Gostava de ser uma pessoa simples. Uma daquelas pessoas raras que, quando falam, são imediatamente entendidas pelas outras. Mesmo que falem mal, que se expressem com a sensibilidade de um tractor, com a elegância de um elefante numa loja de louças, com uma simplicidade que só a ignorância permite. Essas pessoas não sofrem com os mal-entendidos que afectam gente como eu. Não se sentem sozinhas, vazias e inúteis quando têm de esgrimir argumentos com outras pessoas, durante horas, para que depois as outras percebam aquilo que se disse e, não raras vezes, percebam que afinal estiveram sempre de acordo com a ideia expressa.
Gostava de ser uma dessas pessoas simples. Dessas que, mesmo falando mal e escrevendo ainda pior, se sentem sempre acompanhadas nos momentos mais duros das duas vidas. Pessoas que não precisam de terminar as frases, nem de explicar as anedotas, que falam com os olhos e que se deixam ler pelos olhos das outras. Gostava de ser uma dessas pessoas que, diante de um problema, um contratempo ou um imprevisto, vêm reconhecido o seu direito à exaltação, à voz mais elevada, aos dizeres menos politicamente correctos. Gostava de ser uma dessas pessoas que conseguem manter a calma diante dos disparates dos outros, da sua estreiteza de vistas, da sua incomensurável tendência para confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira. Gostava de poder conversar com pessoas que não confundissem a minha defesa de uma posição com a condenação imediata de todas as outras. Gostava de falar com quem pudesse ser capaz de me entender, à primeira, sem necessidade de explicações, debates, longas trocas de palavras que quase sempre desaguam no vazio e no "deixa lá, que isso passa".
Detesto mal-entendidos. Irrita-me que as pessoas não sejam capazes de se entender. Sim, sou uma pessoa que se exaspera com aqueles que erguem barreiras em vez de muros, que não conseguem expor uma ideia sem fazer uma tempestade à volta do assunto, e que depois acusam os outros de terem falado mal, quando na verdade foram eles que não entenderam patavina do que se disse. Abomino a ideia de que pessoas com quem perdi o meu tempo a conversar sobre alguma coisa cheguem depois à conclusão de que eu disse uma coisa completamente diferente da coisa que eu efectivamente disse. Chateia-me, pronto! Isso faz de mim uma pessoa má? Não creio. Não apenas por isso, bem entendido. Fará de mim uma pessoa que se exalta com facilidade, como hoje me disseram? Talvez. Mas quem tem alma não tem calma, e eu tenho uma alma exigente e indomada. Gosto dela assim. Quem não gostar da pinga que mude de tasco!

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