domingo, 17 de novembro de 2013

As promessas do Grande Medium-Vidente Professor Lamine...


O Prof. Lamine deixou-me este recado na caixa do correio. Com medo de que o não visse, talvez, deixou outro preso nas escovas limpa-vidros do carro. Explica que "não há problemas sem solução", sejam de que tipo forem, e atesta que atende presencialmente ou à distância, em Português ou Francês. Fixe! Mas o melhor mesmo é dizer que resolve tudo "com rapidez total" (haverá rapidez parcial?), com "facilidade de pagamento". Vou ligar-lhe e propor que resolva rapidamente o meu problema de desemprego, e como promete facilitar o pagamento, pago quando ele me arranjar emprego. Se não arranjar, não pago. Boa ideia, né?

domingo, 20 de outubro de 2013

A Bocas viu Sócrates, cujo sucesso não lhe passa no gargalo...

A inveja é mesmo uma coisa tão feia! A Bocas esteve por baixo de José Sócrates num restaurante e não perdeu a oportunidade de mostrar que não consegue ultrapassar o facto de ele continuar a ser aplaudido, enquanto dela ninguém se lembra senão para apresentar - mal - concursos desviados do horário nobre da única estação de televisão que, qual asilo, lhe deu guarida. Vai daí, ligou-se ao Facebook e vomitou isto: 


Não tenho por hábito falar aqui da minha vida privada.Mas, desta vez, não resisto, até porque se cruza com a vida pública de todos nós. Ora, ontem , convidada para um jantar de anos de um amigo , vejam lá a surpresa quando sei que, no andar de cima do restaurante ,o anfitrião do outro jantar era Sócrates, personagem com quem nunca estive pessoalmente. Não vou dizer o nome do sítio que durante umas duas horas e tal partilhámos , só vou explicar que entre nós só havia uma longa escada, íngreme, mesmo à frente dos meus olhos , do primeiro ao ultimo degrau , que , alías, fazia um barulho estranho, algo embaraçador para quem descia , coisa que vários comensais tiveram de fazer, precisamente os convidados de Sócrates.Eram muitos, pelo barulho percebi logo isso. Ainda pensei que fosse para festejar a entrevista dada ontem ao Expresso onde falou para um Povo ingrato que não compreende a grandeza do homem que faz um mestrado em Ciências Políticas como um aluno comum do ensino pós-Bolonha. Não são todos os políticos que o fazem, nós sabemos ... e já depois de ser ministro, primeiro-ministro e em França!E qual Sorbonne!!! Merecia um jantar .Mas descobri não era bem por isto embora tivesse a ver.... por muito que eu estivesse desligada do andar de cima , ouviam-se palmas e , confesso, a minha curiosidade foi aumentando,ainda perguntei ao dono do restaurante se podia ser eu a levar os cafés...mas, não sei porquê , ele disse-me que não , nem deu para insistir. Eu bem via os empregados escada (longa)acima , escada abaixo,a levar e trazer pratos , copos e finalmente os cafés.Fui lá fora ter com amigos que estavam a fumar e tive a grata surpresa de poder ver através dos vidros que são grandes que os meus vizinhos de cima estavam a ver, projectada na parede ,uma entrevista do Herman José precisamente com José Sócrates. Pensei que estavam a recordar coisas antigas que era uma espécie de romagem de saudade.Mas não , era mesmo o programa do Herman de ontem que estavam todos a seguir numa espécie de homenagem ao Grande Líder.Foi logo a seguir que descobri quem eram os convidados, quando um a um , foram descendo as escadas ,os ministros dos seus governos. O primeiro a sair foi Mariano Gago , seguido de Rui Pereira ,cada um levava debaixo do braço um livrinho , o tal sobre a tortura que serviu de trabalho final do mestrado e que Sócrates decidiu publicar. Foi isso que serviu de pretexto ao repasto em que Sócrates se quis ver rodeado dos seus ministros. Estavam lá quase todos,quase, não vi Teixeira dos Santos, Ana Jorge, Alberto Martins , António Costa, I. Alçada Baptista,G. Canavilhas ,I.Pires de Lima, nem Luis Bernardo o seu assessor de muitos anos apesar de estarem lá outros. Luis Bernardo agora está com Seguro...De resto parecia que , de repente, tínhamos voltado atrás no tempo e eu estava a ver desfilar à minha frente os governos de Sócrates. E até Mário Lino , menos ágil nas escadas por momentos pareceu que ia aterrar na Ota , em grande estilo. Mas, meus amigos, se estão à espera de pormenores da saída do novo estudioso sobre a tortura , tirem o cavalinho da chuva. Eu também esperei um bocado , mas tenho a impressão de que por muito que esperasse , seria a mesma coisa. Ele só saiu depois de eu sair. Deve ser um cavalheiro...primeiro as senhoras! E assim , não foi desta que conheci José Sócrates, mas , pensando bem...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Obrigada, bombeiros portugueses!

