quinta-feira, 31 de julho de 2008

Crónica de uma morte anunciada

Hoje sento-me aqui para desabafar contigo. No teu leito de morte (e tu sabes como lamento que morras, apesar dos teus quase 140 anos, ou talvez mesmo por todos e cada um deles, e por todas as aventuras e desventuras, por todos os sorrisos e por todas as lágrimas que partilhei contigo), não ousarei mentir-te e dizer-te que nunca te deixaria. Sabes bem que há muito tempo tentava deixar-te. Tentei debalde despir a camisola daquele amor que nos demos, desde aquele primeiro dia, que já não era o mesmo. Um amor estranho, atraiçoado pelas tuas imperfeições, definhando, mas ainda assim um amor inequívoco.
Terei sido uma das primeiras pessoas a sentir-te o pulso fraco, um prenúncio de morte chegando em cada gesto lento, retorcido, em cada dificuldade nova, em cada suspiro exalado quase com desdém por mim e por todos quantos diariamente tentavam dar-te a mão e ajudar-te a levantar. Todos os dias, um após o outro, chegávamos com sorrisos, que tu não vias. Queríamos, sem excepção, adivinhar-te novas aventuras, espalhar o teu nome por esse mundo que havia de ser teu, como já era de cada um de nós. Mas tu, às vezes passivo, quase sempre indiferente aos nossos esforços, ias esmorecendo, adoecendo, minando os sonhos de quem te abraçava com esperança.
Hoje, neste leito de morte onde te esvais, onde venho sentar-me para a despedida, já quase em lágrimas enxutas de saudade, digo-te que te amei. Sei que não és um dos grandes. Sei que não és famoso e galardoado. Sei que és pequenino e fraco às vezes. Mas és meu. Um bocadinho meu, pelo menos. Crescemos juntos, eu e tu. Em cada aventura partilhada, em cada momento de luta, em cada gota de cansado e pensativo suor que me escorria pelo rosto. A diferença de idades não nos afastou, antes pelo contrário. Cresci contigo e fiz-te crescer também, ao meu jeito de menina buscando segredos para revelar. Revelámos alguns em conjunto, e houve pessoas que vieram ter connosco por mim, e outras por ti, pelo teu nome, mais conhecido do que o meu. Bem sei que muitas vezes me zanguei contigo, que quis deixar-te e não voltar a folhear as páginas da nossa história.
Quis esquecer-te, talvez odiar-te, mas não fui capaz. Não sou capaz, mesmo agora, que sei que te vais e levas contigo os meus sonhos mais sonhados, os meus anos mais dourados. Vejo-te morrer a cada dia, e sei que não tenho forças para estancar o teu sofrimento. O nosso, que sofro e sofrem todos os teus amigos contigo.
Somos muitos. Alguns partiram já, mas guardam-te na memória. São, também eles, pedras do teu castelo. Por ti passaram tantos momentos de glória e de desconforto, de raiva e de dor, de medo e de descoberta, de alegria e de amizade. Estão todos guardados num baú mágico de lembranças, onde as boas hão-de sempre dissipar a água turva que cobre as más. Tens amigos que foram e voltaram, outros que nunca te deixaram, como eu.
Há os que falam mal de ti, mas que um dia terão saudades. Eu sei que as terei, se não as tenho já, agora que sei que te vais. Partilhámos sete (apenas sete!) dos teus quase 140 anos. Sei que muitos não acreditarão, mas terei sempre saudades tuas. E hoje, no teu leito de morte, venho desabafar contigo. Para dizer em surdina o adeus que nunca poderei verbalizar. Sempre se disse que terias vida efémera. Muitas vidas, diárias, sucessivas. Mas o adeus, em definitivo, soa ao fim que tantos te vaticinaram, mas que não desejava. Há muito que queria deixar-te, é verdade. Mas não assim…

Também quero!

Afinal, quem é que disse que os milagres não existem? Uma equipa de investigadores norte-americanos desenvolveu um medicamento verdadeiramente inovador, que dá corpo a uma ambição comum a tantos e tantos seres humanos por esse mundo fora. É a droga por que todos ansiávamos, acreditem. Então não é que aqueles cientistas conseguiram desenvolver um fármaco que reproduz os benefícios do exercício físico sem nos obrigar a constantes idas ao ginásio? Pelo menos conseguiu fazê-lo, segundo avança hoje a Agência Lusa, em ratos de laboratório. O estudo foi publicado hoje na revista «Cell».

