Mais de 10 mil animais são abandonados anualmente em Portugal, onde, à luz das estatísticas mais recentes, haverá cerca de meio milhão de bichos sem dono ou porto de abrigo. Ainda mais expressivo é o número de animais abatidos, muitos de forma “legal”, em canis municipais: 100 mil por ano. Dez vezes mais! Não há famílias que os recebam, lares que os acolham, leis que os protejam. Alguns são afogados, outros mortos à pancada, e outros atirados para contentores de lixo, dentro de sacos, ou simplesmente deixados na beira da estrada, à fome e ao frio, à espera de que um milagre aconteça ou de que a morte venha buscá-los. Este é um cenário negro, que devia envergonhar qualquer pessoa com coração, mas a que muitos – demasiados – reagem com absoluta indiferença. Vale o trabalho das associações e de muitos voluntários que, por todo o país, se desdobram em esforços para assegurar que o maior número possível destes seres não se perca numa morte prematura e especialmente cruel…
Talvez só quem já tenha tido animais ou tenha lidado directamente com eles consiga perceber como podem ser frágeis e vulneráveis, como ficam tristes quando se sentem sós, mas como são simultaneamente fortes, dedicados àqueles que amam, protectores, heróicos. Quem consegue vê-los assim, exactamente como eles são, sofre de cada vez que vê animais a sobreviver na rua, sem um prato de comida, sem um bebedouro, sem um agasalho nas noites frias ou um carinho que os faça parar de tremer. Porque muitos tremem, de frio e de medo, e muitos reagem a toda a tentativa de aproximação humana com desconfiança, porque sabem, como ninguém, aquilo de que muitos humanos são capazes. Foi com um misto de estupefacção e revolta que há meses soube que em Portugal há quem seja multado por dar de comer a cães de rua. Multado! Por dar de comer a uma vida esfomeada! Por suprir uma necessidade básica, essencial, de um ser vivo! Como se os cães de rua fossem pedras, pedaços mortos da paisagem urbana que se quer limpa e livre de ameaças.
Mas que ameaça constitui um cão de rua, afinal? Há dias encontrei um, junto à porta de um prédio aqui na cidade de Faro. Estava sujo, nervoso, levantando-se de cada vez que alguém se aproximava do lugar onde se encontrava. Soube, junto de vizinhos, que não era dali, mas que há uns dias pernoitava no local por causa de uma cadelinha que vivia no referido prédio. Talvez a menina estivesse no cio, pensei. Parece que era o caso, pois uns dias depois o cão deixou de ser visto naquela zona. Vi-o, uns tempos mais tarde, num ponto diferente da cidade. Acompanhava um homem, que presumi ser o dono, mas sem trela ou nada que o indicasse, a não ser a decisão do cão em seguir o homem em todos os passos que ele dava. Fiquei contente por ver que o cão tinha alguém, mesmo não sendo talvez o mais carinhoso e entusiasmado dos curadores.
No dia em que tinha estado com ele junto ao prédio onde vivia a tal cadelinha, deixou que eu chegasse perto, que o acarinhasse com festinhas. Senti, debaixo do pelo sujo e crespo, um coraçãozinho saltitante, ansioso. Encostou-se a mim enquanto o acarinhava e a vontade que tive foi mesmo de o trazer para casa, não fosse o facto de me terem dito que provavelmente tinha dono e que só estava ali por causa da cadela no cio. Passei por lá algumas vezes nos dias seguintes, e ele lá estava, sempre no mesmo sítio, até ao dia em que deixou de estar e em que, como percebi mais tarde, teria regressado a casa. Fiquei aliviada, mas com pena também, pois não sei onde vive e gostava de o ver de novo. Mas pelo menos sei que tem um dono, uma casa, e que não passa os dias na rua, a não ser quando a paixão por uma cadelinha no cio o dita.
Choca-me o número de animais abandonados todos os anos em Portugal. Choca-me ver cães e gatos a dormir na rua, debaixo de carros ou nos cantinhos mais inusitados da arquitectura das nossas cidades. Choca-me mais ainda que o simples gesto de os alimentar possa ser motivo para uma multa, ou que as câmaras recolham animais de rua para depois os abaterem nos seus canis municipais, por não terem espaço para acolher mais. Matam animais jovens, saudáveis, porque simplesmente não têm espaço para receber mais que, semanas depois, terão o mesmo destino fatal. Porquê? Para quê? De que serve acolher um animal de rua para o matar tempos depois, e com tão fraco argumento?!
Neste momento existirão em território nacional cerca de 50 associações que se dedicam a zelar pelo bem dos animais abandonados, recolhendo-os das ruas, tratando-as das possíveis infecções e doenças, esterilizando-os sempre que possível e promovendo a sua adopção responsável por parte de quem tenha disponibilidade para os acolher e amar, tratando-os como se de membros da família se tratassem. Em minha casa sempre foi assim. Cães, gatos, coelhos e hamsters foram sempre vistos como membros da família, e tinham até o nosso sobrenome. Lamento não poder fazer mais, e por isso valorizo a enorme disponibilidade de quem, nessas associações, se dedica a salvar e a proteger animais indefesos. Quem abandona um cão ou um gato por motivos tão obtusos como alergias, férias ou problemas de comportamento não merece, de facto, ter como companheiro de vida um ser disposto a amar incondicionalmente e a dar tudo de si pela alegria daqueles que ama, e que nunca pedirá nada em troca desse amor inegociável.