Foto: Nuno André Freire/Agência Lusa

Há no fogo uma grandeza que assusta. Que nos impele à fuga, ao instinto de sobrevivência. Que nos faz ter medo, querer salvar o que é nosso mas, sobretudo, querer salvar a nossa pele, e a pele dos que amamos. E há homens e mulheres, grandes, superiores a tudo isso, que abdicam da tranquilidade nos dias, e nas noites, para, naquele que será porventura o maior esforço solidário do mundo, assumirem, sob duras condições, a luta contra esse inimigo, poderoso e letal.

A luta é desigual, como nos mostram as notícias mais recentes e as de anos anteriores: pelas minhas contas, são já quatro os bombeiros apanhados pelas chamas nos incêndios dos últimos dias. Homens e mulheres que se entregaram a uma batalha que não era deles, para salvar bens e pessoas que não lhes eram nada, num acto heróico e acima do que é capaz o ser humano comum, muito mais apto a lutas absurdas por razões ainda mais obtusas.

Quatro pessoas perderam a vida nos incêndios dos últimos dias em Portugal. Há também feridos, mais ou menos graves, há desespero estampado nos rostos de milhares de pessoas, há perdas e danos elevados e, para as famílias destes bombeiros, perdas e danos irreparáveis. Há revolta também. E a minha vai sobretudo para os agentes causadores deste drama que ano após ano se renova no nosso país. Todos os anos, haja mais ou menos calor, mais ou menos chuva, mais ou menos justificação, há milhares de hectares de floresta que simplesmente desaparecem, arrastando na voragem das chamas os pertences de famílias inteiras e, bem mais grave do que isso, a vida e a razão de viver de muitas pessoas. 

Não tenho palavras para expressar a dor que sinto por essas vidas que se perdem, pois sei o que é perder alguém que se ama acima de tudo e de todas as coisas. Não quero entrar em polémicas sobre quem devia ter enviado as condolências às famílias e o não fez, porque as vidas que se perderam são muito mais importantes do que isso, e as pessoas que assim perderam a vida merecem muito mais respeito e atenção do que qualquer polémica colateral. Estas pessoas não tinham de morrer! Não era esta a hora delas. Estavam a ajudar outras pessoas, mereciam viver muito mais anos apenas por isso. E no entanto foram apanhadas por incêndios ateados tantas vezes por seres menores, sem escrúpulos, sem uma réstia de humanidade...

Aos bombeiros falecidos deixo o meu incomensurável respeito. Às famílias enlutadas sentidas condolências. Às corporações de bombeiros e a todas as pessoas que ao lado deles enfrentaram as chamas e tentaram minorar os danos, o meu agradecimento. Como cidadã, como ser humano, como pessoa atenta e que já esteve em cenários difíceis como os que estas pessoas enfrentaram, ainda que apenas como jornalista, sei o que sofrem, o quanto se entregam, a força que conseguem inventar nos braços e nas pernas para nunca desistirem. Não há palavras que tranquilizem agora as famílias e os amigos que os perderam para sempre. A não ser a convicção de que eram heróis e morreram como tal. Não é, nem de perto, uma consolação, mas há-de servir para que, um dia mais tarde, consigam sorrir ao pensar neles. E esse sorriso, sei-o bem, será a prova de que o amor vence todas as barreiras, mesmo a da morte, e de que quem ama ama mesmo para sempre...

Obrigada, bombeiros portugueses!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O jardim da minha alma já não vive onde vivia...

“Se protegeres com demasiada devoção o jardim secreto da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão”. Arthur Schnitzler, in «Relações e Solidão»


Quando era miúda, principalmente depois do nascimento da minha primeira irmã, quando a minha mãe ficou em casa a cuidar dela e deixou de poder acompanhar-me todas as manhãs no caminho para a escola e todas as tardes no regresso a casa, costumava percorrer sozinha um longo caminho a pé. Saía do colégio, depois das aulas e de ter feito os trabalhos de casa, e partia ao encontro do meu pai, num ponto previamente definido de onde depois seguíamos juntos para casa. Chegava quase sempre antes dele, e por isso, com a experiência de fazer aquele caminho, comecei a treinar o passo e a saber onde e por quanto tempo podia parar sem correr o risco de me atrasar para lhe cair nos braços e contar como tinha sido o meu dia.

