"A dor de uma perda é tão impossivelmente dolorosa, tão semelhante ao pânico, que têm que ser inventadas maneiras para se defender contra a investida emocional do sofrimento. Existe um medo de que se uma pessoa alguma vez se entregar totalmente à dor, ela será devastada - como que por um maremoto enorme - para nunca mais emergir para estados emocionais comuns outra vez".
Catherine M. Sanders
Estou de luto. Há 68 dias partiu deste mundo o meu pai, e há 69 dias que não o vejo, que não falo com ele, que não me cruzo com ele nos corredores cá de casa ou junto à máquina do café, onde era comum vê-lo logo pela manhã. Sei, e soube-o desde criança, que as pessoas estão vivas e que num dado momento deixarão de estar. Sei que a morte faz parte da vida, como tantas vezes ouço dizer. Já perdi outras pessoas antes, e também animais por quem tinha grande estima. Mas desta vez foi diferente. A morte súbita do meu pai, inesperada, implacável e gelada como uma espada de aço que me trespassou a carne naquele hediondo início de tarde, roubou-me todas as forças e sequestrou-me as emoções e os sentidos, desorganizou-me por dentro, atirou-me para um imenso mar de dor e sofrimento, e empurrou-me até ao fundo, até àquele lugar onde é tão difícil respirar, e onde ficaram reduzidas a cinzas todas as hipóteses que tinha de um dia ser completamente feliz. Roubaram-me o meu pai, e com isso arrancaram-me do peito um amor que gostaria de carregar para sempre nos braços.
O meu pai partiu a 19 de Março deste ano. Era Dia do Pai. Não é que fosse comum celebrarmos de forma especial essa data cá em casa. Afinal, para nós todos os dias eram dias do pai. Ele estava sempre aqui, ao nosso lado, partilhando connosco todos os momentos, bons e maus, das nossas vidas. Todos os dias eram dia do pai, e este, pintado de negro à hora do almoço, transformou-se no mais importante dos dias do pai da minha vida. Um dia que nunca esquecerei, que persegue as minhas memórias onde quer que me encontre. O luto é o mais profundo dos mares. Creio que não há palavras (eu pelo menos desconheço-as) que definam a salada emocional que me enche o peito de vazio. Dizer que sofro é pouco. Dizer que choro, que tenho saudades, que não sei como vencer a tristeza que a falta do sorriso dele me provoca, é incompleto. Dizer que vivo, quando apenas me limito a existir na sombra do sofrimento que me esmaga, é insuficiente. Sobreviver à morte de um pai é, pelo menos no meu caso, a dor maior e mais lancinante que já experimentei. Não sei dizer isto melhor.
O meu pai era – é, será sempre – o meu melhor amigo. A ele devo tudo o que sei, tudo o que sou, tudo o que poderei vir a ser, pois foi ele que me potenciou todas as oportunidades que aproveitei na vida, e algumas das que não aproveitei devidamente também. Ao meu pai devo tudo. Porque o meu pai era, e é, e será sempre, o melhor pai do mundo. Desde que nasci foi um pai presente, um pai amigo, que viveu para mim, para as minhas irmãs e para a minha família, que se dobrou e se desdobrou por nós, que se encolheu e esticou por nós, que celebrou muitas vitórias connosco e que fez também muitos sacrifícios por nós. Sei que a vivência do luto é íntima e solitária, pois sei o quão só me sinto agora que ele partiu, e o quanto procuro, mesmo assim, estar sozinha, fechada no meu mundo, nas minhas memórias e nos cantinhos de afecto que são só nossos. Transporto o meu pai comigo, para onde quer que vá, porque ele faz parte de mim. Carrego-o no meu corpo e no meu sangue, na cabeça e no coração, sempre.
Dir-me-ão, como amiúde tenho ouvido, que tenho de ser forte. Que tenho de vencer esta dor, que este buraco que sinto no peito vai diminuindo com o tempo. Dir-me-ão que tenho de me rodear de gente, se quero sentir-me melhor. Mas quem disse que é isso que quero? Quem disse que sinto falta de me sentir bem? Quem disse que, escassos 68 dias depois de o meu pai ter partido, deveria estar já menos triste. E se eu nunca deixar de estar triste? E se essa for, como me parece agora, a minha nova maneira de ser, o meu novo ego? Despreocupem-se os meus amigos: eu não estou deprimida, ou ansiosa, ou com vontade de me atirar de uma ponte e morrer lá em baixo. Estou, apenas, terrivelmente só. E, estranhamente ou não, não sinto necessidade de mudar isso. Falta uma parte de mim. Como um braço, uma perna, duas ou três veias. Falta-me o recheio do coração, que enterrei naquela tarde em que sepultei o meu pai…
Minha querida Carla....ontem ao ver umas fotos do meu, que partiu há já 22 anos, chorei....e depois de ver este seu vídeo e ler as suas palavras donde escorrem todos os sentimentos que também existem e persistem no meu coraçao, nao consegui reter estas águas que os olhos teimam em gerar.....Enfim, um texto em que as suas emoçoes se misturam às minhas e que me fizeram desejar ter o meu pai aqui, neste momento, junto a mim....Grande beijo minha querida
ResponderEliminarMuito obrigada pelas suas palavras, querida amiga. Obrigada pelo carinho, pela partilha de emoções e por me ajudar tantas vezes a sentir-me um pouco melhor com tudo isto. Beijo grande. <3
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