quarta-feira, 11 de março de 2015

Os contraceptivos orais podem ou não matar?


Em Janeiro de 2008 fui internada de urgência nos Hospitais da Universidade de Coimbra. O que cerca de duas semanas antes parecia ser apenas uma dor numa perna, atribuída ao cansaço e ao uso de botas novas durante as compras de Natal, era afinal uma embolia pulmonar que por pouco, muito pouco, não me foi fatal. Dei entrada no hospital por volta das 14h30, estive até às 23 horas em observação nas urgências, fiz tudo o que era teste e análise, e foi um exame muito específico, feito por um aparelho que naquela altura não existia em mais nenhum hospital público do país, que encontrou o problema.

Se não fosse diagnosticada naquele momento, disse-me mais tarde a equipa médica, teria tido cerca de quatro horas de vida, já que tinha sofrido duas tromboses venosas profundas e duas superficiais, além de uma tromboembolia pulmonar, e os coágulos de sangue que me preenchiam quase na totalidade os pulmões teriam migrado para o coração, provocando um enfarte fulminante, ou para o cérebro, dando origem a um AVC fortíssimo. 

Fui internada nos Cuidados Intensivos da Unidade de Cardiologia, e mais tarde transferida para a enfermaria. Durante alguns dias não pude sequer sair da cama, sempre ligada a fios e máquinas e com o corpo todo roxo por acção da heparina e da varfarina que iam dissolvendo os coágulos e fazendo fluir de forma mais natural o meu sangue. Quando tive autorização para dar alguns passos, fui forçada a usar meias elásticas de contenção, que ainda uso diariamente, e que terei de usar toda a vida, e andei três anos a tomar anticoagulantes, para garantir que o sangue não espessava de novo, causando novas tromboses e nova embolia. 

Passados esses três anos, com recolhas e análises regulares ao sangue (primeiro três vezes por semana, depois semanalmente e mais tarde de 15 em 15 dias ou de mês a mês), fiz um teste para saber se a embolia poderia ter origem genética. Se assim fosse, a medicação com anticoagulantes teria de se manter pela vida fora, com todos os inconvenientes e transtornos daí decorrentes (se antes não era alérgica a nada, passei a ser alérgica a quase tudo, até ao sol e ao meu próprio suor, e por força da maior fluidez do sangue não podia sequer correr o risco de fazer um corte num dedo, tendo também de usar um cartão para o caso de sofrer um acidente na rua, de carro ou a pé, ter prioridade no atendimento médico).

O teste genético deu negativo, e por isso não sei, até hoje, qual a razão daquela tromboembolia pulmonar. Suspeita-se de que seria um conjunto de factores, entre s quais avultavam o excesso de peso, a vida sedentária que levava e a toma regular e já com vários anos de contraceptivos orais (sendo que até tinha mudado de pílula, cerca de um ano antes, por causa de um outro problema de saúde relacionado com o útero, para uma mais forte). Fui, por isso, obrigada a mudar de vida: pílula nunca mais! Mas não só: era preciso perder peso, fazer caminhadas, mesmo que fosse à velocidade de um caracol. Assim foi.

Mais recentemente conheci a história da Carolina Tendon, uma estudante de Veterinária e bailarina que, aos 22 anos, foi repentinamente surpreendida pela morte durante o sono. A história comoveu-me, a tal ponto de ter ido assistir ao enternecedor périplo que o namorado desta miúda (quando se tem 22 anos tem-se ainda tanto para viver!), o Pedro, anda a fazer pelo país, a apresentar o livro que ela foi escrevendo, desde os seus 10 anos de idade, mas que nunca teve tempo de editar. A história de vida da Carolina, que em pouco coincidirá com a minha, coincide num ponto essencial: ela também tomava a pílula, e a família, apoiada por pareceres de especialistas, diz que poderá ter sido isso a matá-la...

Serve esta longa história para dizer que sim, a pílula tem riscos. E que sim, a pílula pode matar. Creio, porém, que não matará sozinha. Precisará da nossa ajuda no cumprimento desse objectivo. Desde logo porque a maior parte das mulheres inicia a toma da pílula sem sequer consultar um médico. Eu consultei, e tudo o que ele me perguntou foi se fumava e se tinha hipertensão. Nada mais. Nem um exame ou análise. Conheço milhares de mulheres que tomam a pílula há anos e que nunca tiveram problemas. Eu mesma nunca os tinha tido, até saber que tinha problemas no útero, que os médicos garantiam nada ter a ver com a pílula, pelo contrário!

A verdade é que temos assistido a cada vez mais doenças e até a mortes de mulheres atribuídas, ou pelo menos alegadamente relacionadas com a pílula. Acho, ainda assim, que a pílula não age sozinha na geração desses males que matam. Mas convém estarmos atentas. Conheço muitas mulheres que nunca tomaram a pílula, porque não podiam ou porque não queriam, e nem por isso as vejo impedidas de terem a sua sexualidade segura e feliz. Aprendamos com elas! Para quê encher o corpo de químicos se podemos resolver a nossa vida sem eles? Eu já não preciso de contraceptivos, mas se precisasse, garanto-vos, excluía da equação a pílula. O seguro morreu de velho, e mais vale prevenir do que remediar...

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