Os estágios estão na moda. Os curriculares, obviamente, fazem sentido e ainda bem que existem. Também os estágios profissionais são de louvar, quando são isso mesmo. O problema é que hoje em dia muitos dos estágios que vemos prometidos nos sites de emprego e nas páginas dos jornais não são efectivamente estágios para um emprego, mas antes manobras para ocupar alguns desempregados, iludir as estatísticas e convencer o país de que o Estado está a fazer alguma coisa por nós. Carne tenra é sempre mais fácil de mastigar, mas burro velho, às vezes, também aprende línguas...
Qualquer desempregado português sabe, infelizmente, a quantidade de ofertas de estágios profissionais com que se depara no seu quotidiano de procura de uma colocação profissional, e quanto mais tempo tem de desemprego, mais facilmente se apercebe da marosca: a verdade é que os chamados "Estágios Profissionais do Instituto do Emprego e da Formação Profissional" (designação entretanto substituída pela mais apelativa "Estágios Emprego", que na prática é mais do mesmo, mas com outro nome) são apenas manobras para nos darem a ilusão de que está a ser criado emprego em Portugal, quando efectivamente isso não acontece. As regras são claras e excluem, logo à partida, um número enorme de candidatos, entre os quais me encontro. Do alto dos meus 37 anos, que tantos julgam ser a flor da idade, o momento da vida em que tudo é possível e fantástico, esbarro frequentemente nesses estágios, e isso começa mesmo a irritar-me.
Se antes já era comum a preferência de muitos empregadores por esta prática de recrutamento, agora que a crise virou moda e presença constante em todos os discursos fica ainda mais notória! No actual cenário, em que o desemprego é crescente em todas as idades e em quase todas as profissões, fica sempre bem aos governos a criação de "medidas de incentivo ao emprego", que na verdade servem a muito poucos cidadãos mas agradam bastante às empresas, que dessa forma podem "contratar" - por períodos de 12 meses, não prorrogáveis - profissionais qualificados, com o Estado a pagar 80 a 100 por cento dos seus vencimentos. É bom, claro! Assim, diz o IEFP, "mesmo numa fase marcada por incerteza e pressão para reduzir despesas, torna-se possível continuar a contratar e contar com os recursos necessários para poder crescer". Tudo certo para as empresas, portanto.
Mas... e os candidatos? Para esses o caso muda de figura. E como muda! A estas "medidas de incentivo do emprego" podem candidatar-se pessoas desempregadas que se encontrem inscritas nos centros de emprego (até aqui tudo bem, obviamente), mas depois é que a porca torce o rabo. É que esses desempregados têm de estar numa das seguintes situações:
1. Terem entre 18 e 30 anos de idade e uma qualificação de nível 2, 3, 4, 5, 6, 7 ou 8 no Quadro Nacional de Qualificações (admito a minha ignorância nesta matéria e espero que isto sirva a muita gente jovem, ainda que o desemprego seja hoje aflitivo para muito mais gente, bem mais velha);
2. Tendo mais de 30 anos de idade, os candidatos a estágio terão de ter obtido há menos de três anos uma qualificação de nível 2 ou superior e estar então à procura de emprego (como se fosse fácil comprovar que se está à procura de emprego), não podendo ter quaisquer registos de remunerações na Segurança Social nos 12 meses anteriores à entrega da candidatura (ou seja: quem estiver desempregado há menos de um ano esqueça lá a ideia de se candidatar a um estágio, o que pode pôr em risco as candidaturas de alguns dos que cumprem o requisito de terem terminado os seus estudos ou qualificações há menos de três anos, pois se tiverem de esperar mais um para se candidatarem...
3. Serem portadores de alguma deficiência ou incapacidade;
4. Integrarem uma família monoparental ou cujos cônjuges ou pessoas com quem vivam em união de facto se encontrem igualmente desempregados e inscritos nos serviços de emprego;
5. Serem vítimas de violência doméstica.
Não cumprindo nenhum dos requisitos para poder candidatar-me a um estágio profissional, parece-me que vou ter de me queixar de violência doméstica, mesmo que cá em casa essa seja uma realidade muito, muito distante. Talvez assim consiga uma colocação, por um ano, numa qualquer empresa aqui da zona, pois tudo o que está a recrutar parece escolher esse caminho, o que até compreendo. Para os candidatos com alguma qualificação o "salário" até nem é dos piores, como podem ser aqui, mas chato mesmo é que isto não seja de facto um emprego, mas antes uma maneira de iludir os números oficiais de desemprego, pretendendo mostrar que o número de pessoas sem colocação está a descer, quando na verdade elas apenas vão rodando nas pautas de estágio disponíveis. Serei a única a pensar que este esquema, podendo ser útil às empresas (contra isso nada!), não ajuda de facto nenhum desempregado?

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