador executivo. Mantém essa função a par da presidência executiva de algumas empresas do grupo. Pedro Passos Coelho é também, desde 2004, Professor de Economia Aplicada e de Economia do Turismo, no curso de Turismo do Instituto Superior de Ciências Educativas, em Lisboa.

Pedro Passos Coelho ingressou cedo na vida política. Em 1978, começou a envolver-se activamente com o PSD, como membro dos órgãos locais e distritais da Juventude Social Democrata. Em 1980 integrou o Conselho Nacional da JSD e do PSD, e em 1982 foi eleito membro da Comissão Política Nacional da JSD e seu secretário-geral em 1984. Exerceu o cargo de vice-presidente desta organização de juventude desde 1986, e quatro anos mais tarde, Pedro Passos Coelho candidatou-se a presidente da JSD, função para a qual foi reeleito duas vezes e que desempenhou até Dezembro de 1995.

Em 1991 foi eleito deputado à Assembleia da República, onde foi membro da Assembleia Parlamentar da OTAN (1991-1995) e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD (1996-1999). Em 1997 foi candidato a presidente da Câmara Municipal da Amadora, tendo sido eleito vereador. Foi vice-presidente do PSD, na liderança de Luís Marques Mendes (2005-2006). É presidente da Assembleia Municipal de Vila Real desde 2005. Pedro Passos Coelho é ainda fundador da Plataforma Construir Ideias e participou no livro “Juventude: que futuro em Portugal”, editado pelo Instituto Sá Carneiro, em 1981.

Texto publicado também no blog Anadia Sem Gente 
Foto do site de candidatura

domingo, 21 de março de 2010

Castanheira Barros rompeu silêncio...


Uma entrevista de 20 minutos não é muito tempo para dar voz a um homem que durante cerca de cinco meses de campanha foi sucessiva e ostensivamente ostracizado pelos meios de informação nacionais. Jorge Castanheira Barros, candidato à sucessão de Manuela Ferreira Leite na liderança do PSD, deu hoje uma curta entrevista a Judite de Sousa, transmitida em directo na RTP, e deixou bem claro, como ele mesmo frisou, que é o rosto da mudança no seu partido. Reconhecendo maior proximidade com Pedro Passos Coelho do que com qualquer dos outros concorrentes (Aguiar Branco e Paulo Rangel representam a linha sucessória da actual presidente social-democrata, o que equivale a continuidade), o advogado nascido no Porto e criado em Coimbra foi igual a si mesmo, ao homem que tive o grato prazer de conhecer há uns anos, em pleno congresso laranja.
Reconheceu que a recolha de assinaturas que apoiassem a sua candidatura só foi possível graças a um “esforço titânico”, mas garantiu, com a tranquilidade que lhe conheço e com a sinceridade de quem se entrega de alma e coração a um projecto, que tem algumas ideias concretas para pôr em prática, caso saia vencedor das eleições directas da próxima sexta-feira, dia 26. Conhecido pelo papel que tem desempenhado no âmbito da luta contra a co-incineração nas cimenteiras de Souselas e do Outão, Castanheira Barros avançou que dará, na sua actuação enquanto presidente do PSD, atenção especial ao Ambiente, por encarar as questões ambientais como “a grande batalha da humanidade” neste século. Contudo, é nas questões sociais, nos problemas que mais afectam as populações, que porá o enfoque da sua intervenção política.
O desemprego, o congelamento de salários e a perda do poder de compra dos portugueses serão por isso, na sua opinião, os grandes problemas a que urge dar resposta. Mas, porque não basta elencar problemas sem avançar possíveis soluções, explicou que, para combater o flagelo do desemprego, o Governo deveria apostar na promoção do emprego, na criação de mais postos de trabalho em regime de auto-emprego e na criação de mais pequenas e médias empresas, ao mesmo tempo que deveria procurar reduzir a despesa pública. Neste ponto, instou mesmo o Governo e a Presidência da República a “dar o exemplo”…