Algures nesse caminho, quase a chegar ao cruzamento onde nos encontrávamos, havia uma casa com muros altos, amarelos, e um imenso jardim, com árvores e flores, que todos os dias espreitava da rua. O jardim escondia a fachada da casa, porque eram altas as árvores, mas parecia nunca estar ninguém. E eu ficava ali, largos minutos, a contemplar em silêncio aquele jardim imenso, e a casa de fachada escondida onde não parecia haver ninguém para apreciar a beleza singular daquele quadro. Um dia, não sei se com coragem ou desmedida ousadia – é quase a mesma coisa, não é? – fiz mais do que apenas contemplar o jardim. Abri o portão e entrei, como se a casa fosse minha, naquela casa amarela de muros altos. Andei por ali, deambulando entre as flores, abraçando as árvores, falando com borboletas e outros bichos que voavam à minha volta. Não apareceu ninguém para me repreender.

Voltei no dia seguinte, e de novo entrei sem que ninguém aparecesse para me proibir ou recriminar. No dia seguinte também, e no outro dia, e no outro, e no outro… Aquele passou a ser o meu ritual diário no regresso do colégio. Nunca contei a ninguém que entrava todos os dias naquele jardim, e que ficava ali a falar com as árvores, as flores, os pássaros e as borboletas. Não sei se alguma vez alguém me viu, ou se alguém sabia daquele meu encontro vespertino com a Natureza, e talvez comigo, com a minha própria alma. Ali, naqueles minutos em que passeava por entre o verde do jardim e o amarelo dos muros altos da casa, sentia-me bem. Estava sozinha, mas era como se estivesse rodeada de amigos. Falava com eles, rodopiava entre as árvores, abraçava-as, inventava diálogos em que era uma princesa e os meus amigos imaginários eram príncipes, cavaleiros, donzelas e criadas, pessoas e animais capazes de dançar comigo, de partilhar comigo os seus devaneios, as suas crenças, os seus medos e os seus maiores sonhos.

Talvez já naquele tempo fosse louca. Talvez houvesse já dentro de mim aquela loucura em que hoje me revejo com prazer e aceitação, como se não houvesse outro remédio senão aceitar-me exactamente como sou, gostando até de ser exactamente assim. Já não danço entre flores, nem abraço árvores, e às vezes sinto falta disso. Sinto que me perdi da criança que fui, que jurei que seria sempre, no dia em que deixei de passar naquela rua, no regresso da escola, e de invadir os muros altos da casa amarela. Aquele era o meu jardim secreto, o jardim secreto da minha alma. Ali encontrava todos os dias o meu sorriso, a minha vontade de rodopiar entre as árvores, na minha dança com as borboletas. Naquele jardim, que por minutos era meu e apenas meu, sentia-me ser. Deixava-me ser, sentir, voar de dentro de mim para o mundo inteiro à minha frente…

Entretanto cresci. E às vezes tenho saudades de ser assim. De ser criança. De ser aquela criança que invadia casas de muros altos, que se permitia construir o jardim da sua alma nos jardins das casas dos outros. Há dias voltei àquela rua. Por acaso, sem premeditar. Procurei a casa amarela de muros altos, e ela lá estava. Mas os muros, que ainda são altos, já não são amarelos. São cinzentos, tristes, apagados. E o jardim já não é jardim, mas antes um enorme pátio de cimento onde há carros estacionados. A casa já não é uma casa. É a sede de uma empresa, com reclamos luminosos e amplas janelas de vidro duplo. A fachada foi alterada, e da casa não sobra qualquer magia daquele tempo em que ali construí o jardim da minha alma e rodopiei entre árvores e flores, dançando com as borboletas e falando com príncipes e princesas, cavaleiros e criadas que viviam apenas na minha imaginação.

Percebi então que o jardim da minha alma já não vivia ali. Que não há agora um espaço físico para esta magia que há dentro de mim e que me faz acreditar em príncipes e princesas, no amor e na saudade, no estar só mas sem deixar de ser feliz nessa solidão. Sei que a minha alma ainda floresce, luxuriante e rebelde como sempre foi, mesmo que não haja um lugar no mundo onde pessoas normais possam ver o meu jardim crescer. Sei que há flores dentro de mim, que há árvores que me abraçam e borboletas que esvoaçam enquanto falam comigo. Sei que mais ninguém vê o jardim que cresce à minha volta. Talvez pensem que sou doida quando me vêem falar com as plantas e os animais. Quando me vêem rir sozinha, sem perceberem que afinal não estou só. Estou comigo, no jardim da minha alma. Estou num lugar onde consigo abraçar quem amo, mesmo que já tenha partido, e em que consigo sorrir e ver a luz do sorriso das pessoas mais importantes da minha vida. Este é o jardim da minha alma. E era, até hoje, secreto. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Porta-a-porta: das vendas ao espancamento de portas fechadas...


