Quatro dias bastaram para que fosse a uma entrevista e passasse da condição de desempregada de longa duração à de empregada, e novamente ao mesmo estatuto. Lamentavelmente, não sou uma super-mulher, e não aguentei o duríssimo teste de resistência física e mental que é trabalhar numa loja (que na verdade são duas) de sandes, saladas e sopas. Antes de mais, a devida homenagem a todas as mulheres que fazem disso o seu quotidiano, porque é de facto um desafio hercúleo. Permanecer horas e horas de pé, sempre na mesma posição e a realizar vezes sem fim os mesmos exactos movimentos, não é coisa fácil. Estar horas e horas a lavar louça (que nunca pára de chegar porque há sempre gente a sujar), jornadas intermináveis de exercícios como desfiar frango, triturar maçãs e delícias do mar, fazer pastas de atum, frango e delícias, aprender a funcionar com fornos e fritadeiras industriais, limpar fornos e fritadeiras industriais, desmontar máquinas de sumos e limpar todos os componentes e parafusos, acondicionar frigoríficos e câmaras, limpar frigoríficos e câmaras, limpar tudo, sujar tudo e voltar a limpar tudo, varrer, passar o chão a pano, decorar os lugares de todos os objectos e as dezenas de procedimentos diferentes que compõem o quotidiano de um restaurante onde tudo é feito todos os dias, e depois ainda servir sandes, sopas, saladas, bebidas e sobremesas com um sorriso no rosto é, para o comum dos mortais (como eu), uma prova de fogo. Que não superei.
Aprendi imenso nestes quatro dias, acreditem. Sobre o funcionamento de centros comerciais e restaurantes, mas acima de tudo sobre as pessoas e sobre mim. Foi bom sentir-me útil novamente, porque o desemprego consome-nos, principalmente se sempre fomos pessoas de trabalhar, de nos mexermos, de estarmos sempre a fazer qualquer coisa. Mas não estive à altura deste desafio, e lamento-o profundamente, porque sei que há pessoas que contavam comigo, e porque sei que o salário ao fim do mês, ainda que diminuto, daria jeito. Mas não fui capaz de continuar. Quem, como eu, sofreu uma tromboembolia pulmonar há quatro anos, e que quase morreu por causa disso, sabe os malefícios que podem advir de estar horas e horas de pé, sempre na mesma posição, com as pernas a inchar e as dores a subir e a instalar-se em todo o corpo. Não há maneira de definir estes dias que passaram senão como o inferno na terra. Não, nem tudo foi mau. Claro que não. Conheci algumas pessoas interessantes, dinâmicas e muito competentes, que além de tudo o que me ensinaram, e de curtas histórias e lições de vida que generosamente partilharam comigo em duas ou três conversas mais ou menos fugazes, me mostraram que em todas as coisas há sabedoria, profissionalismo, qualidade. Gostei de conhecer a Bina e a Regina, principalmente estas duas, porque são pessoas dignas de serem exemplos para a maioria dos portugueses, pelo seu carácter e capacidade de entrega a um projecto, e por valorizarem o esforço que fiz e a pessoa que sou. Obrigada às duas por isso.
Aos que desiludi pelo falhanço na minha resistência física e psíquica, peço desculpa. Ao meu pai, de quem sempre julguei ter herdado a força e a coragem para aguentar os momentos menos bons; à minha mãe, por continuar a ser incapaz de a ajudar no seu esforço diário para suportar as despesas de uma casa; às minhas irmãs, por não ser capaz de lhes dar um exemplo de coragem, de força e de dinâmica na superação das minhas muitas limitações; ao Luís, por tê-lo desiludido naquilo que pretendia ser um investimento no meu e no nosso futuro; a todos os que, de uma forma ou de outra, acreditaram que eu seria capaz e me desejaram sucesso e felicidades. Foi bom enquanto durou! Ou então não...
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