sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vender religião de porta em porta...

Passava pouco das 11 horas desta bela e muito cinzenta manhã de sábado. Tocaram à campainha e, por ter o intercomunicador avariado, sem hipótese de antecipadamente saber quem era, a minha mãe abriu a porta e foi ver quem lá vinha. Era uma senhora, “testemunha de Jeová”, disposta a questionar quem quisesse dar-lhe tempo de antena (e a minha mãe não quis) acerca das causas de todos os males do mundo, apontando às almas perdidas o caminho para o “encontro com Deus”. Se nestas coisas eu sou pouco paciente, mas diplomática, a minha mãe é bem mais decidida, e menos de meio minuto depois, já a mulher descia as escadas, convencida de que daqui não levava novos fiéis. A inoportuna visita lembrou-me um diálogo deveras participado que, numa bela tarde de Verão do ano passado, opôs alguns camaradas de redacção, em virtude de um desses camaradas andar, também ele no âmbito do seu credo, a “espalhar a mensagem divina” por portas alheias. Sempre disse, ao meu amigo e a todas essas pessoas que já cá vieram bater-nos à porta, que estou convencida de que a religião não é vendável. Não é por virem cá com revistas e palavras doces que me convencem da existência ou da supremacia do deus deles sobre os outros deuses, de tantas outras pessoas. Acho até que pouca coisa é passível de ser vendida a quem não está interessado em comprá-la, mesmo que venha “embrulhada” nas palavras do mais fantástico especialista de marketing.
Lembro-me, por exemplo, que uma das tarefas que tive de desempenhar recentemente, a título profissional, foi a de “vender” conferências de interesse duvidoso a jornalistas pouco empenhados na sua divulgação, ou em qualquer outra coisa (que o empenho é bem escasso na economia real dos dias que passam). E se acreditar num determinado produto é meio caminho andado para estabelecer alguma empatia com o interlocutor, a verdade é que, muitas das vezes, nem eu acreditava no interesse dos assuntos que tentava vender, o que, só por si, justificava o meu entendimento de que aquelas pessoas também tinham legitimidade para não querer algo que até eu achava pouco interessante. Já na área religiosa a coisa é um pouco diferente. O meu amigo que vai de porta em porta tentando vender a sua crença argumentava que muitas pessoas só têm acesso à “mensagem de Deus” se alguém for lá a casa levá-la. “São acamados, pessoas sozinhas”, dizia. E eu prontamente argumentava: “Mas isso não constitui um aproveitamento malicioso da sua solidão, e da consequente maior disponibilidade e abertura para o diálogo com estranhos?”. Ele garantia que não, e dava até o exemplo do avô, assim convertido (por ter estado acamado durante anos e a visita das “testemunhas” ser a única forma de contacto com o mundo exterior durante alguns anos). Discordo dessa técnica de vendas. Acho até que as religiões que assim procedem configuram uma espécie de agentes da Clix e do Citibank (embora esses só façam visitas telefónicas e em centros comerciais, pelo menos para já). São as ditas vendas agressivas! Oferecem um prémio – no caso das “testemunhas” são aquelas revistas manhosas que falam dos “graves problemas da masturbação” (sim, isto foi-me dito, ipsis verbis, por uma dessas visitantes há uns anos) –, mas em troca impõe-nos que os ouçamos durante largos minutos, tentando convencer-nos a comprar, não um colchão livre de ácaros, com as almofadas anatómicas de oferta, não uma semana por ano em timesharing no Algarve, mas uma religião que não pedimos, e que até aí nunca nos fez falta, e que ainda por cima exige que, no futuro, sejamos como eles: ratos de reuniões e incómodos praticantes do fastidioso porta-a-porta. Não há pachorra para estes vendedores da moderna banha da cobra. Não há quem crie uma lei que proíba isto? Ou pelo menos um autocolante como aqueles da “publicidade não endereçada aqui não”…

Apesar de surgir na imprensa com as duas grafias, optei pelo "Jeová", em vez de "Geová", em atenção ao comentário do leitor Dylan, que prontamente agradeço.

9 comentários:

  1. Partilho a sua ideia, no entanto deveremos ter sempre o maior respeito por essas pessoas.
    Nestes tempos dificeis, não temos tempo para nada, não pensamos,estamos sempre nervosos não ouvimos ninguém...esse está a ser um grande problema para todos nós.
    Tento gostar de ouvir toda a gente, por vezes medito um pouco e coloco-me na posição deles (vendedores) precisamos de ouvir-meditar-lêr-escrever, precisamos de ouvir os nossos filhos, os lamentos, a solidão.
    Temos que ser compreensiveis, a rejeição nunca será a solução.

