sábado, 30 de janeiro de 2010

Aldeia Típica de José Franco (Mafra)

Na localidade de Sobreiro, a meio caminho entre Mafra e a Ericeira, ergue-se um lugar mágico. A Aldeia Típica de José Franco (ceramista português nascido em 1920, que se tornou célebre em todo o mundo pelas suas obras de olaria e arte sacra) é hoje um pequeno museu vivo dos usos e costumes da região no início do século passado. Dentro de um pequeno espaço muralhado, mas onde as portas estão sempre abertas, de forma graciosa, a quem passa, a aldeia em miniatura recria cenas do quotidiano daquela época, com figurinhas de barro moldadas por José Franco (muitas delas movidas a água ou a electricidade), cópias fiéis das casas dos arredores de Lisboa e das actividades que então eram desenvolvidas pelos que nelas viviam: há neste conjunto a casa do oleiro, o dentista, o barbeiro, a mercearia da Ti Helena, o açougue, a adega, as casas típicas, detalhadamente decoradas no seu interior, os trabalhos no campo, a matança do porco, a pastorícia e a lida da pesca na Ericeira…
Amigo pessoal do mentor deste interessante projecto, o aclamado escritor brasileiro Jorge Amado – que decorou a sua casa com peças de José Franco – disse, a dada altura, que esta aldeia “parece uma festa, no colorido, na graça, na invenção que nasce das mãos desse homem modesto e simples que é, ao mesmo tempo, sábio de profundo conhecimento, e que traz no coração e nos dedos o dom da criação”. Já sobre o amigo, o escritor considerou que “nasceu para criar beleza, para dar de si aos demais, para tornar mais rico o património do povo português, com as suas imagens, as suas figuras de barro, os seus vasos utilitários, os seus bois de longos cornos, os peixes leves como versos, os porcos e os galos feitos de terra e lirismo”. E como dizia Fernando Pessoa, se “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. José Franco, filho de oleiros que na altura fabricavam pequenas peças de cerâmica usadas pelos camponeses locais nas suas casas, também começou cedo a produzi-las.
Inicialmente, José Franco vendia estas peças à porta da sua olaria e nos arraiais e nas feiras da região. Contudo, por volta de 1945 ambicionou levar mais longe a sua arte, e nas horas vagas começou a construir, junto à oficina e à casa onde vivia, o que é hoje um documento vivo e histórico desse tempo. A aldeia típica, cuja visita recomendo vivamente (assim como o vinho e o famoso pão com chouriço), será, sem dúvidas, a obra de maior destaque do ceramista lusitano, que chegou a ser agraciado com o título de Comendador pelo General Ramalho Eanes, então Presidente da República, tendo ainda recebido um prémio na categoria de Arte pelo Rotary Club e a bênção do Papa João Paulo II.

José Franco
Tido a nível nacional como um dos expoentes máximos da arte de trabalhar o barro, José Franco esteve sempre ligado, directa ou indirectamente, a quase toda a vida da localidade de Sobreiro. Foi um dos fundadores da liga dos amigos da aldeia, participou na construção da igreja e do lar de terceira idade, entre outros momentos altos da povoação, que ajudou a tornar conhecida, pertenceu à Junta de Freguesia de Mafra, e durante 10 anos integrou a Conferência de S. Vicente de Paulo do Sobreiro e Achada. Foi ainda presidente do conselho fiscal da Liga dos Amigos do Sobreiro, membro da direcção do lar e do centro de dia para os idosos locais, padrinho dos ranchos folclóricos do Milharado e Florinhas do Sobreiro e integrou o júri de vários concursos de trabalhos de arte. Visto por todos como “um homem bom, que consegue atender sempre os necessitados que diariamente lhe batem à porta”, destacou-se também por permitir a entrada gratuita na sua aldeia-museu, ao contrário do que é usual neste tipo de espaços, em qualquer parte do mundo.

Aldeia Típica de José Franco
Sobreiro – EN116 (Mafra – Ericeira)
Horário: 10 às 18 horas

Fotos: Carla Teixeira

1 comentário: