Há muito a desatinar com os delírios esquizofrénicos de um número incompreensível de lusitanas criaturas sobre temas como liberdade de expressão e censura, “jornalismo livre” e um certo “plano do Governo para controlar a comunicação social”, ou com as absurdas comparações entre José Sócrates e Salazar, resolvo-me hoje a escrever esta crónica, quiçá também delirante! Com uma nota prévia: sou jornalista, nasci no Portugal democrático, não gosto de Mário Crespo e não considero que Manuela Moura Guedes seja jornalista ou saiba sequer o que é dar uma notícia sem partilhar uma opinião ou um posicionamento. E sou alérgica a partidos, mas gosto, e muito, de José Sócrates! Dito isto, vamos ao que aqui me traz.
Fala-se, neste Portugal democrático em que é possível enxovalhar pública e impunemente um primeiro-ministro, chamar-lhe nomes, persegui-lo com atoardas diárias, na mais plena indiferença pelos votos que o elegeram, e reelegeram, para o cargo que ocupa, de ataques à liberdade de expressão. Falam de censura aqueles que, dia após dia, nos entram em casa pela televisão, pela rádio, pelo computador, através dos jornais, a insultar da forma mais pitoresca que se consiga imaginar o homem que os conduz nesta nau meio naufragada em que este país se tornou. Falam, esses senhores, de censuras, de perseguições, de ditadores e de mentiras. Eles, que não conseguiram provar uma só das acusações feitas, e que ainda vivem na quimera de destronar um homem que o povo quis eleger.
Não sou socialista. Aliás, sou alérgica a partidos. Não gosto de rebanhos, e se fizesse parte de um seria certamente a ovelha negra, tresmalhada. Não acredito em disciplinas de voto, não acredito em maiorias esclarecidas, e acho até que a democracia é apenas e só o menos mau dos sistemas políticos, tão longe como qualquer outro de ser a panaceia para os reais problemas do mundo. Acredito nas pessoas. No seu mérito, na sua competência, no modo como se predispõem a servir os outros, sempre insatisfeitos, sempre mal-agradecidos. Há algum tempo, tive a feliz oportunidade de, durante um curto período da minha vida, trabalhar um pouco mais de perto com José Sócrates. E se já o admirava, fruto do que lera sobre ele, do que sei que foi a sua vida e a sua meteórica ascensão política, mais passei a admirá-lo desde essa altura.
Hoje admiro-o também pela forma como tem resistido a esta mesquinha onda de atoardas que visam, única e exclusivamente, depô-lo da cadeira em que os Portugueses quiseram sentá-lo, por duas vezes. José Sócrates é o primeiro-ministro de Portugal. Foi eleito, depois reeleito, e está, de pleno direito, ao leme do nosso país. Não é um ditador. Não é alguém que tomou de assalto um país adormecido. É a plena expressão da democracia, que muitos defendem bem mais do que eu defendo. Na minha opinião, José Sócrates tem sido alvo de uma campanha vergonhosa, recheada de desrespeito, de falta de educação e de civismo, e tem resistido estoicamente. Ainda bem.
No Portugal de hoje, em que se fala amiúde de planos, de esquemas, de conluios e de outros mecanismos mais ou menos arrojados de exercício do poder, há quem se esqueça de que, há cerca de 35 anos, as pessoas eram perseguidas por pararem na rua a conversar com amigos e conhecidos. Havia livros censurados, jornais com páginas em branco, coisas que não se podia dizer ou sequer pensar. Comparar, ainda que levemente, o Portugal de hoje com o Portugal desse tempo, que felizmente apenas conheci de relatos de quem por lá passou, é pouco inteligente, falacioso e até insultuoso. Os que hoje comparam Sócrates com Salazar talvez devessem parar para ouvir os que ainda elogiam esses tempos. Talvez assim percebessem a diferença entre os que apontam a Lua e os que, nesse gesto, apenas vêem a ponta do dedo…
Eles bem tentam, mas não conseguem deitar o homem ao chão. Grande Sócrates!!!!
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