Por causa de um súbito e intenso mal-estar de uma amiga, entre o Centro de Saúde e o Hospital de Faro passei ontem uma bela tarde a limpar com o rabo as cadeiras de salas de espera da Saúde nesta cidade. Até aqui nada de surpreendente, de tão conhecida que é a realidade do funcionamento dos sistemas de saúde em Portugal! É de facto digna de estudo a forma como as coisas se passam nesta área no nosso país!
A história começa logo no atendimento na Linha Saúde 24, a que a minha amiga recorreu numa primeira fase, por viver na Cidade de Faro há relativamente pouco tempo e não ter ainda, apesar de já ter feito o pedido em Agosto do ano passado, médico de família atribuído! Nesta linha, apesar de considerarem que o problema dela poderia ser bastante grave e carecer de intervenção imediata e até de exames complexos (TAC, por exemplo), enviaram-na para o centro de saúde, onde algumas horas depois lhe foi explicado pela médica que a atendeu que nenhum dos exames que permitiriam despistar as suspeitas que tinham do mal que a acometia podiam ser realizados ali! Nice...
Fomos então para o Hospital. Deixei-a à porta da Urgência e quase uma hora depois quem precisava de atendimento urgente era eu, tal foi a dificuldade em encontrar um lugar legal para estacionar o carro sabia-se lá por quanto tempo! Acabei por deixar num parque pago, já que nestes sítios, já sabemos, há sempre lugares que chegam e sobram para as necessidades. Go figure!
Entrei finalmente na urgência, onde fui encontrar a minha amiga, já com a triagem feita, de pulseira amarela no pulso, na sala de espera correspondente: para quem não sabe, o Hospital de Faro tem uma sala de espera para os "verdes" e outra para os "amarelos", e nada para as outras cores, suponho que pelo optimismo desenfreado de quem acha que mais urgentes "laranjas" e "vermelhos" poderão ser todos atendidos no imediato. Oh, santa ingenuidade!
Um placard na parede informava que a espera prevista para os doentes "amarelos" era de 1h30. Brincalhões, os senhores que se dão ao trabalho de escrever estas coisas num placard numa parede de uma sala de espera atafulhada de gente crente no que os olhos deixam ver que é uma mentira completa! Ainda não eram 16h00 e na sala ecoavam frases como "estou aqui há quatro horas", "estou aqui desde as 9h00" e afins...
Entre espera, atendimento, exames, novo atendimento, diagnóstico, medicação e saída da urgência, a minha amiga precisou de mais de cinco horas. Eu já lá esperei sete, só para chegar a ver a cara do médico, e por isso, tristemente, tenho de concluir que este até nem foi um caso assim tão dramático de espera. Mas estar umas horas fechada numa sala de espera com gente tão diversa e tão patusca como a que ontem pude apreciar merece, garanto-vos, aprofundado estudo.
Permanecer numa sala de espera de um centro de saúde ou de um hospital português - ou, se tiverem sorte, dos dois na mesma tarde - é uma experiência sociológica que quase nos convence de que há mesmo cromos (e, para nossa desgraça, nem são assim tão raros) como os que vê quem vê os "reality shows" de domingo à noite da TVI. É que eu, pelo menos até ontem, acreditava que aquela gente era fabricada. Que eram actores, foleiros mas actores, pagos para se fazerem passar por pessoas "normais"...
Ontem, porém, vi e ouvi de tudo naquela sala. Desde pessoas que exalavam de cada poro um cheiro nauseabundo a suor de meses ou de ciganos que garantiam ter planos para ter "mais sete ou oito filhos, que são a alegria de um pai" (abençoados rendimentos mínimos!), ou ainda de homens a dizer que iam "para o tasco enfiar copos de whisky para enganar as dores" a ignorantes orgulhosos na ostentação da sua ignorância: uma estava espantada, e crente de que tinha descoberto o "esquema para nos enganarem" de toda a gente ter pulseira amarela. Achava ela que era um embuste "para ninguém se queixar da espera": "Dão pulseira amarela a todos e assim ninguém sabe quem é o mais grave nem quem deve ser atendido primeiro". Expliquei-lhe que aquela era a "sala dos amarelos" e que era apenas por isso que todos tinham a tal pulseira amarela. Olhou para mim como se eu lhe explicasse como se põe a trabalhar um foguetão da NASA e nem se dignou a responder.
A mesma criatura atreveu-se depois a debater questões políticas com as vizinhas de infortúnio: dizia ela, ante o espanto generalizado dos poucos que tinham dois dedos de testa e que o destino sentara naquele espaço diminuto atulhado de cadeiras com e sem rodas, que os jornais e as televisões nos enganam todos os dias. Arregalei os olhos, num primeiro momento, pensando que de facto sairia daquela cabecinha pensadora uma ideia estruturada, mas a senhora saiu-se com esta: "Não percebo como é que dizem que estamos numa democracia se temos um Presidente da República! Se isto fosse uma democracia, teríamos de ter um Presidente da Democracia! Não percebo por que é que dizem que vivemos numa democracia", insistia a senhora. Eu, neste particular, estou com ela. Não sei como pode alguém dizer que se vive numa democracia num país cujos destinos são escolhidos pelo voto deste tipo de pessoas. Democracia? A malta vive é num circo!

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