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  2. Cara Mente,

    "Jeová", do hebraico "Javé", nome de Deus.
    É falso que os membros desta religião tentem vender alguma coisa.
    É questionável a maneira como tentam passar a mensagem religiosa mas querer tentar atribuir-lhes o título de "vendedores da banha da cobra" é, no mínimo, deselegante.

    Como diz o sr. Modesto, devemos ser mais compreensiveis, até para quem não tem religião, como eu.

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  3. Caro Dylan,

    É verdade que hesitei em escrever com J ou G, mas fiz uma pesquisa rápida e percebi que pode ser e é escrito das duas formas, ambas correctas. Portanto, deixei ficar como estava. Quanto ao respeito e à banha da cobra, um reparo: o respeito é como a liberdade: deve ser usado na dose certa, sem mais nem menos. Nunca me viu faltar ao respeito a quem quer que seja. Não tenho é de levar com chatos, sejam testemunhas de Geová, Jeová, Javé ou o raio que os parta, e dispenso que venham bater-me à porta. Se há quem os queira, se conbseguem ter sucesso nas suas investidas, é algo que não me diz respeito e nem sequer me interessa. Mas que são vendas, e à descarada, são. É a minha opinião e vale o que vale.

    Um abraço.
    Até sempre.

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  4. Cá para mim acho mesmo que deveríamos, muitas vezes e dentro do possível, ser mais COMPREENSIVOS, visto que eu me considero bastante compreensível... e concordo que é deveras triste andar a bater de porta em porta a falar de religião ou espalhar a dita "palavra" de d(D)eus. Não sou crente, mas creio, e passo a redundância, que acreditar em algo e ter Fé vem de dentro de cada um. Sintamos ou não essa necessidade, a nós cabe a última palavra.

    A religião não é, com toda a certeza, algo que se aprenda, pelo que não serve de nada tentar conversões. Parte, antes de tudo - quando parte - de uma vontade interior. E sim, ainda que não equiparável a telemarketing - pois quem bate à porta não ganha comissões :P - é aborrecido ter de lidar com isso. Os tempos modernos e a azáfama não são desculpa. Por muito tempo de que disponha, nessas matérias sempre ouvirei o que me interessa e absorverei a informação que eu procurar.

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  5. Já se percebeu que quando a Mente Despenteada não gosta de algo, parte para a má educação e falta de respeito. Como não precisa de ouvir "chatos", também não precisa de ser mal-educada.
    O respeito é uma via de dois sentidos. Se quer ser respeitada, respeite os outros.
    Cada qual sabe de si. E se há umas quantas pessoas que consideram importante andar de porta em porta a falar de religião.... melhor para elas. Não são menos do que a Mente Despenteada.
    Espero que já tenha encontrado emprego.

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  6. A sua opinião vale certamente tanto como a minha, e se acha que fui mal educada, lamentavelmente não concordo, mas aceito a sua versão dos factos. Nunca disse que as pessoas, estas ou outras, que andam de porta em porta a vender o que quer que seja não são dignas de respeito. São-no, como é óbvio, porque estão a fazer aquilo em que acreditam. O que eu disse - e que aqui reitero - é que não estou disponível para ouvir Testemunhas de Jeová nem outros vendedores de porta em porta. E sim, a maior parte dos que nos batem à porta ou nos abordam nos centros comerciais ou via telefone são uns grandes chatos, e não acredito que, se já lhe aconteceu (e a mim acontece com uma frequência aterradora) ser abordado por estas pessoas, não tenha, pelo menos uma vez, pensado em fintá-los quando os vê ao longe ou, se não teve sucesso nisso, que não tenha desabafado um "que chatos", no final do curto diálogo com eles. Quanto ao emprego, não ando ainda à procura (por motivos pessoais demiti-me da empresa em que estava, e ainda não me decidi pelo regresso ao activo. Porém, agradeço os seus votos de sucesso. Nessa altura vai certamente fazer-me falta o sucesso que agora me deseja. Obrigada por isso. Um abraço

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  7. Eu apenas acho uma coisa, se aparece alguém chato à porta manda-se embora. Se é por religião, futebol ou aspiradores, não interessa.

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  8. E eu acho que achas muito bem! Eu penso exactíssimamente o mesmo, e foi isso que aqui tentei dizer. Eu acho que ninguém devia bater-me à porta para vender nada. Mas se um aspirador ou um determinado bem ou serviço até poderão ser objecto de uma negociação ali à porta, no que diz respeito à religião é uma matéria de consciência, e não tem negociação possível, pelo menos nesses termos. Bem-vindo, caro River! Beijocas para toda a família.

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  9. Olá Carla, fico contente que tenhas visto alguns dos meus DESPENTEADOS INTERESSANTES...em outros blogues!!! mas fico satisfeito por ser um Despenteado Amigo, Ainda estou á espera de um seu comentário no meu blogue.
    Mª.carla saiba que o shipping é uma ARTE.

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