quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Voltar ao que já foi...

Lembro-me, como se fosse hoje, do dia 27 de Janeiro deste ano. Ao início da tarde, e na sequência de queixas de taquicardia, dificuldade em respirar, cansado extremo ao mínimo movimento e pressão arterial anormalmente elevada, que já tinham motivado um episódio de urgência no Hospital de São João, no Porto – onde, como então relatei no Mente Despenteada II, me foi diagnosticada uma taquicardia sinusal resultante de um vulgar caso de ansiedade, e me mandaram embora com uma receita de Valium –, dei entrada de urgência nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Entrei pelo meu próprio pé, é um facto, mas mergulhada num pranto que parecia o Douro, e amparada no abraço do homem que, como a pescada que antes de o ser já o era, carregava com ele a minha vida. Cada passo da longuíssima caminhada – uns 100 metros, talvez – era pensado como o último, antes do suspiro desmaiado que haveria de tomar-me conta do peito. Nesse dia, senti que ia morrer. Duas vezes. E ia. De acordo com os médicos, o estado em que me encontrava, e de que eles se aperceberam depois de sete horas de exames e de um desmaio, era de tal forma grave que aquele seria provavelmente, se ali não me tivesse deslocado, o meu último dia de vida.
Subitamente, vi-me deitada numa maca que não senti aproximar-se, e sem saber como tinha ido ali parar, vislumbrei umas cinco ou seis batas brancas, que inclinavam sobre mim outros tantos rostos interrogativos. Foi nessa altura que, como se viesse do tubo de oxigénio que tinha enfiado no nariz, ou dos cabos eléctricos que pendiam de várias máquinas à minha volta e se colavam a mim com adesivos e agulhas, que o medo veio de novo para junto de mim. As perguntas eram tantas, e as respostas escassas! Sei que a noite se dividiu em suores, lágrimas, sangue e fome, vómitos e solidão, atormentada pelo filme da minha vida que insistia em ocupar a tela dos meus olhos, todas as janelas da mente. Mas não foi desta que a morte me venceu, e hoje, meio ano depois de todo o sofrimento, voltei aos HUC, para a primeira consulta de acompanhamento. Primeira de muitas, pois há que conhecer as sequelas da tromboembolia pulmonar que fez de mim a doente mais jovem de sempre da UCIC daquela unidade hospitalar, e saber de que modo hei-de lidar com elas, para que apenas minimamente afectem a minha vida.
É assim que, a partir de hoje, além da Consulta de Hipocoagulação e das análises de controlo da dosagem da medicação, num laboratório privado do Porto, passo também a contar com páginas da minha agenda para as consultas de Hipertensão Pulmonar e para as baterias de análises e exames, mais ou menos invasivos, que me prometeram, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Foi por isso que hoje voltei ao hospital. Ver de novo os corredores por onde saí, ainda de pantufas calçadas – pois à entrada nos HUC, deitada, sedada e a soro, nada vi senão as tonturas de quem percorreu metros e metros numa cama arrastada por gente de batas brancas que falava de mim como se eu lá não estivesse (e estaria?) –, foi uma experiência nova, simultaneamente aterradora e gratificante. Afinal, a morte passou por mim e perdeu o combate. Vai ela, fico eu, para mais umas décadas. E isso é o que sobre da tarde de hoje. O sentimento de que venci a mais dura das minhas batalhas. A todos os que me apoiaram, devo um sincero agradecimento. Aos que continuam desse lado, mesmo quando este espaço se despenteia ainda mais e começa a cair para o egocentrismo, obrigada também! Até já…

2 comentários:

  1. É mas é tudo mimo!!!
    Fico feliz por saber que estás a dar coça na senhora da foice. Beijinhos.

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  2. És grande! :D
    Adoro-te mana! =)<3

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