Antigamente, sempre que alguém tocava à campainha cá de casa, tínhamos o hábito de abrir a porta, ou de pelo menos ir ver quem era e ao que vinha. Com o tempo, porém, constatámos que na maior parte das vezes quem toca anda a pregar a fé, a vender qualquer coisa ou a pedir, para si ou para as festas anuais da freguesia. Depois de anos e anos a sofrer na pele o “privilégio” de ser alvo preferencial das acções de telemarketing de tudo o que era empresa do ramo, agora, talvez porque deixámos de ter telefone fixo, já ninguém nos telefona. Agora é no porta-a-porta que se materializa o calvário! É raro o dia em que, aqui na rua, não andam pessoas engravatadas e com pastas debaixo do braço, sorrisos mais amarelos do que a gema do ovo e exacerbados ataques de simpatia que soam a tudo menos a genuína alegria por verem quem está por detrás das portas que se vão abrindo. A nossa raramente se abre. E se vemos que é disso que se trata, vendedores e outros pregadores, mesmo que nos vejam entrar em casa, quando tocam agimos como se não estivesse ninguém. E tocam uma vez, às vezes duas, e depois desistem.

Hoje o surreal aconteceu. Vimos do terraço que andava um dos tais engravatados a bater a todas as portas e a tentar impingir a quem as abria qualquer coisa entre telefones e televisão por cabo. Ele não nos viu, e por isso viemos para dentro de casa e prontamente decidimos que não abriríamos a porta quando o tal homem tocasse. E ele tocou. Tocou uma vez, tocou duas, tocou três. Surpreendida com a insistência, pensei em ir lá abaixo dizer-lhe que não tínhamos interesse no que quer que ele estivesse a vender, mas tendo em conta que estava ocupada e que, se não abri a porta à primeira nem à segunda, não fazia sentido abri-la à terceira, continuei a fazer o que estava a fazer. Aparentemente, o fulano desistiu. Cinco minutos depois, quando já ninguém se lembrava do tal homem, da gravata, dos telefones e do sorriso da cor da gema do ovo, o som estridente da campainha fez-se ouvir de novo, e de novo por três vezes.

Entre a incredulidade perante a insistência e a raiva que começava a nascer-me cá dentro, estava prestes a vociferar qualquer coisa quando ouvi – pasme-se! – o homem a bater à porta com o punho cerrado. Como se quem não tivesse ouvido a campainha (e só um surdo de pedra conseguiria tal proeza, ainda por cima com o cão a ladrar como se viesse aí o fim do mundo) ouvisse, por artes mágicas, os nós dos dedos a bater na porta! Por fim a criatura marchou e nunca mais foi vista, mas ficou no ar a pergunta: que espécie de desespero leva um vendedor de telefones que anda de porta em porta, de rua em rua, a massacrar de tal maneira as campainhas, os batentes e os próprios nós dos dedos?! Que acham estas pessoas que têm assim de tão importante para dizer que não há, da outra parte, a possibilidade de simplesmente não haver qualquer interesse em ouvi-los? Ou, mais grave ainda, como é que não pensam que pode não estar ninguém em casa, porque tal como eles as outras pessoas também têm empregos e sítios onde estar durante a tarde?!

Foi então que me lembrei da minha curta – curtíssima – incursão no mundo das vendas porta-a-porta. Não durou mais do que uma manhã, e só me apanharam lá porque na entrevista de emprego em que tinha estado no dia anterior me disseram que o trabalho era na área da publicidade e da distribuição, e ninguém me falou no porta-a-porta. Disseram-me para me vestir bem, formal, e usar calçado confortável, e antes de sair do escritório, com o que depois soube serem dois vendedores, ninguém me disse para onde íamos. Mas adiante, que as técnicas de recrutamento actuais são o que todos já sabemos: diz-se o mínimo sobre direitos, explica-se bem os deveres, elogia-se a função que nos atribuem até que enjoemos dela, antes mesmo de começar, e depois percebemos, na prática, que nada era o que parecia ser. Aguentei uma manhã a andar de porta em porta com os tais vendedores de telefones. Um deles, o “chefe de equipa”, tecia rasgados elogios à minha “atitude”, dizia gostar muito da minha “postura”, “educada e curiosa”, talvez por eu fazer muitas perguntas a que ele nem sempre sabia dar uma resposta convincente.

