quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Crazy cat ladies ou nem por isso...


Alexandra Falardo tem 37 anos e é voluntária da Animais de Rua desde 2011, altura em que fundou, praticamente sozinha, o segundo núcleo da associação no Algarve (o primeiro tinha sido criado em Lagos, cerca de um ano antes). Tem actualmente 15 gatos em casa, a maior parte deles recolhida em situações de risco e destinada a adopção. Enquanto aguardam o dia em que finalmente terão o lar e a família que merecem, vão ficando. E entretanto vão chegando mais…

Joana Silva tem 23 anos, é uma das mais recentes voluntárias do núcleo (função que acumula com o voluntariado no Canil de S. Francisco, em Loulé, na Cruz Vermelha e no Refúgio Aboim Ascensão). Além de participar nas capturas, é família de acolhimento temporário de quatro gatos e recentemente acolheu, por alguns dias, um cão jovem que encontrou junto a um contentor do lixo.

Alexandra e Joana não são duas “crazy cat ladies” como as que vemos nos filmes. Não são velhotas solteironas e rabugentas que conspurcam as ruas com sacos de arroz cozido e que “armazenam” gatos para mascarar a solidão. São jovens sensíveis e atentas ao mundo que as rodeia, que não resistem ao ímpeto de ajudar e proteger animais em risco, e que fazem de tudo para lhes assegurar uma vida mais digna, mais tranquila e mais feliz.

Quando uma gata de rua morre no parto e deixa órfãs, com minutos de vida, cinco bolinhas ainda sem pêlo, o que pode um ser humano fazer? Virar costas sorrateiramente, como quem não viu nada, e convencer-se de que não podia ajudar? Ou pegar nos gatinhos, embrulhá-los em mantas quentes, no calor do coração enternecido, e dispor-se a criá-los a biberão, alimentando-os de duas em duas horas, de dia e de noite, sabendo que eventualmente perderá um, ou dois, ou três…, mas que com sorte conseguirá salvar algum? Para Alexandra a questão nem se coloca! Se há hipótese de salvar uma vida, mesmo que remota, se é possível, ainda que muito difícil, é esse o caminho.

Joana pensa e age da mesma forma. Se um animal precisa de um lar, de um porto seguro, mesmo que temporário, que importa se a casa está lotada? “Cá em casa é assim que os animais são educados: com muito carinho”, dizia há dias num post do Facebook, ilustrado com uma fotografia que acabaria por servir de cartaz numa campanha de angariação de famílias de acolhimento do Núcleo de Faro da Animais de Rua. Não é tarefa fácil. Encontrar famílias que se disponham a acolher um cão ou um gato de rua, ajudando a prepará-lo para ser adoptado e feliz, é tão complicado como encontrar voluntários com tempo e vontade para ajudar nas capturas, no transporte para as clínicas, na distribuição de ração, nos eventos, na venda de merchandising…


O Núcleo de Faro da Animais de Rua, como a generalidade das associações, tem poucos voluntários, e são quase sempre os mesmos a acudir a todas as situações. Não são super-heróis, mas todos os dias salvam vidas. Não têm capa e espada, nem sequer poderes inimagináveis ao homem comum, mas todos os dias vestem a camisola do amor pelos animais, e tudo fazem para lhes dar as condições de vida e de dignidade que merecem. Todos os dias acordam e adormecem a pensar nos cães e nos gatos que só conhecem porque outros os abandonaram ou negligenciaram. Têm vitórias para celebrar e derrotas para lamentar. Vidas que ganham, vidas que perdem. Faz parte. Às vezes choram, mas são mais, felizmente, as vezes em que sorriem. Estão com os animais de rua, de coração, todos os dias e todas as noites. Sempre.

Texto e foto: CARLA TEIXEIRA
Publicado no jornal «Barlavento» de 15 de Outubro de 2015

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