segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Quo vadis, PSD?

Não conheço, nem pretendo conhecer, todos os partidos políticos do mundo, mas creio que não será fácil encontrar algum que maltrate mais os seus militantes mais empenhados. O PSD é, neste contexto, caso paradigmático, e nem o difícil momento que atravessa fez alguma luz sobre o seu núcleo duro, que gravita em torno de Manuela Ferreira Leite e daqueles a quem ela recusou sempre chamar “barões”. Efectivamente, há na cúpula do partido uns quantos nomes e rostos que, apesar do contributo sempre discutível que deram para a afirmação do partido, parecem encarar-se, a eles mesmos e entre si, como insubstituíveis. Tudo o que nasce no seio desse grupo é olhado com respeito, e tudo o que chega de fora, de novo, de desalinhado, é olhado de soslaio, sem respeito e até com algum desprezo.

O fim das eleições do líder em congresso e o advento das eleições directas no seio do partido, cumprindo a máxima de “um militante, um voto” por que um grupo de pessoas lideradas por Miguel Braga clamava há vários anos, permitiram que um homem rasgasse a espessa teia dos barões e, embora apenas à segunda tentativa, alcançasse o trono da social-democracia. Esse homem, Luís Filipe Menezes, que do Norte se ergueu contra os “sulistas e elitistas”, derrotou Marques Mendes e venceu as directas, mas esbarrou, logo no momento seguinte, com a implacável oposição do núcleo duro laranja, tomado pelos tais barões. Fizeram-lhe a vida negra. O também autarca de Vila Nova de Gaia, surpreendendo todos aqueles que, como eu, pensavam ver nele um sequioso de poder, elevou-se bem alto para dizer “basta”, e saiu pelo seu próprio pé, intacto na sua dignidade, de um lugar onde não era desejado.

Sucedeu-lhe Manuela Ferreira Leite. Eleita com pouco mais de um terço dos votos, deixou para trás, no segundo lugar, o “eterno JSD” Pedro Passos Coelho (o homem já tem 45 anos, mas ainda é tratado pelo grupo afecto à actual líder como um mero debutante), e no terceiro Pedro Santana Lopes, em quem deu a entender não ter votado nas legislativas de 2005, mas que depressa se apressou a “encostar na prateleira” da Câmara de Lisboa, quiçá para não ter de o ver muitas vezes, nem de temer que este lhe fizesse frente. Manuela Ferreira Leite é, do meu ponto de vista, totalmente inábil para a política. É uma opinião, naturalmente, mas creio que comigo concordarão todos os que não são do PSD, e mesmo alguns (muitos?) que, sendo militantes do partido, esperavam mais de um líder do que a pobreza de argumentos com que a senhora presenteia o seu eleitorado e os seus adversários.

Nas últimas eleições para a presidência social-democrata, Passos Coelho obteve quase tantos votos como a líder eleita, mas foi ostracizado, como se não existisse ou não fizesse parte do partido. Nesse tempo como agora, há no PSD uma franja de pessoas que parece cultivar a ideia de que há militantes que valem mais, e outros que valem menos, ainda que nas urnas todos tenham igual importância. E é por isso que, num momento em que o partido parece ter batido no fundo, com resultados execráveis em todas as eleições a que se vem apresentando nos últimos anos (apesar de alguns insistirem em catalogá-lo como vitorioso, o resultado das últimas autárquicas é claro, a favor do PS), os “barões” repetem o erro de outrora, e voltam a fechar-se sobre si, na busca de um substituto. Ignoram Pedro Passos Coelho, como aliás têm feito sempre, e ignoram Castanheira Barros, que volta a dar conta da sua disponibilidade para avançar.

Fazem mal.
E fazem mal porque qualquer um deles tem condições para ser melhor presidente do PSD do que Manuela Ferreira Leite alguma vez foi. Fala-se, à boca pequena, da disponibilidade de Paulo Rangel, que em Junho foi eleito como cabeça-de-lista para o Parlamento Europeu, mas a sua eventual eleição, além de trair quem votou nele para Bruxelas, seria “mais do mesmo”, numa espécie de reedição de Ferreira Leite. Com Rangel ou com outro, entre os elementos mais próximos da actual líder, nenhum será melhor do que Passos Coelho ou Castanheira Barros. A proximidade à actual líder será mais um defeito do que uma virtude nesta corrida, e nesse campo tenho o grato prazer de anunciar que Castanheira Barros é, quando comparado com Passos Coelho, muito mais coerente. Desde o primeiro momento, e eu sou disso testemunha porque estava lá quando aconteceu a eleição de Ferreira Leite, o advogado de Coimbra foi claro naquela que era a sua, e também a minha posição: a eleita não era, como não foi, a pessoa indicada para o cargo.

Nas recentes campanhas eleitorais, para as europeias, legislativas e autárquicas, Castanheira Barros manteve a sua natural discrição, enquanto Pedro Passos Coelho pareceu vender – ou pelo menos emprestar – a alma ao diabo, surgindo ao lado da mulher contra quem tinha concorrido, e cujos defeitos tão acertadamente tinha apontado. Soou a hipocrisia. Pareceu um apoio de circunstância, por interesse. Não caiu bem. Bem sabemos o que pensa o povo da gente da política: que são falsos, que são vendidos, que querem é “tacho”. Eu não costumo engrossar esse coro, mas essa atitude de Passos Coelho, honestamente, não me agradou. Até porque, semanas depois de ter aparecido em alguns eventos de campanha – e na maioria foi olimpicamente ignorado pela líder a quem fazia o favor de aparecer – Passos Coelho voltou a tomar a estrada da crítica, e está novamente candidato. Não parece sério mudar tantas vezes de campo.

Castanheira Barros, por seu turno, está onde sempre esteve. Na posição de quem é e sempre foi contra, sem artifícios, sem favores, sem vícios nem mudanças de opinião extemporâneas e ao sabor do momento. Já aqui disse, e reafirmo, que tenho Castanheira Barros na conta de um amigo, mas acima de tudo vejo-o como um homem sério, íntegro, dedicado e disponível, interessado e atento ao seu partido. Na alma que emprestou ao combate à co-incineração, vi a força de carácter de um homem que luta por aquilo em que acredita, e que não teme fazer-se à estrada, mesmo que inóspita, para chegar onde quer ir. Este homem seria, com toda a certeza, um excelente presidente do PSD. Com ele, talvez o partido recuperasse o seu lugar como partido de alternância no poder. Porque eu vejo a política é como vejo o futebol: gosto que o Futebol Clube do Porto seja campeão todos os anos, mas também gosto de ver a minha equipa lutar pelos resultados e fazer por merecer esse campeonato…

Foto: Carla Teixeira
Tirada no XXXI Congresso Nacional do PSD - Guimarães, Junho de 2008

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