Durante essa manhã eu apenas tinha de ver “como se fazia”. Não tinha de fazer ou dizer nada, apenas “aprender” com “a equipa”. Ainda assim, para não ser completamente enfadonho, passaram-me para as mãos um mapa com o nome das ruas que íamos “visitar” e os números de todas as portas a que teríamos de bater, sendo a minha missão anotar, à medida que avançávamos, e em cada um dos quadradinhos, se havia pessoas em casa, se tinham telefone fixo, quando pagavam de assinatura mensal e se estavam satisfeitas com o serviço. Caso ninguém abrisse a porta, tinha de assinalar no mapa que não estava ninguém e, nesse mesmo dia, teria de voltar a tocar à mesma campainha da parte da tarde. A missão era, portanto, andar o dia inteiro no mesmo quarteirão, a bater a todas as portas, a subir a todos os andares de todos os prédios, a falar com os velhotes que nos abriam as portas (durante o dia há muitos velhotes sozinhos em casa) como se sofresse de um qualquer problema mental que mantinha o sorriso amarelo como a gema do ovo cravado na minha cara, e a tentar impingir-lhes o telefone (e até tínhamos um, dentro de uma caixa, que o meu “colega” oferecia a todas as pessoas que abriam a porta, dizendo-lhes: “Este telefone é para si, é uma oferta” (que depois lhes tirava da mão quando as pessoas diziam que não estavam interessadas no serviço que estávamos a vender).

Para mim bastou. Se quisesse enganar velhotes tenho a certeza de que seria capaz de o fazer autonomamente, por minha conta e risco, gastando muito menos solas de sapatos e muito menos hipocrisia! Não estava interessada e disse logo à “equipa” que aquilo não era para mim. Uma vez mais o chefe elogiou a minha “atitude e postura”, por “ter ido observar antes de recusar”, por “não ter dito logo que não”. Tive a certeza de uma coisa: é preciso ser forte para ser vendedor de porta em porta. É preciso ser fisicamente possante, capaz de simular simpatia até ao infinito, mentir quando nos perguntam pelo intercomunicador o que queremos (porque ninguém abre a porta a quem diz que anda a vender telefones). Não é mesmo para qualquer um. Mas mais do que isso tudo, é preciso ter pouco amor-próprio também, e ajuda se formos uns grandes chatos. E chatos já vi muitos, no porta-a-porta e em muitos outros lugares que por todo o lado agora se transformam em pontos de venda de qualquer coisa. O que nunca tinha visto era um chato desesperado como o engravatado que hoje me bateu à porta. Tocar à campainha de uma pessoa meia dúzia de vezes em meia dúzia de minutos e depois ainda ousar bater à porta com os nós dos dedos não é coisa de gente normal…

terça-feira, 23 de julho de 2013

A toponímia e os candidatos às eleições autárquicas...

Que a política em Portugal - desconfio que no resto do mundo também - anda pelas ruas da amargura já todos sabemos, e que político que se preze é sempre muito, mas muito mentiroso também, mas vejam lá que agora virou moda os candidatos às autárquicas de Setembro próximo começarem a mentir assim que chegam junto das populações e se apresentam aos cidadãos! É que começam a mentir mal dizem o nome! Não acreditam? Então reparem nisto:

Basílio Horta é candidato pelo Partido Socialista. A que câmara é que ele concorre? Será à Câmara Municipal da Horta? Não. Basílio Horta é candidato do PS à Câmara Municipal de Sintra! 

E de Élio Maia já ouviram falar? Élio Maia é cabeça-de-lista de uma candidatura independente a uma câmara do Norte do País... Será a Câmara da Maia? Nã... Isso seria demasiado fácil. Élio Maia concorre à presidência da Câmara de Aveiro!

Herlander Mira. Dou um doce a quem acertar na câmara a que este senhor concorre. Alguém disse Mira?! Estará alguém a ler este texto desde o início?! Herlander Mira veste a camisola da coligação PSD/CDS mas não é a Câmara de Mira que ele quer. Nada disso! Ele quer mesmo é ser presidente em Mértola, que fica um bocadinho mais abaixo...

Envergando as cores do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua é apontada como candidata do partido não a Mortágua, mas à Câmara Municipal de Almada...

E esta, hein? São uns enganadores estes candidatos. Mal chegam junto da populaça e se apresentam - "Olá, eu sou o Fulano de Tal" - já estão a falar de concelhos que não são os deles e de que não querem saber para nada, pelo menos por agora! Longe vão os tempos de políticos como Fátima Felgueiras, que ao menos mal se apresentavam diziam logo ao que vinham... :)

NB: Este texto é uma brincadeira e não visa ofender nenhum dos candidatos citados. 

domingo, 21 de julho de 2013

"Todas as relações são feitas de pedra"...