Aí está uma placa esclarecedora...


Fica mesmo em frente à Estação de Caminhos-de-Ferro da Granja, em Vila Nova de Gaia (Foto: Mente Despenteada)

Quo vadis, Jornalismo?

Soube hoje, através do Filinto, no Esgravatar, que a «Columbia Journalism Review» abriu uma secção em que acolhe contribuições dos jornalistas que estão a deixar a profissão sobre a razão por que o fazem ou, simplesmente, para que avancem as suas conclusões sobre a actual situação do sector e sobre o que está a acontecer à indústria jornalística. Deixo convosco, aqui, o meu ensaio sobre a matéria. Pobre, mas sentido...

O Jornalismo anda pelas ruas da amargura, e em Portugal, onde já tudo e todos se vêem obrigados a correr por essa mesma rua, a actividade jornalística encontra-se hoje ainda mais abaixo do que no resto do mundo dito desenvolvido. A meu ver, os verdadeiros jornalistas já não são muitos e o Jornalismo tem dias contados. Até lá, enquanto o fim não chega, a profissão vai atirando borda fora uns quantos incautos, fartos dos ordenados que são pouco mais do que mínimos e dispostos a trocar uma paixão por uns trocos a mais no final do mês. Não os condeno. Como não condeno os ratos que abandonam o barco ao primeiro sinal de perigo. E há muito tempo que o Jornalismo está em perigo. Se a crise – e é sempre ela que “paga o pato” – minou um terreno que há alguns anos dava bons frutos, quando a exigência ainda era um dos caminhos mais directos para a excelência, actualmente há muito mais factores que concorrem para o fim da actividade jornalística do que a mera perda do poder de compra dos portugueses (que nunca foram dados a ler jornais) ou o advento e o crescimento da internet.
A imprensa portuguesa – e falo desta área, porque é a que conheço melhor, mas é também a que terá maiores dificuldades em sobreviver diante do imediato da rádio, da imagem televisiva e do “dois em um” de qualquer site, noticioso ou não –, não é hoje mais do que uma sombra, ténue e difusa, da imprensa de outros tempos. São mais as empresas que fecham do que as que abrem, são mais as que não vendem do que as que vendem pouco, os gratuitos conquistam espaço e leitores aos jornais tradicionais, e o rasgo dos profissionais, o dinamismo que poderá fazer a diferença, caiu irremediavelmente em desuso. Hoje, mais do que dar notícias, formar/informar, reportar ou explorar um dado, interessa encher páginas, casar artigos de interesse mais ou menos duvidoso com anúncios ainda menos importantes, e fazer dinheiro. A qualidade do produto já não conta. Afinal, a efémera manchete de hoje será, com toda a certeza, usada para embrulhar o peixe de amanhã.
A sede de desbravar caminhos novos, por vezes inóspitos e sem saída, mas tantas vezes profundamente interessantes e memoráveis, perdeu-se na azáfama de quem tem de atirar para as bancas páginas e páginas, e tem cada vez menos meios, não só humanos, mas sobretudo humanos, para fazer face ao volume de trabalho cada vez maior e mais deslavado. O jornalista transformou-se num ser amorfo, cinzento e sem opinião formada sobre nada, com um horário a cumprir, acorrentado apenas a um salário risível e ao desafio de viver 30 dias com aquele montante. Os jornais passaram a fechar cada vez mais cedo, sem ter em conta notícias importantes, que têm de sobrar para o dia seguinte. A investigação morreu, pura e simplesmente! A Agência Lusa investiga, e na manhã seguinte todos os jornais publicam o mesmo exacto texto, sem o cuidado de ouvir mais alguém ou acrescentar o que quer que seja à informação primeira, que já correu todas as emissoras de rádio e televisão. Reina o facilitismo e, como tal, reina a mediocridade. É este o nosso Jornalismo.

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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Recomeçar...



O Mente Despenteada está de cara lavada. Mudou de casa, mudou de roupagem, mudou de vida. Só não mudou de atitude, que o mau feitio tem piada e está na moda. É a imagem de marca desta casa, que hoje prova, uma vez mais, ser itinerante. Depois do Mente Despenteada e do Mente Despenteada II, chega agora a vossas casas, despenteados amigos, o Mente Despenteada III. Fiquem desse lado, porque vale sempre a pena. Vocês são a alma da coisa.