domingo, 9 de setembro de 2012

Da "geração mais bem preparada de sempre"...


Irrita-me solenemente ouvir dizer que os jovens de hoje constituem "a geração mais bem preparada de sempre" (isto quando não dizem que esta é a geração "melhor preparada" de sempre, porque isso então faz-me querer pôr uma bomba em alguns cérebros). Afinal, os jovens de hoje estão preparados para quê? Olhem bem à vossa volta e analisem, por alguns minutos, os comportamentos, e sobretudo as conversas, dos jovens de hoje. Metade (para ser bondosa) não sabe dizer nada. Não é capaz de ter uma conversa com cabeça, tronco e membros, nem é capaz de dissertar, ainda que breve e superficialmente, sobre qualquer tema da vida social, cultural, política ou económica contemporânea.
Os jovens de hoje sabem fazer de tudo com um iPod, um iPad ou um iPhone. E todos querem ter uma ou várias coisas dessas. Sabem sacar filmes e músicas na internet, sabem ludibriar os pais para que estes lhes dêem tudo aquilo de que precisam e, mais ainda, de tudo o que apenas eles acham que precisam. Sabem beber até cair, sabem fazer figuras tristes nas ruas, quando bebem e muitas vezes sem beberem. Sabem onde e a quem comprar drogas, e mesmo que não tenham dinheiro para comer, arranjam-no sempre para a dose, para a "cuca", para o café e o tabaco, para a 15ª tatuagem ridícula, para o piercing e para as calças de marca, que muitos usam a cair pelo rabo!
Dir-me-ão que o meu discurso é o de uma avozinha, e que nem todos os jovens são iguais. De acordo. Não tenho a pretensão de os conhecer todos. Seja! Mas queremos mesmo falar de percentagens no que toca às competências dos jovens de hoje? E já agora, os que não são assim - os que se portam bem, que estudam e progridem sem incidentes de maior na sua vida académica, estão preparados para quê? Por mais estudioso e trabalhador que um jovem de hoje seja, saberá fritar um ovo sem perguntar à mãe quais são os ingredientes para essa "receita"? Saberá preencher sem ajuda os impressos do IRS? Saberá mudar um pneu no caso de viajar sozinho e ter um furo? Ou fará aquilo que em tempos um amigo me disse que fazem todas as mulheres, que, diante de um pneu furado, "apenas podem chamar um homem"?!
Afinal, para que estão assim tão bem preparados os jovens de hoje? Estarão preparados para as angústias de que também se faz a vida moderna? Estarão preparados para o desemprego, para administrar uma casa, para criar uma família, para responder, sem frustrações e depressões, a todos os desafios que lhes são impostos pelo simples facto de estarem vivos? Estarão preparados para decidir o futuro desta geração e das que se lhe seguirão? Estarão preparados para assumir as consequências dos seus actos e das suas escolhas? Por que é que acho que não? Por que é que acho que as pessoas resumem o "grau de preparação" de uma geração ao número crescente de anos que essa geração andou na escola, muitas vezes apenas a passear os livros, sem qualquer resultado prático desses passeios?
E os que abandonam a escola porque não obtêm resultados, ou porque as famílias precisam do contributo deles, diminuto que seja, para porem comida na mesa? E os que, mesmo estudando e atingindo até elevados níveis de ensino, são incapazes de entender uma anedota simples sem a devida explicação de quem a conta? E os que chegam aos 40 anos a depender totalmente dos pais, e às vezes de avós e tios, que nunca na vida trabalharam ou tiveram maior responsabilidade do que a de sair da cama a tempo de que outra pessoa lhes arrume o quarto? Sim, há jovens assim. Sim, são muitos. Fazem parte desta geração, fazem. Preparados? Disso é que tenho muitas - mesmo muitas - dúvidas...

1 comentário:

  1. Eles são "programados", "cheios" de coisas vazias ao longo do seu percurso de vida (desde ipods a não saber estrelar um ovo). Uma pessoa que nunca foi ensinada a pensar tem muita dificuldade em questionar. Questionar o que se passa à sua volta e também aquilo que vai ou não vai acontecendo na sua vida. Não se pensa muito além do imediato. E se foram "programados" assim não terá sido por acaso: É tão mais fácil, pessoal dócil e bem comportado...
    Assim, torna-se difícil.

    Não que eles não tenham as capacidades (todos temos), mas não é essa a realidade deles. Para que serve saber o que é um servo da gleba? Se calhar para perceber de onde vimos e como estamos (na relação laboral) Para que serve saber a capital de Áustria? Talvez para a procurar no mapa quando se lá for num inter rail? A verdade é que a maioria deles não sabe isto nem outras coisas porque lhes foi mostrado ao longo da vida que nada disso serve de grande coisa.

    Bem vinda ao clube daqueles que pensam e só querem é pensar e fazer cada vez mais!
    P.S.- Bom post!

    Ass. JB

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