Servir o PSD
Assumidamente crítico de Manuela Ferreira Leite – numa breve conversa que mantivemos à margem do primeiro congresso após a eleição da actual líder, em Junho de 2008, em Guimarães,  fez questão de vincar a “margem muito débil” com que MFL tinha sido eleita, chegando mesmo a apontar Alberto João Jardim como o presidente ideal para o PSD naquela altura) –, Castanheira Barros acusou-a hoje de não ter sabido inspirar a confiança dos portugueses, que deixaram de ver no PSD um referencial político e uma alternativa ao Partido Socialista. Na sua óptica, o partido deverá regressar aos ideais do seu fundador, Sá Carneiro, que permitiram afirmar o PSD como um partido de “coerência, de democracia e de combate político”.
Diversamente de Manuela Ferreira Leite e dos candidatos que representam a continuidade das suas políticas, Castanheira Barros asseverou ter como principal ponto forte o facto de saber fazer-se ouvir e compreender por todos os militantes e por todos os cidadãos, ricos e pobres, criticando aqueles que falam de problemas abstractos para a generalidade das pessoas, em vez de se concentrarem nas questões que realmente afectam as suas vidas. E rematou afirmando que está na corrida à liderança do PSD “para servir o partido”, e não para se servir dele! Silenciado durante muito tempo pelos media, julgo que o candidato fez bem o trabalho de casa e soube tocar nos pontos essenciais do seu discurso, de uma forma capaz e bem concebida. Judite de Sousa também esteve bem, acutilante e profissional, como é, de resto, seu apanágio.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Porque gosto de José Sócrates...

Há muito a desatinar com os delírios esquizofrénicos de um número incompreensível de lusitanas criaturas sobre temas como liberdade de expressão e censura, “jornalismo livre” e um certo “plano do Governo para controlar a comunicação social”, ou com as absurdas comparações entre José Sócrates e Salazar, resolvo-me hoje a escrever esta crónica, quiçá também delirante! Com uma nota prévia: sou jornalista, nasci no Portugal democrático, não gosto de Mário Crespo e não considero que Manuela Moura Guedes seja jornalista ou saiba sequer o que é dar uma notícia sem partilhar uma opinião ou um posicionamento. E sou alérgica a partidos, mas gosto, e muito, de José Sócrates! Dito isto, vamos ao que aqui me traz.

Fala-se, neste Portugal democrático em que é possível enxovalhar pública e impunemente um primeiro-ministro, chamar-lhe nomes, persegui-lo com atoardas diárias, na mais plena indiferença pelos votos que o elegeram, e reelegeram, para o cargo que ocupa, de ataques à liberdade de expressão. Falam de censura aqueles que, dia após dia, nos entram em casa pela televisão, pela rádio, pelo computador, através dos jornais, a insultar da forma mais pitoresca que se consiga imaginar o homem que os conduz nesta nau meio naufragada em que este país se tornou. Falam, esses senhores, de censuras, de perseguições, de ditadores e de mentiras. Eles, que não conseguiram provar uma só das acusações feitas, e que ainda vivem na quimera de destronar um homem que o povo quis eleger.

Não sou socialista. Aliás, sou alérgica a partidos. Não gosto de rebanhos, e se fizesse parte de um seria certamente a ovelha negra, tresmalhada. Não acredito em disciplinas de voto, não acredito em maiorias esclarecidas, e acho até que a democracia é apenas e só o menos mau dos sistemas políticos, tão longe como qualquer outro de ser a panaceia para os reais problemas do mundo. Acredito nas pessoas. No seu mérito, na sua competência, no modo como se predispõem a servir os outros, sempre insatisfeitos, sempre mal-agradecidos. Há algum tempo, tive a feliz oportunidade de, durante um curto período da minha vida, trabalhar um pouco mais de perto com José Sócrates. E se já o admirava, fruto do que lera sobre ele, do que sei que foi a sua vida e a sua meteórica ascensão política, mais passei a admirá-lo desde essa altura.

