Alexandra Falardo tem
37 anos e é voluntária da Animais de Rua desde 2011, altura em que fundou,
praticamente sozinha, o segundo núcleo da associação no Algarve (o primeiro
tinha sido criado em Lagos, cerca de um ano antes). Tem actualmente 15 gatos em
casa, a maior parte deles recolhida em situações de risco e destinada a adopção.
Enquanto aguardam o dia em que finalmente terão o lar e a família que merecem,
vão ficando. E entretanto vão chegando mais…
Joana Silva tem 23
anos, é uma das mais recentes voluntárias do núcleo (função que acumula com o
voluntariado no Canil de S. Francisco, em Loulé, na Cruz Vermelha e no Refúgio
Aboim Ascensão). Além de participar nas capturas, é família de acolhimento
temporário de quatro gatos e recentemente acolheu, por alguns dias, um cão
jovem que encontrou junto a um contentor do lixo.
Alexandra e Joana não
são duas “crazy cat ladies” como as que vemos nos filmes. Não são velhotas
solteironas e rabugentas que conspurcam as ruas com sacos de arroz cozido e que
“armazenam” gatos para mascarar a solidão. São jovens sensíveis e atentas ao
mundo que as rodeia, que não resistem ao ímpeto de ajudar e proteger animais em
risco, e que fazem de tudo para lhes assegurar uma vida mais digna, mais
tranquila e mais feliz.
Quando uma gata de
rua morre no parto e deixa órfãs, com minutos de vida, cinco bolinhas ainda sem
pêlo, o que pode um ser humano fazer? Virar costas sorrateiramente, como quem
não viu nada, e convencer-se de que não podia ajudar? Ou pegar nos gatinhos,
embrulhá-los em mantas quentes, no calor do coração enternecido, e dispor-se a
criá-los a biberão, alimentando-os de duas em duas horas, de dia e de noite,
sabendo que eventualmente perderá um, ou dois, ou três…, mas que com sorte
conseguirá salvar algum? Para Alexandra a questão nem se coloca! Se há hipótese
de salvar uma vida, mesmo que remota, se é possível, ainda que muito difícil, é
esse o caminho.
Joana pensa e age da
mesma forma. Se um animal precisa de um lar, de um porto seguro, mesmo que
temporário, que importa se a casa está lotada? “Cá em casa é assim que os
animais são educados: com muito carinho”, dizia há dias num post do Facebook, ilustrado
com uma fotografia que acabaria por servir de cartaz numa campanha de
angariação de famílias de acolhimento do Núcleo de Faro da Animais de Rua. Não
é tarefa fácil. Encontrar famílias que se disponham a acolher um cão ou um gato
de rua, ajudando a prepará-lo para ser adoptado e feliz, é tão complicado como
encontrar voluntários com tempo e vontade para ajudar nas capturas, no
transporte para as clínicas, na distribuição de ração, nos eventos, na venda de
merchandising…
O Núcleo de Faro da
Animais de Rua, como a generalidade das associações, tem poucos voluntários, e são
quase sempre os mesmos a acudir a todas as situações. Não são super-heróis, mas
todos os dias salvam vidas. Não têm capa e espada, nem sequer poderes
inimagináveis ao homem comum, mas todos os dias vestem a camisola do amor pelos
animais, e tudo fazem para lhes dar as condições de vida e de dignidade que merecem.
Todos os dias acordam e adormecem a pensar nos cães e nos gatos que só conhecem
porque outros os abandonaram ou negligenciaram. Têm vitórias para celebrar e
derrotas para lamentar. Vidas que ganham, vidas que perdem. Faz parte. Às vezes
choram, mas são mais, felizmente, as vezes em que sorriem. Estão com os animais
de rua, de coração, todos os dias e todas as noites. Sempre.
Texto e foto: CARLA TEIXEIRA
Publicado no jornal «Barlavento» de 15 de Outubro de 2015
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