Não sei dizer-te adeus. Ainda é cedo, demasiado cedo, para deixares vazio este lugar que é teu. Para partires, de repente, arrancado assim aos tantos abraços que ainda queria dar-te. Passaram sete meses, pai, e o bater do meu coração continua a bater-me, como uma pancada seca, um grito mudo que se afoga nas minhas entranhas e que me devora o peito, a alma, o pensamento. Um som inaudível que me enlouquece. Um vazio que me preenche. Um frio que me racha por dentro, que me cristaliza as lágrimas, que me sufoca e me impede de respirar. O teu lugar é aqui, ao meu lado, no aconchego desta casa que é nossa. E no entanto não estás aqui, senão em todas as coisas e em todos os lugares. Há sete meses que não estás aqui, ainda que a tua ausência seja a mais presente das minhas poucas certezas. Hoje quero abraçar-te, ainda mais do que quero todos os dias, e envolver-te nos meus braços como naquele hediondo início de tarde, e quero ver-te acordar finalmente. Sorrir como sorrias. Há sete meses que espero, pai. Espero por um sinal teu. Uma estrela mais brilhante no céu, uma música que irrompe num lugar inusitado, um calorzinho nas mãos quando toco algo que te pertenceu. Sinto às vezes uma brisa no rosto. Leve, como um beijo pousado em silêncio. Penso que és tu. Quero pensar que és tu. Falo-te, mas não respondes, pelo menos na mesma língua. E sonho. Sonho que te abraço enfim, e que estamos de novo juntos, desta vez para sempre. Amo-te, pai! E morro um pouco a cada dia que passa. Morro de saudades.
31 de Outubro de 2012, dia 227

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