É por isso que tenho imenso respeito pelas associações protectoras dos animais e por todos os que voluntariamente dedicam algum do seu tempo a fazer parte de projectos tão valiosos e tão enriquecedores como esses. Porque os animais podem ensinar tanto aos humanos que qualquer minuto passado na companhia deles é um ensinamento mais a reter. Diante da ignorância dos que os abandonam e da colaborante negligência dos governos que nada fazem para os proteger, que ao menos deixe de ser sancionável o gesto verdadeiramente grandioso de alimentar um cão abandonado ou um gato de rua! Já que não me parece que esteja para breve a disponibilização oficial de comedouros e bebedouros nas ruas, onde os próprios animais possam dirigir-se a fim de saciar a fome e a sede, ao menos não multem quem lhes der de comer! É o mínimo, não?

Gostei muito deste artigo. Faço parte desse grupo dos que se "desunham" para salvar 1 animal. Não compreendo e revolta-me como é que o abate dos animais é considerado legal. É uma prática tão primitiva, que me convence que o ser humano possui a mente pouco desenvolvida em relação à tecnologia. Pois se estamos na era do nano, do micro, do byte, porque não conseguimos alcançar uma mudança mental, de valores, de solidariedade, para com os nossos parceiros, que habitam e têm tanto direito a viver uma vida condigna como nós.
ResponderEliminarObrigada, Ana! Bem-vinda a este blog, hoje e sempre! :)
EliminarConsidero q este artigo deveria chegar aos olhos do povo. Isso não acontecerá se continuarmos só a divulgar nas redes sociais. Acho que acabamos por ser um núcleo fechado de amigos dos animais. O povo que abandona, que negligencia, que maltrata, sem fim, todos os dias, a toda a hora deveria ter vergonha. Para isso um dos meios mais eficazes para a circulação do artigo de opinião é o jornal. O jornal local. Solicito que considere a publicação no jornal este artigo. Será q eu posso publicar no jornal local. moro nos Açores, local onde o abandono e abate é diário.
EliminarAna, eu sou jornalista. De momento nåo estou a trabalhar na área do jornalismo, e sinceramente, por conhecer bem o jornalismo em Portugal é que lhe digo que duvido que os jornais se interessem de facto por estas notícias. De qualquer forma eu partilho como posso: no blog, na sua página de Facebook, no meu perfil... Há sempre quem leia e partilhe, e assim vamos chegando às pessoas...
EliminarAdorei estas palavras revejo me em cada uma delas.
EliminarIniciei uma campanha no facebook onde se pretende conseguir campanhas de esterilização para animais de rua e de pessoas carenciadas. As esterilizações são uma das formas de modificar estes números! Outra forma é dar VALORES MORAIS Às pessoas e fazê-las perceber de uma vez por todas que os animais NÃO SÃO coisas! https://www.facebook.com/events/1421377758124328/
ResponderEliminarEu acho q o q eles fazem com eles ( os animais) é uma barbaridade, pois parecem q eles querem q eles sofram de fome, de frio e de sede. não tendo ninguém que os ame, e ainda por cima não deixam q ninguém os ajudem. deveria ter uma lei severa q punissem quem abandonassem e maltratasse os animais!!! SOU CONTRA QUALQUER TIPO MALTRATOS
ResponderEliminarAOS ANIMAIS E ABANDONO, PROCURO SEMPRE AJUDAR OS ANIMAIS DE RUA DANDO A ELES COMIDA ÁGUA AGASALHO E PELO MENOS UM POUCO DE CARINHO E MUITO AMOR!!! AMO OS ANIMAIS
É desumano abandonar um animal não compreendo, dói ver a tristeza deles. Eu adoro animais a minha gata e a minha cadela são parte da minha família, nem quero pensar no dia em que elas partam. Adoro-as.
ResponderEliminarSanta ignorancia. Um artigo de gente ignorante que infelizmente li. Chama-se a isto demagogia. E é facil: Diz-se bem dos animais, censura-se o governo por multar quem lhes dá de comer. e no fundo fica tudo igual porque esta gente ignorante como a "escritora" desta pérola não percebe que este é um problema mundial e para o resolver não basta alimentar animais da rua ou esterilizar meia-duzia de animais ou impedir o "abate" nos canis. Sim falando destes ultimos imagino que eles gostem de o fazer não? Até devem ter um sorrizinho rasgado quando apanham alguns para os arrumar, não? Cresçam, deixem de ser miudinhos e leiam artigos sobre isto. Parva.
ResponderEliminarClaro que sim! Inteligente, e muito digno claro, és tu, que sob a capa do anonimato te divertes a insultar quem faz alguma coisa para mostrar a realidade aos ignorantes como tu! Dar a cara é difícil, não é? É preciso ter carácter e coragem de assumir o que se diz e aquilo em que se acredita. Não é para todos, bem sei. Dedica-te tu a qualquer coisa de mais produtivo do que defender o governo, qualquer que ele seja, e aprende algo útil todos os dias. Como a estar calado, por exemplo! Bom dia.
ResponderEliminarSanta ignorância é a tua! A autora do texto, por sinal muito bem escrito, retrata muito fielmente a realidade dos animais de rua em Portugal, nomeadamente os de 4 patas e não de 2, como tu! Os teus comentários além de mostrarem uma tremenda falta de educação denotam algum tipo de desiquilíbrio mental Quanto à primeira, não há nada a fazer seu monte de exterco, mas quanto à segunda, trate-se. Procure, porque seguramente que haverão alguns especialistas que o podem ajudar, principalmente os da especialidade de grande porte, sua besta! Ele há realmente cada um que de vez em quando se cruzam no nosso caminho...Irra! Monte de exterco...Realmente o texto é sim uma pérola, mas como diz o ditado, não se devem dar pérolas a porcos e é bem verdade!
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