Dizem que são “ateliers
de ideias”, “actividades lúdico-pedagógicas gratuitas que irão proporcionar aos
mais pequenos conteúdos didácticos interessantes, num ambiente descontraído e
pautado por muita diversão”. Decorrem aos fins-de-semana no centro comercial
GaiaShopping, em Vila Nova de Gaia. «Vem aprender a ser milionário» é o nome do
atelier deste mês, que, de acordo com a organização, assume o “desafio” de “ensinar
aos pequenos génios como poderão ser verdadeiros milionários”. Ficamos então a
saber que todos os putos são génios e que também haverá milionários falsos. Claro
que os adultos não têm de ser génios (bastará que tenham dois dedos de testa) para
perceber que isto é uma patetice pegada, saída da cabeça de alguém que vive a
admirar o próprio umbigo e têm da infância uma visão distorcida e idiota. À sua
imagem e semelhança…
A primeira sessão
desta bela estopada ocorre nos dias 7 e 8 e aborda o conceito de «Criação de
valor». É a ocasião perfeita para fechar numa sala meia dúzia de criancinhas,
privando-as de brincar, apanhar sol e conviver com outras crianças de forma
natural e autónoma, para lhes meter na cabeça ideias mal amanhadas de quais
devem ser os principais objectivos de uma pessoa. Afinal que interessa o
mérito, a justiça, a solidariedade, o companheirismo ou a simples brincadeira
despreocupada?! O que importa é ter o dinheiro, apenas o dinheiro, como
objectivo de vida. O poder como meta. A paixão cega pelo que é comprável, em
detrimento do tudo o que são valores, sentimentos, emoções…
Depois deste
fabulástico arranque, a iniciativa prossegue nos dois fins-de-semana seguintes,
com acções cujos títulos dispensam comentários: «Valor do produto» (14 e 15 de
Junho) e «Como vender» (21 e 22 de Junho). Nos dias 28 e 29 encerra o programa,
com a realização de uma «Feira de talentos» em que os pequenos aprendizes terão
uma banca para expor os produtos que criaram e vendê-los, por iupis (uma moeda
inventada para este efeito), aos seus convidados. Resta informar que todas as actividades
que integram estes “ateliers de ideias” são gratuitas e decorrem no piso 0 do
GaiaShopping, entre as 11 e as 20 horas, ou seja, pais e filhos ficam presos
num centro comercial todos os dias de todos os fins-de-semana de Junho! Qual
praia, qual quê?! Qual piscina?! Visitar familiares?! Conhecer museus?! O que é
isso tudo, diante da possibilidade de aprender a ser milionário?!
Quem me alertou
para isto foi o meu primo Nuno, pai consciente e psicólogo de formação, mas
nada diz mais ou melhor sobre este assunto do que a mensagem que ele enviou ao
GaiaShopping e que transcrevo aqui e agora: “Perplexidade é a palavra que
melhor resume a vossa acção para o público infantil, este mês. Os vossos
ateliers "Valor do Produto", "Criação de Valor", "Como
Vender" e "Feira de Talentos" são algo abominável para qualquer
pai consciente do que é o melhor para o seu filho. Mas como não sabem, passo a
explicar. Ser feliz, brincar, crescer em harmonia e sem a responsabilidade de
um futuro que não seja imediato. Não sei de quem possa ter vindo a ideia de tal
brilhante acção, mas está certo que foi validada, o que demonstra claramente
aquilo que está na cara de todos... Estes e outros ateliers não são para as
crianças. São para os vossos egos e para alimentar a vossa deturpada noção de
infância, onde o preparar de um futuro repleto de sucesso (financeiro) é melhor
e mais importante do que o saudável e feliz crescimento sustentável, onde os
valores da família, amizade, entre outros, são relevados para 5º plano”.
E prossegue o
Nuno, numa tomada de posição que apoio por completo: “Este projecto que
anunciam é de uma brutal falta de bom senso e será alvo de queixa nas
instituições competentes. Não é possível que possam apresentar actividades
direccionadas para crianças tão travestidas daquilo que menos importa: o
dinheiro, o sucesso, a fama, o vazio, ao invés de estimular as competências
próprias da idade, que é dar carácter, moral, integridade, bom senso. Bem, mas
não preciso de vos explicar nada. Já percebi que tipo de pais são,
independentemente do tipo de profissionais que serão. E um evento destes devia
ser norteado mais pelos pais que deveriam ser e muito menos pelo profissional,
dado que, afinal, é para crianças. Um pai atento, preocupado e investindo
naquilo que é realmente importante não deixaria passar isto. Por aí não há
nenhum, infelizmente. Pena das vossas crianças”.
Obrigada, Nuno! Mesmo não tendo filhos
sei avaliar o pai que és. Mesmo não sendo especialista na área, sei que és uma
pessoa atenta aos fenómenos da psicologia e da cognição. Sei que sabes do que
falas e, pelo menos neste caso, sei que estás coberto de razão. E que recusaste
ficar calado. Obrigada por isso.

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