Crise obrigou-o a recorrer à reforma antecipada
Segurança Social empurra homem para a miséria e caridade de amigos
Começou a trabalhar com apenas 12 anos. Era aprendiz de serralharia. Fez carreira quase sempre na mesma empresa, onde ao longo da vida foi galgando escalões, e há uns anos, após o seu encerramento, aproveitou a indemnização para criar o seu próprio negócio. A vida corria-lhe bem, até ao dia em que a crise lhe bateu à porta. Em pouco tempo deixou de receber pelos trabalhos que ia realizando, e logo depois começou também a acumular dívidas. Hoje devem-lhe cerca de 120 mil euros, mas o empresário tem à perna o Fisco, a quem deve apenas 300. Obrigado a fechar as portas da firma, e sem direito a subsídio de desemprego (por ser patrão), pediu a reforma antecipada em Fevereiro, assim que fez 55 anos. Sofreu várias penalizações, por ser ainda muito novo. E se durante meses a fio não recebeu nada pelos trabalhos que realizou, desde que se reformou não recebeu qualquer prestação. Depois de uma vida inteira de descontos, está na miséria, e só tem ainda luz e água em casa porque tem amigos que não lhe viram a cara neste momento. Chamemos-lhe Mário, embora saibamos que poderia ter qualquer outro nome no Portugal de hoje…
Mário está desesperado. Dia após dia, concentra atenções no computador, onde consulta o extracto da conta bancária, e aguarda com impaciência a chegada do carteiro, à espera de boas notícias. Dia após dia, nada acontece. Telefona para a Segurança Social, vai até lá, e ouve sempre a mesma resposta: “Tem de ter paciência, aguardar mais uns dias, a ordem de pagamento já foi dada, mas como é a primeira vez demora”. Há semanas que é assim. E a família de Mário continua à espera. Casado e com filhos a cargo, tem contas de água, gás e electricidade para pagar. À mulher, fruto de dívidas acumuladas pela falta de liquidez da empresa, está a ser descontado um terço do vencimento. Mês após mês, a angústia toma conta destas pessoas quando chegam a casa as facturas dos serviços mínimos que mantêm activos. Têm conseguido pagá-las, sempre com atraso, graças a empréstimos de amigos e familiares e a um esforço desumano de poupança. Vivem infelizes, como se tivessem uma corda a apertar-lhes o pescoço. Permanentemente.
Há dias, Mário irrompeu num choro que surpreendeu a mulher e os filhos. Nunca o tinham visto assim, e temeram pelo pior. Na sua idade, uma angústia e um stress desta natureza podem ter maus resultados, e Mário já sofreu um enfarte. Não sabem como lidar com a situação. Estão apreensivos. A impotência dos cidadãos e das famílias face ao Estado é tremenda, e sabem que nada mais há a fazer do que esperar, mais e mais dias, quantos a Segurança Social quiser. O frigorífico está vazio. Nas contas bancárias o saldo é pouco mais do que nulo, quando não é negativo. O cartão de crédito tem ajudado a suprir algumas carências, mas a dívida é crescente, tem de ser bem vigiada. Sentem que vivem num túnel, longo e escuro, sem luz à vista. Viver assim não é viver, e esta família conhece agora uma vida de privações que nunca julgou possível. O que podem fazer, senão esperar? Pouco. Muito pouco. Depois de uma vida de trabalho e de contribuições pagas religiosamente, o que pode fazer Mário para pôr comida na mesa da sua família? Talvez nada. Talvez morra de fome e de tristeza antes de a Segurança Social dar por isso…
NOTA:Esta situação é real e verdadeiramente dramática. Para não ferir ainda mais os envolvidos, a sua identidade foi omitida. Mário é, obviamente, um nome fictício. Este caso poderia ter sido relevado aos meios de informação, mas neste momento, perante o cenário de caos em que o país está mergulhado, não teria o espaço e a dignidade que esta família merece. O Mente Despenteada está consciente de que haverá mais casos como este. Se souberem de algum, não hesitem em partilhá-lo com este espaço. Temos de denunciar estes casos, ou corremos o risco de ver morrer famílias inteiras às mãos da inépcia e da negligência do Estado Português, que tem como missão primeira impedir estes dramas, designadamente quando, como neste caso, eles não resultam da acção dos envolvidos. Esta família é vítima de um sistema que penaliza sempre os mais fracos em detrimento dos mais fortes. E até aposto, porque as conheço, que as grandes empresas que deixaram de pagar à empresa de Mário e a empurraram para a falência continuam a laborar sem grandes dificuldades. Tudo isto me enoja! Tudo isto é vergonhoso e inclassificável!

Infelizmente este não é caso único.
ResponderEliminarQue rapidamente a justiça seja reposta e o Sr. "Mario" bem como restante familia possa retomar o caminho da dignidade e felicidade.
Infelizmente, há muitas e muitas e muitas famílias em desespero como a de Mário...
ResponderEliminarSe eu mesma já me vi numa situação de vender todo o recheio de casa para não perder o tecto e ainda assim, tive de pedir dinheiro emprestado para conseguir pagar as despesas ao fim do mês... E sozinha, sem filhos, já foi um desespero....
Nem consigo imaginar a violência da situação para quem tem filhos!!!!!
Fico muda de pavor....
Oxalá ele e a família consigam dar a volta por cima....
Nestes momentos, só mesmo os amigos para nos dar a mão... Senão, ficamos completamente sem nada...
.......... :(
Só é pena que a segurança social não dê o que é devido a pessoas que sempre trabalharam e deram tanto contributo ao país. Neste mundo português em que vivemos a segurança social dá tanto a uns e nada a outros. Sei de um caso em que um individuo é doente e a segurança social paga tudo, só que o tudo para estas pessoas é ir ao talho ou outra mercearia e em vez de comprarem o que faz falta para a subsistência de cada individuo estes simplesmente abusam da boa vontade das pessoas e dirigem-se, várias vezes ao dia, aos referidos estabelecimentos com ordens pra fornecerem o que quer que seja, e em vez de comprarem bens essenciais compram aquilo a que nós comuns mortais chamamos de "lambarices". E quem os fornece, com ordem da segurança social, tem que esperar que o pagamento seja efectuado quando a seguranca social bem entender. è pena que neste país os direitos não sejam iguais para todos, principalmente aqueles que sempre contribuiram.
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