Hoje admiro-o também pela forma como tem resistido a esta mesquinha onda de atoardas que visam, única e exclusivamente, depô-lo da cadeira em que os Portugueses quiseram sentá-lo, por duas vezes. José Sócrates é o primeiro-ministro de Portugal. Foi eleito, depois reeleito, e está, de pleno direito, ao leme do nosso país. Não é um ditador. Não é alguém que tomou de assalto um país adormecido. É a plena expressão da democracia, que muitos defendem bem mais do que eu defendo. Na minha opinião, José Sócrates tem sido alvo de uma campanha vergonhosa, recheada de desrespeito, de falta de educação e de civismo, e tem resistido estoicamente. Ainda bem.

No Portugal de hoje, em que se fala amiúde de planos, de esquemas, de conluios e de outros mecanismos mais ou menos arrojados de exercício do poder, há quem se esqueça de que, há cerca de 35 anos, as pessoas eram perseguidas por pararem na rua a conversar com amigos e conhecidos. Havia livros censurados, jornais com páginas em branco, coisas que não se podia dizer ou sequer pensar. Comparar, ainda que levemente, o Portugal de hoje com o Portugal desse tempo, que felizmente apenas conheci de relatos de quem por lá passou, é pouco inteligente, falacioso e até insultuoso. Os que hoje comparam Sócrates com Salazar talvez devessem parar para ouvir os que ainda elogiam esses tempos. Talvez assim percebessem a diferença entre os que apontam a Lua e os que, nesse gesto, apenas vêem a ponta do dedo…

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Torres Vedras em estado de sítio!

Foto: Luís Silva

Foto: Luís Silva

A zona ocidental do Distrito de Lisboa, e nomeadamente o Concelho de Torres Vedras, que na madrugada de ontem foi epicentro de um tornado com ventos de cerca de 200 km/hora, está em estado de sítio, e poderá estar iminente a declaração do estado de calamidade pública. O cenário é de caos completo: árvores arrancadas pela raiz caíram sobre estradas, linhas férreas e casas, há várias estradas cortadas, famílias desalojadas e a noite de consoada estragada, já que milhares de habitações poderão continuar às escuras logo à noite. Volvidas as primeiras 24 horas sobre o temporal, a última noite também não foi pacífica. Choveu muito, os ventos rosnaram de novo com grande velocidade, e a natureza em fúria voltou a dar sinais da sua enorme força, e o sol que actualmente brilha no céu parece querer fazer esquecer as últimas noites e os estragos que provocaram.
Cá em casa os danos são leves: uma janela que se partiu e abriu durante a noite fez tombar alguns objectos na cozinha, voaram algumas telhas (a arrecadação ficou “ao ar livre”), mas no geral está tudo tranquilo. Já lá fora, onde cheguei a temer pelo bem-estar do nosso carro, que está estacionado à porta, o cenário é bem mais devastador: telhados destruídos, quedas de postes eléctricos, dificuldades nas comunicações por telemóvel (ontem não havia rede entre as Caldas da Rainha e Torres Vedras, pelo menos, mas paulatinamente as operadoras foram conseguiram restabelecer o serviço). De acordo com a Protecção Civil de Torres Vedras, são muitos os danos no Parque de Campismo de Santa Cruz e na Colónia de Férias da Praia Azul. No plano concelhio, os prejuízos poderão ascender aos milhões de euros.
Setenta por cento do concelho ficou sem abastecimento eléctrico (cá em casa temos luz, apesar de alguns “soluços” ocasionais, mas a televisão por cabo foi-se com o tornado e ainda não voltou, pelo que estamos reduzidos aos quatro primeiros canais nacionais, apanhados com a ajuda de uma antena interior). Lembro-me, de repente, que o dia 21 de Dezembro é o dia do solstício de Inverno, e do mito de que o fim do mundo chegará nesse dia, daqui a três anos. Sem querer dramatizar o debate desse cenário, que até é objecto de um filme que está actualmente nos cinemas, acredito que a civilização esteja realmente perto do fim. As últimas noites foram disso bom exemplo cá no concelho. Torres Vedras está virada do avesso, e não há optimismo que resista às demonstrações, cada vez mais frequentes, da fúria da Natureza. Dias depois de um sismo de seis graus sentido em todo o país, um tornado assola o Oeste. Se não é o fim do mundo, é algo que, ainda assim, impõe respeito…

