quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Uma irritação profunda!

Há várias coisas que me irritam profundamente. Uma é a idiotice. Mas há mais! Muito mais! Quase no topo da lista surgem aqueles anúncios parvos que, recorrentemente, passam nas estações de rádio e nos canais de televisão do nosso cantinho à beira-mar plantado. E irritam-me de tal modo que, além de desligar o aparelho em que tais coisas estejam a ser emitidas, ainda fico a barafustar (quase sempre sozinha), de boca aberta e queixo a tocar o chão, de espanto! Um desses anúncios, que tenho apanhado todas as manhãs a caminho do emprego, é patrocinado pelo Automóvel Club de Portugal, e entronca num dos meus outros ódios de estimação: a subalternização da inteligência e da capacidade de improviso das mulheres. Muitas das pessoas mais desembaraçadas que conheço, que raramente esbarram em pequenos obstáculos e que não se deixam tomar pelo desespero diante das dificuldades, são do sexo feminino. E eu, que até sou a mulher mais “machista” que conheço (detesto as palermices típicas do feminismo e das feministas, e exaspera-me a atitude daquelas “loiras por dentro”, que não dizem nada que se aproveite), fico pior do que estragada diante de mulheres que acham que ser feminina é ser imprestável.

Certa vez, uma amiga contava-me que, apesar de saber cozinhar e limpar e arrumar a casa, e de o fazer regularmente, nunca admitia esse saber na presença de pessoas do sexo masculino, porque dizia que não queria ser vista como uma “matrona”, mas antes como uma “mulher de carreira”, seja lá isso o que for, e que só as “saloias” tinham em tão boa conta a capacidade de administrar uma casa e uma família. Ora bolas!, pensei, diante de tão estapafúdio argumento. Mas a verdade é que tenho encontrado muitas mulheres assim: há aquelas que genuinamente não sabem fazer nada nem servem para nada, e depois há as que se gabam – ainda que não por palavras – de serem uma nulidade nas lides domésticas ou em coisas com menos glamour do quotidiano. Mudar um pneu é, para essas mulheres, a acção menos feminina que lhes podem pedir, e não hão-de nunca aprender a fazer tal coisa. Se forem na estrada, o mais certo é que nem dêem conta do furo, mas se derem fazem de conta e seguem o seu caminho, ou então pedem a um “senhor simpático” que as ajude. Ora, eu tenho uma visão diferente das coisas.

No meu mundo, que não é o mundo das feministas que clamam por igualdade face aos homens, cada um, independentemente do sexo que lhe foi destinado, deverá, dentro do possível e do razoável, safar-se sozinho dos problemas que lhe surgem. E mudar um pneu é um dos menores da minha lista. Não é agradável, não. Muito menos se chover. E agora que, ao fim de 31 anos a prevaricar, consegui deixar de roer as unhas, não é com entusiasmo que encaro a possibilidade de as partir ao pegar em tão pesado donut de borracha. Mas eu sei mudar pneus. Já mudei vários, sempre sozinha (até porque, de todas as vezes em que tive furos, viajava sozinha), já comprei pneus, sozinha também, e já ajudei pelo menos duas pessoas – uma mulher e um homem – a fazer o mesmo. A mudança de um pneu, bem como os mais elementares procedimentos de Mecânica, deviam, a meu ver, fazer parte das lições de condução. Se assim fosse, acabavam de vez os anúncios ridículos como o do Automóvel Club de Portugal em que uma senhora se congratula por o ACP lhe ter levado o filho à escola, depois de ela ter tido um furo. Ou seja, porque teve um furo viu-se obrigada a chamar assistência e a parar o automóvel que conduzia. Para avolumar ainda mais a minha úlcera péptica, o anúncio termina com a criatura a garantir que “uma mulher que tem o ACP tem tudo”. E eu, que me estico para desligar o rádio assim que a senhora começa a falar, penso que é por estas e por outras que as mulheres viveram séculos debaixo do jugo dos homens, num mundo comandado por eles. É que, por mais que barafustem, que se declarem independentes e emancipadas, demitem-se dessa emancipação sempre que precisam de mudar um pneu, atarrachar uma lâmpada ou consertar uma avaria num candeeiro…

3 comentários:

  1. Concordo! Ser mulher não pode significar ser imprestável e viver sob a alçada do homem para o que quer que seja... e eu também sei mudar pneus. E aprendi na escola de condução... ;) *

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  2. Como eu a entendo minha "amiga".
    Todos os dias desligo, ou mudo de estação de rádio, quando certos "anúncios" me entram pelos ouvidos dentro. Os que, em especial, colocam a mulher num papel estúpido e subalternizado, deixam-me ainda mais irritado, até porque, felizmente, tenho uma MULHER, que em nada é parecida com as que são retratadas nesses anúncios, e que é tudo menos "loira por dentro". Felizmente há MULHERES, como a "minha", inteligentes, que sabem o que valem, que não se reveem nesses anúncios feitos para mentecaptos, e que sabem que não precisam da muleta do homem para singrar na vida.

    Cumprimentos do

    JM

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  3. :D
    É por isso que eu não cedo a passagem por serem mulheres, não seguro a porto por serem mulheres, não ajudo ninguém por ser mulher.
    Mas de vez em quando lá vem um "isso não é cavalheiro", eu rio-me e digo, querem os direitos iguais, não querem?
    :)

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