sexta-feira, 2 de maio de 2014

É bom visitar Portugal. Mau mesmo é viver cá…


Portugal é “o melhor país para visitar”, Lisboa “a melhor cidade para estar com amigos”, o Porto “o melhor destino turístico de 2014” e o Algarve “o segredo mais famoso” do cartaz turístico da Europa. Temos ainda o luxuriante e verde Minho e a apreciada pacatez do Alentejo. Quem nos visita acredita ter descoberto o paraíso na Terra, mas para quem (sobre)vive diariamente neste jardim à beira-mar, a realidade pode ser bem diferente…

Portugal é um lugar verdadeiramente fabuloso. Nariz da Europa a cheirar o mar, a que se lançou na Era dos Descobrimentos para dar novos mundos ao mundo, é hoje um país reconhecido fora das suas fronteiras físicas pelo interessante casamento entre história e modernidade, tradição e vanguardismo, praia e campo. Cenário de uma diversidade avassaladora e incomum, também as paisagens de impressionante beleza, a gastronomia, a hospitalidade dos portugueses e o futebol agigantam a admiração dos estrangeiros pelo nosso país.

Destino turístico de excelência há muitos anos, Portugal foi há poucos dias galardoado – pelo segundo ano consecutivo – com o título de “melhor país para visitar” atribuído pela conceituada revista «Condé Nast Traveller», depois de em Janeiro o jornal americano «Huffington Post» ter escolhido Lisboa como “a melhor cidade para visitar com amigos”, e de em Fevereiro também o Porto ter sido eleito pela European Consumers Choice como “melhor destino europeu de 2014”. A sul, o Algarve é há muito definido pelos circuitos turísticos internacionais como “o segredo mais famoso da Europa”.

Para milhares de estrangeiros que anualmente nos visitam, Portugal tem tudo para ser mágico: a enorme riqueza cultural e patrimonial, a diversidade de tradições e manifestações culturais, o clima ameno e agradável, a excelente gastronomia, a duradoura estabilidade política, o custo de vida perfeitamente aceitável para quem habitualmente aufere salários bem mais elevados do que os que são praticados por cá, tudo desenha uma conjuntura favorável a uma visita mais ou menos demorada. Pior mesmo é viver cá todos os dias do ano! 

Com o desemprego galopante, o diminuto (e decrescente) poder de compra e um governo que nos rouba sistematicamente, com a imposição de uma carga tributária desajustada à realidade da maior parte da população, com os cortes sucessivos nos rendimentos e nos serviços de Saúde e de Educação, com a pobreza e a miséria a alcançarem cada vez mais pessoas, é cada vez mais difícil ser português.

Muitos têm sido, designadamente nos últimos três anos, aqueles que, sem oportunidade para singrarem profissionalmente na terra que os viu nascer, optam por deixar Portugal. Aliás, essa foi mesmo a indicação dada, há uns meses, pelo primeiro-ministro aos jovens sem colocação no nosso país. Diante do confrangedor comprometimento de todas as hipóteses de sucesso por cá, de que este elenco governativo é responsável inequívoco, todos os dias saem do país milhares de portugueses, dispostos a tudo para encontrarem a vida que merecem, mesmo que longe dos seus entes queridos e de tudo o que tinham construído até agora, e que muitos perderam.

Ao longo dos últimos anos os cortes nos salários avolumaram-se de tal maneira que muita gente recebe hoje um salário proporcionalmente mais curto do que o que recebia antes da Revolução dos Cravos, em 1974. Tenho amigos que perderam os seus empregos. Soube de gente que ficou sem a casa de família, cujas prestações ao banco tinha, até há pouco tempo, conseguido pagar sempre, religiosamente. Vi mães terem de deixar partir os filhos, e vi mesmo mães e pais quase na idade da reforma a terem também de virar as costas ao mundo que conheciam para partirem para longe, em busca de melhores condições de vida.

Viver em Portugal não está a ser fácil. E se ainda temos sol e boa comida para dar aos turistas que nos procuram, é tempo de o governo perceber que qualquer dia o sorriso que caracteriza os portugueses, esta hospitalidade tão nossa, vai também eclipsar-se. Um país onde não há o que comer, em que cada vez temos menos filhos, porque temos também cada vez menos o que lhes oferecer, é um país condenado. Um país que maltrata os seus velhos, que priva de horizontes as suas crianças, é um país condenado. Um país onde há tanta gente sem emprego, tanta gente a viver nas ruas, tanta gente com fome, é um país condenado. E não está, como também disse em tempos o chefe da quadrilha que se acha governo, “condenado ao sucesso”. Não. Portugal não é um país condenado ao sucesso. Portugal é, e cada vez mais, um país condenado a desaparecer…

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