Foto: Mário Caldeira/Agência Lusa

Foto: Mário Caldeira/Agência Lusa

Foto: Mário Caldeira/Agência Lusa

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Jornalistas despedidos assinalam aniversário do «Janeiro»

JORNALISTAS DE «O PRIMEIRO DE JANEIRO»
ASSINALAM ANIVERSÁRIO DO JORNAL

Para os jornalistas e outros trabalhadores de «O Primeiro de Janeiro» ilegalmente despedidos no Verão de 2008, o dia 1 de Dezembro marca o aniversário do jornal que produziram durante anos com grande esforço e seriedade. Trata-se, no entanto, de uma realidade bastante mais distante, não só pela acentuada degradação do título, como pela longa batalha judicial a correr nos tribunais.

Decorridas que foram as assembleias de credores no Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia, ainda não foi produzida sentença judicial; no Tribunal do Trabalho do Porto, não há sequer julgamento marcado. Note-se que toda a redacção e outros funcionários foram alvo de um despedimento colectivo, em Julho do ano passado, sem que os seus direitos fossem respeitados, ficando por liquidar alguns meses de salários e subsídios de férias, além das respectivas indemnizações.

No centro de todas estas ilegalidades está o empresário Eduardo Oliveira Costa e o seu grupo de empresas. Desde que comprou «O Primeiro de Janeiro», em 1993, têm-se acentuado a degradação do título, das condições de trabalho e, inevitavelmente, da qualidade da informação, não falando no seu uso para fins contrários aos valores jornalísticos universalmente consagrados.

«O Primeiro de Janeiro» é produzido actualmente por três jornalistas e um trabalhador sem carteira profissional, todos com salários em atraso há vários meses. O jornal «Motor», outro título do universo de empresas de Eduardo Costa, está a ser produzido por um único jornalista, também com salários em atraso.

O Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia ainda não decidiu o futuro da empresa Sedico, SA (que até 2006 tinha o nome de O Primeiro de Janeiro, SA), depois da assembleia de credores do dia 27 de Outubro. Nessa reunião, em que estiveram presentes 97 por cento dos credores, os representantes do empresário de Oliveira de Azeméis, da sua irmã, e da cooperativa que presidem, A Folha Cultural, CRL (agora designada Editorialcult, CRL), rejeitaram o plano de recuperação apresentado pelo administrador de insolvência. Isto apesar de ter sido a Folha Cultural a pagar a caução, em Julho, para travar o processo, alegando a existência de bens na empresa.

Os únicos bens detectados pelo administrador de insolvência foram o arquivo fotográfico, encontrado na antiga redacção da rua Coelho Neto, e a colecção de jornais desde 1868, encontrada na casa do pai de Eduardo Costa, em Oliveira de Azeméis, na freguesia de S. Roque. Segundo o administrador de insolvência, este espólio está avaliado em 250 mil euros, apesar de não se conhecer nenhuma avaliação independente, nem o seu estado e condições de conservação.

No entanto, o valor atribuído ao alegado espólio de «O Primeiro de Janeiro» não serviria para cobrir as dívidas da Sedico aos seus trabalhadores, já que esse valor ascende a cerca de 950 mil euros. Ao Estado, Finanças e Segurança Social fica uma dívida de cerca de 6 milhões de euros; entre as dívidas a fornecedores encontram-se valores significativos de várias empresas de comunicação social do Porto e de Lisboa, apesar de não se conhecer anúncios publicitários ao jornal «O Primeiro de Janeiro».

Todavia, os principais credores da Sedico, em mais de 50 por cento dos créditos, são o próprio Eduardo Costa, através da cooperativa Folha Cultural/Editorialcult, e a sua irmã, Lúcia Jesus Costa.

