domingo, 31 de maio de 2009

São manifestações ou são comícios?

Jornal de Notícias

Os professores portugueses voltaram a manifestar-se nas ruas da capital. As notícias apontavam números entre os 50 e os 80 mil docentes, mas o «Diário de Notícias» descobriu, por exemplo, que um dos “manifestantes” era, na realidade, um técnico de holografia que estava na concentração “por causa do convívio”. “Já é a quarta manifestação a que venho”, dizia ele. Ficou assim comprovado o que há já muito tempo se sabia: os 50, 60, 80, 100 ou 120 mil professores (números claramente inflacionados por interesses políticos) que saíram à rua nas mais recentes manifestações não eram, se calhar nem em 50%, professores. Eram amigos, familiares, simples curiosos. Mas a verdade é que as “manifestações de professores” também não eram manifestações de professores. Eram comícios políticos conduzidos pelo indizível Mário Nogueira, que em vez de reflectir sobre os problemas da sua classe – classe de que já nem é legítimo representante, visto que há quase 20 anos não põe os pés numa sala de aula – preferiu lançar atoardas ao Governo, preconizando a necessidade de retirar a maioria absoluta ao PS. “Não podemos admitir que a próxima legislatura volte a funcionar num quadro de maioria absoluta”, disse o dirigente da FENPROF, considerando que “há gente como o Eng. Sócrates e a ministra Lurdes Rodrigues, que não sabem governar com maioria absoluta”.

Como disse o primeiro-ministro, “os sindicalistas têm mostrado mais interesse pelos interesses dos partidos do que pelos dos seus associados", e no caso concreto de Mário Nogueira essa constatação é flagrante. É comum vê-lo, em gritos ensandecidos, a dizer mal do Governo, e a fazer-se de forma descarada ao lugar de Carvalho da Silva, que diz que não quer. Afinal, como pode um homem que foi professor há mais de 18 anos, e que desde então vive do ordenado de sindicalista a tempo inteiro, saber o que é dar aulas hoje em dia? Sabemos que ele quer dar a ideia de que nada mudou durante esse tempo, e que a Educação é o parente pobre da actuação dos sucessivos governos nacionais. Não é. Não tem sido nos últimos anos. A meu ver, o actual governo cometeu alguns erros no que ao sector da Educação diz respeito. É verdade, e de nada serve dizer que não. Mas não é verdade que o Governo não esteja a investir empenhadamente na melhoria das condições de aprendizagem dos estudantes portugueses. E a pôr, claro está, um travão na empáfia dos professores, que tendem a considerar-se seres superiores e acima da regulação do Estado.

Os professores têm razão em algumas das suas queixas, designadamente no que à avaliação do seu desempenho diz respeito. Isso não está sequer em causa para mim. O que me parece claro é que, se continuarem a ser representados por sindicalistas profissionais (que só têm razão de existir enquanto houver problemas e mobilização), que já pouco sabem do que é dar aulas, e que procuram apenas assegurar um tacho para o futuro mais próximo, estarão sempre mal representados. Mário Nogueira é um exemplo claro do aproveitamento que muitos sindicatos fazem da crença dos seus associados em que estes estão a lutar pelos seus direitos. Na maior parte dos casos, os sindicatos estão apenas a lutar para se manterem, eles próprios, acima da linha de água. Insistem em pormenores sem grande importância e dissecam-nos até à exaustão, e até se dão ao luxo de violar acordos assinados na véspera. Mário Nogueira é um flop como sindicalista, e será um flop político, se alguém tiver a ideia de o deixar chegar a um lugar de destaque no seu partido. O que é profundamente lamentável é que um sindicato se aproveite assim, descaradamente, da ingenuidade dos professores. Eu julgava-os mais inteligentes do que isso…

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