segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os meus dois mundos

Todas as cidades deviam ter um rio. E um fim de tarde ameno, um dourado de Outono a espraiar-se nos olhos, como que a dizer adeus, na linguagem da alma, ao cansaço que se vai apoderando do corpo, mirradas as horas de sono. A circunstância de viver num permanente vai e vem entre duas cidades brinda-nos – além das dores de costas de quem anda sempre com as malas atrás e daquele espírito tão próprio de quem por vezes acorda a 130 quilómetros do emprego – com o melhor e o pior de dois mundos, numa vivência espartilhada por dois lugares diversos, mas que se ancoram no peito em recantos de similar encantamento. As minhas cidades, os meus dois mundos, são feitas de um rio e de uma cascata que se desenha nas suas margens, recortada do céu com a mestria de um artista sublime, deitando-se na memória dos olhares apaixonados que por ali deambulam. Quando se vive assim, cá e lá ao mesmo tempo, e se transporta no coração o calor da saudade, do que existe aqui e do que ficou lá, acende-se uma tocha dentro de nós. Quando temos, como eu tenho, duas cidades aos pés das quais nos deitamos – os pés molhados, a alma intensa –, duas cidades que se completam como eu e tu, aqui e aí também, nos completamos, então sabemos que a beleza existe. E eu, mais do que duas cidades, trago em mim as mais belas cidades do mundo…
PORTO (Foto: Luís Silva)
COIMBRA (Foto: Mente Despenteada)

2 comentários:

  1. Adoro o meu Porto e conheço mal Coimbra, mas sei que ambas são maravilhosas, e tenho a certeza que o Porto é a mais bela cidade do Mundo.
    Quase poderia dizer que cidade sem rio não é cidade.
    No domingo fui reaprender Amarante.
    Magnífica a zona ribeirinha. Coloquei algumas fotografias no meu blogue.
    Um texto muito bem escrito sobre dois mundos e o amor que nutre por eles.

    Cumprimentos

    JM

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  2. Partilho contigo esse viver dividido, esse sono tantas vezes interrompido pelos horários apertados de mais um combóio... tenho apenas mais uns quilómetros entre mim e a outra margem, mas a saudade... é sempre imensa como um rio que nos separa.

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