Apesar da demora dos tribunais em resolver esta teia, os jornalistas e outros trabalhadores ilegalmente despedidos em 2008 não deixam de assinalar mais um aniversário de «O Primeiro de Janeiro», um título que está ligado ao último século da história do Porto e de Portugal.

Jornalistas e outros trabalhadores ilegalmente despedidos em 2008

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Credores da Sedico rejeitam recuperação

Os bens da empresa Sedico, responsável pelo pagamento dos trabalhadores demitidos de «O Primeiro de Janeiro», vão ser liquidados, depois de os credores terem hoje rejeitado o plano de recuperação apresentado. Do grupo de credores que hoje votaram contra o plano de recuperação, no Tribunal do Comércio de Gaia, fazem parte não só os trabalhadores despedidos ilegalmente em Julho de 2008 (a quem a Sedico deve mais de 840 mil euros), mas também a própria Segurança Social, cuja dívida ascende a quatro milhões de euros. As dívidas da empresa ao Estado (Segurança Social e Finanças) ultrapassam neste momento os 5,7 milhões de euros, uma quantia apenas superada pela dívida a fornecedores, estimada em quase oito milhões de euros.

Agência Lusa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quo vadis, PSD?

Não conheço, nem pretendo conhecer, todos os partidos políticos do mundo, mas creio que não será fácil encontrar algum que maltrate mais os seus militantes mais empenhados. O PSD é, neste contexto, caso paradigmático, e nem o difícil momento que atravessa fez alguma luz sobre o seu núcleo duro, que gravita em torno de Manuela Ferreira Leite e daqueles a quem ela recusou sempre chamar “barões”. Efectivamente, há na cúpula do partido uns quantos nomes e rostos que, apesar do contributo sempre discutível que deram para a afirmação do partido, parecem encarar-se, a eles mesmos e entre si, como insubstituíveis. Tudo o que nasce no seio desse grupo é olhado com respeito, e tudo o que chega de fora, de novo, de desalinhado, é olhado de soslaio, sem respeito e até com algum desprezo.

O fim das eleições do líder em congresso e o advento das eleições directas no seio do partido, cumprindo a máxima de “um militante, um voto” por que um grupo de pessoas lideradas por Miguel Braga clamava há vários anos, permitiram que um homem rasgasse a espessa teia dos barões e, embora apenas à segunda tentativa, alcançasse o trono da social-democracia. Esse homem, Luís Filipe Menezes, que do Norte se ergueu contra os “sulistas e elitistas”, derrotou Marques Mendes e venceu as directas, mas esbarrou, logo no momento seguinte, com a implacável oposição do núcleo duro laranja, tomado pelos tais barões. Fizeram-lhe a vida negra. O também autarca de Vila Nova de Gaia, surpreendendo todos aqueles que, como eu, pensavam ver nele um sequioso de poder, elevou-se bem alto para dizer “basta”, e saiu pelo seu próprio pé, intacto na sua dignidade, de um lugar onde não era desejado.

Sucedeu-lhe Manuela Ferreira Leite. Eleita com pouco mais de um terço dos votos, deixou para trás, no segundo lugar, o “eterno JSD” Pedro Passos Coelho (o homem já tem 45 anos, mas ainda é tratado pelo grupo afecto à actual líder como um mero debutante), e no terceiro Pedro Santana Lopes, em quem deu a entender não ter votado nas legislativas de 2005, mas que depressa se apressou a “encostar na prateleira” da Câmara de Lisboa, quiçá para não ter de o ver muitas vezes, nem de temer que este lhe fizesse frente. Manuela Ferreira Leite é, do meu ponto de vista, totalmente inábil para a política. É uma opinião, naturalmente, mas creio que comigo concordarão todos os que não são do PSD, e mesmo alguns (muitos?) que, sendo militantes do partido, esperavam mais de um líder do que a pobreza de argumentos com que a senhora presenteia o seu eleitorado e os seus adversários.

