domingo, 10 de agosto de 2008

Uma entrevista adiada...

Rui Lança, chefe da Divisão de Desporto do Inatel
“Instituto do Desporto devia ter mais poder”

A entrevista que se segue foi escrita para ser publicada no semanário «Tal & Qual», que acabaria por ser encerrado antes de isso poder acontecer, e depois foi cedida a «O Primeiro de Janeiro», que acabaria por também não a publicar em tempo útil, ou seja, antes da sua transformação em suplemento do que era antes um suplemento seu. O Mente Despenteada III aproveita os restos (salvo seja!) e, só para desenjoar do assunto «Janeiro» – ok, e também para não ter de dar de caras com o senhor Eduardo Oliveira Costa de cada vez que abro o blog, e até mesmo porque acho que o que este rapaz, que é mouro, mas é querido, diz merece ser lido –, dá-vos a conhecer Rui Lança, chefe da Divisão de Desporto do Inatel à altura desta conversa (há dias disse-me que mudou de ramo, mas como não aprofundou a conversa, não sei em que galho salta agora...), que aponta o excesso de regulação no sector e frisa que o IDP deveria ter mais poder.

CARLA TEIXEIRA
Portugal é um dos países europeus com menor percentagem de pessoas que praticam regularmente uma actividade desportiva. Qual é, na sua opinião, a razão do alheamento dos portugueses de uma área que, como espectadores, privilegiam e acompanham assiduamente?
Destacaria alguns aspectos de âmbito social. Infelizmente a actividade desportiva no primeiro ciclo ainda não é uma realidade para todos, e existe um grande hiato depois da idade escolar, com uma quebra enorme nessa idade. Apesar do esforço e da mensagem de que a actividade desportiva proporciona inúmeros benefícios ao indivíduo a nível físico e social, não há ainda uma cultura do desporto como hábito diário ou de alguns dias por semana. No entanto, é necessário referir que estamos a evoluir nesse sentido, e que já há um grande número de desportistas informais, que fogem às estatísticas.

A Gestão do Desporto está ainda a dar os primeiros passos no nosso país, mas há já um elevado número de profissionais que trabalham neste sector nas autarquias, em clubes ou entidades desportivas. A troca de experiências e contactos entre eles é benéfica? De que forma?
A troca de experiências é importante, principalmente se soubermos distinguir a razão por que o projecto X ou Y alcançou o sucesso pretendido ou não. Defendo que deve haver um grande enfoque no processo e não tanto no resultado, ou seja, devemos perceber como chegamos aos resultados e não tanto os resultados em si, embora não queira tirar a importância ao resultado positivo ou construtivo. Pelo que tenho observado internacionalmente, os trainings e fóruns são a forma mais prática, concreta e concisa para que essa troca de informação e experiências se concretize.

Qual é a importância do movimento associativo na angariação de pessoas para a prática de desporto, mesmo que seja apenas na vertente de lazer?
O movimento associativo, juntamente com o escolar, constitui um dos principais angariadores de praticantes. Deverá constituir a nossa pirâmide de praticantes, e posteriormente os próprios atletas decidirão se querem seguir para a competição ou ter outra motivação para a prática.

Há uma lacuna na formação qualificada de técnicos que respondam às necessidades de todas essas entidades? O que é que pode ser feito no sentido de, como defende nos livros que entretanto publicou – «Animação desportiva e tempos livres: Perspectivas de organização» e «O desporto e o lazer: Uma gestão integrada», ambos pela Caminho –, adaptar a realidade às exigências dessas novas áreas?
Não é tanto a falta de técnicos, mas sim a posição que ocupam no que diz respeito à vertente estratégica e ao poder de decisão. As exigências são normais e fazem parte de um processo constante de inovação, oferta, procura e ambiente, em que qualquer pessoa está englobada. Focando o movimento desportivo, existem vários “subserviços”, e no enorme mercado que é o lazer e o tempo livre, o desporto é só mais um. As exigências são inúmeras, e o que defendo é a melhor utilização dos recursos e um remar para um mesmo objectivo, definido previamente.

