sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O «Janeiro» do cabeçalho vermelho

A Rute, que ainda não me conhece pessoalmente (eu já a conheço, porque já a vi no velho «Janeiro», de visita a amigas que lá trabalharam), mas de quem sou fã incondicional, também partilhou na blogosfera algumas memórias da sua passagem por Coelho Neto:

"As novidades sobre o fim do jornal que também já foi meu, recebi-as ao longo das férias. Informações que chegavam a um ritmo extenuante ao telemóvel de uma das minhas melhores amigas, trabalhadora até há uns dias do «Janeiro», e que esteve comigo no Algarve. Entre as tentativas de animação e de busca por soluções, não tive como fugir às recordações. Saí de lá há oito anos quando o cabeçalho com o nome do jornal ainda era tingido de vermelho. Saí depois de doze meses e meio de trabalho a receber 60 contos, justificados, primeiro com facturas, e depois com recibos verdes que baixavam a fasquia para os 48. (E não é que, mesmo assim, ainda houve quem torcesse o nariz ao chorudo valor?) Saí de lá para um meio que jamais julguei sequer tentar. Saí porque, como todos, desejava dar o passo em frente e entrar numa casa que me pagasse um vencimento mais elevado. Não seria difícil.
Saí do «Janeiro» em Junho, dias antes do casamento de um grande amigo, e depois de uma noite de copos e de saudades da despedida. Saí numa altura em que se anunciava um prometedor jornal com novo cabeçalho que iria também inscrever-se nos toldos de muitas papelarias da cidade. Saí pouco tempo depois de outro enorme amigo, o irmão da Sofia (foi por essa razão que trocámos as primeiras palavras), me confiar trabalhos maiores, como a reportagem sobre aquele programa que estava quase a surgir na televisão portuguesa. Saí no momento em que desenhava já quase de olhos fechados as maquetas das páginas de sociedade. Saí, mas não sem que antes a minha grande amiga passasse muitas vezes os olhos pelas peças que escrevi. Saí depois de tardes de anedotas à desgarrada entre o “Segundo Caderno” e o “Porto” e de assistir aos truques toscos de magia de outro amigalhaço.
Saí quando ainda havia bolo de tempos mais passados nas paredes. Saí resistente às obras no local de trabalho e às desparasitações. Saí na espuma de uma onda gigante no Algarve que nunca chegou a acontecer e pouco depois de o sol nascer em Timor Coroasse, como o outro lhe chamou. Saí, mas ainda presenciei os beijos na face que mais uma amiga tentou dar a dois mormons que passaram por lá e convivi com o humor sarcástico de outros dois que se sentavam nos computadores à frente do meu. Saí com os ouvidos cheios dos disparatados episódios da rapariga com o cabelo de mil cores que queria ser mercenária em África. Saí depois de muitas fotografias pedidas ao Sr. Veiga e de inúmeros cafés com cheirinho no tasco da frente.
Saí pouco depois de ter entrado, mas trouxe tanto comigo. Muito mais além do que tirei da gaveta. Trouxe um coração com mais inquilinos. Saí no dia em que a nova directora se dirigiu pela primeira vez aos jornalistas e, antes de se debruçar sobre o projecto, impediu outra grande amiga de acender o costumeiro cigarro na redacção. Ia ser assim, a partir dali. Com murros na mesa. O cabeçalho vermelho da primeira página deu origem ao azul que ainda hoje me chega às mãos. Fui eu quem trouxe o «Janeiro» para esta redacção quando para ela me mudei há oito anos, mas este já nem sequer folheio. Vem vazio dos meus amigos".

Obrigada, Rute!

1 comentário:

  1. Manda sempre.
    Mesmo já sendo tarde para nos encontrarmos nos corredores do «Janeiro», lá chegará o dia em que os nossos caminhos voltarão a cruzar-se. Beijinhos.

    ResponderEliminar