“Uma relação entre duas pessoas que se amam tem de se basear na capacidade de erigir um edifício. Pedra a pedra. Tijolo a tijolo. Poucas obras de engenharia são mais complexas do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Nenhuma obra de engenharia é mais complexa do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Nada é mais exigente fisicamente do que uma relação entre duas pessoas que se amam. Tem de haver uma entrega absoluta. Até à última gota. Para que cada pedra esteja no local certo. E por vezes há que caminhar quilómetros com essa pedra às costas para a colocar no local certo. Nem mais um centímetro à frente nem mais um centímetro atrás. Cada pedra que constróis também pode ser cada pedra que destrói, que faz derrubar todo o edifício. Todas as relações são feitas de pedra. Mas está na nossa mão. Está na mão dos dois constituintes de uma relação entre duas pessoas que se amam definir se a pedra serve para separar se a pedra serve para unir. Todas as relações são feitas de pedra. E é assim que construo. É assim que pela primeira vez construo. Estou a construir. Digo-te cada verdade e sei que estou a colocar as pedras que nos separavam nos locais certos. Para que o edifício cresça quando já estava quase a cair. Para que possas depois perceber se queres construir comigo ou se queres que tudo isto que somos caia de vez. Olho-te nos olhos e sei que choras. Sei que choras a cada verdade que te entrego, a cada pedra que te coloco nas mãos. Não sei se terás força para as suster, se terás força para as aguentar, para as suportar dentro de ti. Não sei se algum de nós conseguirá levar mais longe este edifício. Mas sei que me sinto enfim a ser eu em ti como tu sempre foste em mim. Todas as relações são feitas de pedra. Há que construir. Há sempre que construir”.

Pedro Chagas Freitas, no livro «In Sexus Veritas»

sábado, 6 de julho de 2013

Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor...


Há, entre os poucos que me conhecem bem, os que gostam muito de mim e os que não me suportam. Alguns gostam muito de mim por motivos que desconheço, mesmo até quando eu nem gosto muito deles. No extremo oposto, há os que me detestam, mesmo quando nada fiz que justifique tamanha ira. Em qualquer dos casos, é para o lado que durmo melhor. Gosto de quem gosto, tento inspirar nos outros o tipo de sentimento que nutro por eles. Se consigo, óptimo; se não consigo, paciência.

O que não entendo é aquele tipo de gente que se faz constantemente de vítima, que inventa ódios que nunca senti, que vê em mim uma fonte de inesgotáveis desamores. Eu até sou boa pessoa, juro. E tento ser melhor a cada dia que passa. Dou aos outros muito mais do que recebo deles, e mesmo assim, na hora de criticar e de insultar, com ou sem razão, é sobre mim que recai a escolha dessa gente, mesmo daqueles a quem já dei provas bastantes do meu afecto e da minha disponibilidade. Se a ideia é escolher um alvo preferencial, I'm the one! E sabem de uma coisa? I could care less. É verdade que podia não me importar. Afinal, sou o que sou e não aquilo que querem fazer de mim nessas tristes interpretações da realidade muito particular que só existe na cabeça dessa gente. Mas sempre me perturbou o raciocínio de quem vê sempre nos outros a culpa para os seus males.

De uma coisa eu sei: não sou perfeita. Longe disso. Sou boa quando sou boa, mas quando sou má sou ainda melhor. E quem se mete comigo fica sempre com histórias para contar. Os que amei hão-de amar-me para sempre. Os que poderia ter odiado - mas que optei por apenas ignorar - hão-de para sempre lembrar-se de mim. Felizmente, e a idade tem-me ajudado nisso, sou mais de perdoar do que de revidar. Não perco tempo com a mesquinhez alheia. Vivo melhor assim. Quando a minha paciência acaba tendo a ter mau feitio, mas para já, para meu bem e para bem de todos, opto pelo silêncio. É sempre uma boa arma. A quem me ataca, num acesso de umbiguismo sem precedentes, fica dado o recado: quem vai à guerra dá e leva, e um dia veremos quem ganhou a maior parte das batalhas. Não tenho medo desse julgamento.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Já falta menos de uma semana...

Despenteados amigos, já falta menos de uma semana para o dia do meu aniversário. Serão 37 os verões que completo, num ano que nem com a Primavera parece querer grande coisa, pelo que acho que mereço presentes dignos desse nome! Pela lógica, deveria listar aqui 37 presentes de sonho, para tornar mais fácil a vossa escolha (não quero que vos falte nada)! Mas como não sou assim tão exigente, e no fundo preocupo-me com a vossa saúde financeira, contento-me com estes cinco presentes que elenco aqui. Com a certeza de que, qualquer que seja a vossa escolha, sabereis certamente que o vosso presente me fará muito feliz! :)

1. Audi A3 E-Tron
(também pode ser o RS que eu não me aborreço)...


2. Blackberry Z10
(também pode ser o Q10, que eu ainda resisto um cadito aos telemóveis de teclado virtual)...


3. Aple MacBook Pro
(para este presente não incluo segunda escolha, porque é mesmo isto)...


4. Câmara fotográfica Nikon D7100
(ou outra de igual pompa e circunstância)...


5. Uma aparelhegenzinha Bang & Olufsen
(para dividir com o maridão, que é fã da marca, mas porque não quero que ele tenha de trabalhar umas sete vidas e meia para poder comprar uma)...