Nas últimas eleições para a presidência social-democrata, Passos Coelho obteve quase tantos votos como a líder eleita, mas foi ostracizado, como se não existisse ou não fizesse parte do partido. Nesse tempo como agora, há no PSD uma franja de pessoas que parece cultivar a ideia de que há militantes que valem mais, e outros que valem menos, ainda que nas urnas todos tenham igual importância. E é por isso que, num momento em que o partido parece ter batido no fundo, com resultados execráveis em todas as eleições a que se vem apresentando nos últimos anos (apesar de alguns insistirem em catalogá-lo como vitorioso, o resultado das últimas autárquicas é claro, a favor do PS), os “barões” repetem o erro de outrora, e voltam a fechar-se sobre si, na busca de um substituto. Ignoram Pedro Passos Coelho, como aliás têm feito sempre, e ignoram Castanheira Barros, que volta a dar conta da sua disponibilidade para avançar.

Fazem mal.
E fazem mal porque qualquer um deles tem condições para ser melhor presidente do PSD do que Manuela Ferreira Leite alguma vez foi. Fala-se, à boca pequena, da disponibilidade de Paulo Rangel, que em Junho foi eleito como cabeça-de-lista para o Parlamento Europeu, mas a sua eventual eleição, além de trair quem votou nele para Bruxelas, seria “mais do mesmo”, numa espécie de reedição de Ferreira Leite. Com Rangel ou com outro, entre os elementos mais próximos da actual líder, nenhum será melhor do que Passos Coelho ou Castanheira Barros. A proximidade à actual líder será mais um defeito do que uma virtude nesta corrida, e nesse campo tenho o grato prazer de anunciar que Castanheira Barros é, quando comparado com Passos Coelho, muito mais coerente. Desde o primeiro momento, e eu sou disso testemunha porque estava lá quando aconteceu a eleição de Ferreira Leite, o advogado de Coimbra foi claro naquela que era a sua, e também a minha posição: a eleita não era, como não foi, a pessoa indicada para o cargo.

Nas recentes campanhas eleitorais, para as europeias, legislativas e autárquicas, Castanheira Barros manteve a sua natural discrição, enquanto Pedro Passos Coelho pareceu vender – ou pelo menos emprestar – a alma ao diabo, surgindo ao lado da mulher contra quem tinha concorrido, e cujos defeitos tão acertadamente tinha apontado. Soou a hipocrisia. Pareceu um apoio de circunstância, por interesse. Não caiu bem. Bem sabemos o que pensa o povo da gente da política: que são falsos, que são vendidos, que querem é “tacho”. Eu não costumo engrossar esse coro, mas essa atitude de Passos Coelho, honestamente, não me agradou. Até porque, semanas depois de ter aparecido em alguns eventos de campanha – e na maioria foi olimpicamente ignorado pela líder a quem fazia o favor de aparecer – Passos Coelho voltou a tomar a estrada da crítica, e está novamente candidato. Não parece sério mudar tantas vezes de campo.

Castanheira Barros, por seu turno, está onde sempre esteve. Na posição de quem é e sempre foi contra, sem artifícios, sem favores, sem vícios nem mudanças de opinião extemporâneas e ao sabor do momento. Já aqui disse, e reafirmo, que tenho Castanheira Barros na conta de um amigo, mas acima de tudo vejo-o como um homem sério, íntegro, dedicado e disponível, interessado e atento ao seu partido. Na alma que emprestou ao combate à co-incineração, vi a força de carácter de um homem que luta por aquilo em que acredita, e que não teme fazer-se à estrada, mesmo que inóspita, para chegar onde quer ir. Este homem seria, com toda a certeza, um excelente presidente do PSD. Com ele, talvez o partido recuperasse o seu lugar como partido de alternância no poder. Porque eu vejo a política é como vejo o futebol: gosto que o Futebol Clube do Porto seja campeão todos os anos, mas também gosto de ver a minha equipa lutar pelos resultados e fazer por merecer esse campeonato…

Foto: Carla Teixeira
Tirada no XXXI Congresso Nacional do PSD - Guimarães, Junho de 2008