No prefácio do seu último livro faz-se a apologia da redução da jornada de trabalho (começar a trabalhar mais cedo e acabar mais cedo) como elemento potenciador da prática de exercício físico. Ter mais tempo livre desencadearia maior adesão à prática desportiva? De que forma é que o tempo livre influi no desenvolvimento do sistema desportivo?
Não considero que seja taxativo, mas seria sem dúvida uma boa opção. Veja-se o que acontece no Centro e Norte da Europa… Os próprios estudos indicam que as pessoas apontam a falta de tempo como uma das razões para não fazer desporto. Ter mais tempo livre potencia a adesão das pessoas à prática, seja competitiva ou de manutenção. É importante criar a maior acessibilidade a todos os níveis (sociais, físicos, materiais e temporais).

Defendeu a dada altura, num colóquio com estudantes de gestão do desporto, que “é necessário transmitir a necessidade de uma boa gestão estar presente no dia-a-dia do desporto”, e que o Inatel tem de se adaptar às exigências da sociedade. Que exigências são essas?
São exigências próprias de um mercado cada vez mais competitivo e exigente, o que é bom, porque nos obriga a ser mais rigorosos a todos os níveis. O Inatel tem uma enorme importância na sociedade desportiva e de lazer, e tem, como todas as outras entidades, de se adaptar constantemente às necessidades dos utentes, que passam por mais qualidade, programas de curta duração, diversidade, etc…

A Carta Europeia do Desporto diz que “convém promover a organização e a gestão do desporto organizado numa base profissional, através de estruturas adequadas”, e que “os desportistas profissionais devem ter a protecção e o estatuto social apropriados, bem como de garantias éticas, colocando-os ao abrigo de qualquer forma de exploração”. É isso que acontece em Portugal?
Falta-nos uma organização “umbrella” em alguns sectores desportivos, que assuma uma primeira tomada de decisões, como já acontece em alguns países europeus, e com sucesso. Considero que além de não haver essas estruturas adequadas, em Portugal há demasiadas entidades a regular o sector e com poderes semelhantes, o que cria gaps constantes. Quanto aos desportistas de alta-competição, o Instituto do Desporto de Portugal tem regulado bem, visando uma maior transparência, mas deveria ter mais poder no que diz respeito a algumas modalidades.

O ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, disse que Portugal quer uma viragem na valorização da vertente política do desporto durante a presidência da União Europeia, preconizando “uma presidência pragmática e que resulte no reforço da cooperação”. Concorda com a ingerência do Estado na área do Desporto, ou a estrutura pública deve reduzir o seu impacto e interferência?
A cooperação é uma das formas mais céleres de atingir uma plataforma qualitativa. Considero que o Estado deve garantir a primeira experiência de prática desportiva a todos os cidadãos, assegurando depois que as pessoas escolham o local onde pretendem dar seguimento. Deve descentralizar iniciativas e actividades, sendo, na minha opinião, mais eficiente se houver formação dos clubes, agentes desportivos e entidades, para saber como se realiza um projecto desportivo, recolher fundos, gerir os sempre escassos recursos. Dar ferramentas e não receitas.

Perfil. Rui Lança nasceu em Outubro de 1977 em Lisboa. Apesar de ser ainda bastante jovem, ostenta um currículo impressionante na área do Desporto. Fez a sua licenciatura em Ciências do Desporto e tornou-se mestre em Gestão do Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Actualmente desempenha as funções de chefe da Divisão de Desporto do Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (Inatel), cargo que durante o ano de 2004 acumulou com o de gestor do Parque de Jogos 1º de Maio, localizado também na capital e detido pelo instituto. Em paralelo, Rui Lança é igualmente professor universitário na área da Gestão Desportiva e do Lazer na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, além de nos últimos anos se ter dedicado, através da frequência de inúmeros seminários e acções, em Portugal e no estrangeiro, à profissão de facilitador e trainer na Internacional Sport and Culture Association, sendo ainda membro do comité jovem do Internacional Sport and Culture Association (ISCA). No início da sua vida profissional, Rui Lança leccionou a disciplina de Educação Física e, como animador, trabalhou com jovens em projectos de reabilitação e de reinserção social. Actualmente está envolvido com programas de desenvolvimento de competências para jovens e adultos. É autor de dois livros sobre a temática da Gestão do Desporto, publicados pela Editora Caminho no âmbito da sua Colecção Desporto e Tempos Livres, estando também a preparar um “projecto inovador” na área da aprendizagem experimental/facilitação, cujo documento orientador terá a colaboração de Jorge Araújo, ex-treinador de basquetebol do Futebol Clube do Porto.

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