E pronto! Está a lista feita. Muito obrigada e até para o ano! :)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Liberdade...


Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Liberté | Paul Eluard (1895-1952)




sexta-feira, 22 de março de 2013

Sócrates, marisco, leitão e outras iguarias…


Sou, desde que me conheço, uma pessoa diferente das outras. Não sou melhor nem pior do que os que me rodeiam, mas sou definitivamente diferente, e destaca-se nessa minha idiossincrasia a capacidade de gostar do que poucos gostam, ao mesmo tempo que não gosto daquilo que outros julgam ser maravilhas. Na escola os meus professores preferidos eram sempre aqueles de que a maioria da turma não gostava. Nos empregos que tive gostei sempre das pessoas mais polémicas, das aparentemente menos simpáticas, mas nunca das que faziam da preguicite o seu lema de vida e da má qualidade o rosto do seu trabalho. Era já adolescente quando comi pela primeira vez uma fatia de queijo, porque antes disso, mesmo nunca tendo provado, garantia que não gostava de queijo. Da mesma forma digo agora que não gosto de marisco, sendo que nunca provei qualquer tipo de marisco. Sei que nunca provarei, porque decidi que não gosto. Também não gosto de leitão, que faz as delícias da maior parte das pessoas que conheço, e certa vez, mesmo estando esganada de fome, não fui capaz de ir além de meia sandes do dito. Nem de caracóis, que também nunca provei. São coisas! 

Politicamente gosto de José Sócrates. Não, não sou socialista, e irrita-me que toda a gente pareça pensar que é preciso ser socialista para gostar de Sócrates. Também gosto de Honório Novo, e não sou comunista. E também gosto de João Teixeira Lopes e de José Soeiro, e isso não faz de mim bloquista. Por que carga de água é que ter admiração por Sócrates há-de fazer de mim socialista, alguém me explica?! E por que é que toda a gente gosta do que gosta, mas quem gosta de Sócrates tem de ser atacado, até por quem gosta de Passos Coelho, Miguel Relvas e Vítor Gaspar? E como é que alguém que gosta destes três acha que pode criticar quem gosta do que quer que seja?! Por que é que as pessoas não podem gostar do que gostam em paz e sossego, sem que venham logo, de todos os lados, dezenas de vozes, supostamente moralizadoras, dizer “não entendo como podes gostar desse gajo”. Mas alguém se preocupa em perceber por que é que eu não gosto de leitão ou marisco, e por que razão gosto muito de morangos, cerejas, caldo verde, presunto e mini-tostas com queijo de ervas?! Então, se fizerem o favor, parem lá com os moralismos bacocos e deixem-me em paz, com os meus gostos e os vossos desgostos. E metam na cabeça, de uma vez por todas, que gostar de Sócrates não é ser socialista! Ajuda se vos disser que não gosto de rótulos e cores e bandeiras? E se vos disser que não gosto de António José Seguro? 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

De como um texto jornalístico colabora numa fraude...

FOTO: MENTE DESPENTEADA

É absolutamente notável! Este homem, abusivamente considerado um lutador neste artigo do «Jornal de Notícias» de hoje, chama-se Ricardo Frade, mas podia muito bem chamar-se Ricardo Fraude! Então diz a criatura que vai partir numa "viagem ultra-low-cost" até Skelleftea, na Suécia, sem dinheiro e recorrendo apenas à imaginação: "Vou ser só eu e a capacidade inata do ser humano de improvisar e resolver problemas", assegura ele. Conta depois como surgiu a ideia, de uma teima com o pai, e garante que com isto quer "fazer algo pelo nosso país, por todas as pessoas que não sabem como lidar com as tremendas dificuldades que estamos a viver". Pelo meio, a julgar pelo que se escreve no antetítulo, ainda critica os que "vivem obcecados por pseudonecessidades e que podiam ser mais felizes com menos dinheiro e mais improviso".

Pois muito bem! Estava eu a ler este texto quando, no último parágrafo (o esquema da pirâmide invertida na construção de um artigo jornalístico permanece um mistério para muitos jornalistas), leio o seguinte: "A partida está programada para 6 de Fevereiro, mas carece ainda de um empurrãozinho. É preciso dinheiro para a passagem de ida (só o regresso é que será de mãos a abanar)...". Lindo, não é? Digam lá que o homem não é imaginativo! É tão imaginativo que consegue levar uma jornalista a escrever um texto em torno da alegada imaginação que torna desnecessário o dinheiro que acaba... a pedir dinheiro! Fabuloso! Este fulano não tem lata. Tem um latão! 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Loja do Cidadão, porque há lá muitos!

Ontem percebi, com clareza e exactidão, por que razão nada funciona como deve ser em Portugal. É que, se há ditado popular que acerta em cheio na realidade portuguesa, é aquele do "cada cabeça, sua sentença". Vai daí, ninguém se entende, toda a gente se desentende, perde-se tempo precioso para tratar de uma qualquer porcaria sem jeito e no fim fica tudo na mesma. Recapitulemos: há cerca de 10 dias fiz um negócio de que, por circunstâncias várias, me arrependi. Indaguei a outra parte interveniente no dito negócio, que de imediato aceitou desfazê-lo.
Acordámos uma data para nos encontrarmos e procedermos à troca do bem transaccionado pelo dinheiro pago, e vice-versa. Na véspera desse encontro, e de forma consciente e muito responsável, a outra parte interessada foi saber concretamente quais os procedimentos legais a tomar para anular o negócio. Foi-lhe dito que seria melhor irmos ao mesmo notário onde tínhamos celebrado o registo de propriedade, pois lá seria fácil e rápido pedir a anulação do negócio, o que evitaria inclusivamente a realização de novo registo e o consequente pagamento do mesmo.
E assim foi. Lá fomos nós. Chegadas ao notário (o tal que tinha prestado as tais informações), fomos informadas de que, afinal, não era bem assim. Afinal, o registo tinha ido parar a Lisboa e era preciso ligar para a conservatória para pedir que parassem o processo e anulassem o negócio. O telefone bem tocou, mas do outro lado nem sinal de vida! Ficámos a saber que é sempre assim. Que "em Lisboa é raríssimo atenderem o telefone", e que, "se calhar, era melhor enviar um e-mail", sendo certo que o tempo de resposta dependeria exclusivamente do tempo que a pessoa que não tinha tempo para atender o telefone tivesse para ler o e-mail e responder ao mesmo. Em vez disso, fomos aconselhadas a ir à Loja do Cidadão mesmo em frente, pois "eles têm acesso à base de dados e conseguem resolver o problema". Atravessámos a rua, entrámos na Loja do Cidadão. E então percebi por que é que aquilo que chama assim. Não é porque lá se venda cidadãos, nada disso! Mas que há lá muitos, quase sempre muito enfadados e com ar de quem está prestes a explodir de raiva, isso há!
Esperámos duas horas. Duas horas para que a única funcionária disponível para o atendimento daquele tipo de questões passasse do cliente 20 (o número em que ia a lista de chamada quando tirámos a nossa senha) ao cliente 37, que éramos nós. Duas horas! Ao fim desse tempo, perdido por duas pessoas com muito mais o que fazer do que aquecer cadeiras numa sala de espera, soou a campainha e era a nossa vez. Em muito menos tempo, verdade seja dita, ficámos a saber que tínhamos de facto perdido todo aquele tempo ali. Pois "não era ali que tínhamos de resolver o problema", pois que "o notário nos tinha despachado, porque fazer um negócio é muito mais fácil do que desfazê-lo", pois que "era preciso ligar para Lisboa, mas lá nunca atendem o telefone". Senti a raiva a crescer dentro de mim, mas controlei a vontade de insultar aquela gente toda para perguntar como é que se resolvia a questão, se no notário nos tinham mandado para ali, e se ali diziam que no notário é que a coisa se resolvia. Tínhamos de "enviar um mail para Lisboa". Aliás, "tinha de ser o notário a enviar o mail, porque foi no notário que o registo foi feito"...
Atravessámos de novo a rua, entrámos no notário. Espantadas por ainda andarmos com os documentos de um lado para o outro, tentaram "ligar para Lisboa, que nunca atende o telefone". Conseguiram perceber, da mesma forma que na Loja do Cidadão também já tinham percebido, que o registo ainda não foi concluído e que, como tal, o negócio ainda não estava feito. Mas como "em Lisboa nunca atendem o telefone", restava enviar o tal mail, "a ver se ainda íamos a tempo de anular o negócio", mas que "seria muito difícil", e que mais valia, talvez, deixar que o negócio se consumasse, os registos fossem enviados para minha casa, e depois ir lá de novo, fazer novo registo, e pagar de novo, celebrando novo negócio, invertendo aquele que queríamos anular e que ainda não estava legalmente consumado. Perceberam? Nós também não. Há um negócio que legalmente ainda não está registado, e que como tal ainda não existe, e duas pessoas que querem desfazer o negócio, mas não pode ser desfeito porque "Lisboa nunca atende o telefone".
Resultado: viemos embora com o negócio por desfazer, embora na realidade ainda não esteja legalmente feito, e com a incumbência de lá voltarmos para, uma vez que seja feito, o desfazermos. E isto tudo porque "em Lisboa nunca atendem o telefone". Assim se funciona em Portugal. De mãos atadas.