terça-feira, 19 de agosto de 2008

Super Mário!

Vi-o pela primeira vez há cerca de um ano, na redacção do jornal «O Primeiro de Janeiro», entretanto extinto. Estava sentado na Paginação, a dois passos de onde me encontrava, com um ar sério e compenetrado, perscrutando quase avidamente as imagens que saltavam do ecrã do computador. Perguntei quem era, e disseram-me apenas que era “o arquitecto”. Não entendi bem o que fazia um arquitecto nas instalações de um jornal que há décadas prometia novas instalações, se não estava de papel e lápis na mão, a projectar escadarias e novas paredes, mas explicaram-me depois que o arquitecto ia afinal conceber o grafismo do novo “Artes” (era assim que chamávamos ao «Das Artes das Letras», o suplemento cultural do centenário mais tarde transformado em pasquim).
Hoje, tantos meses volvidos, o arquitecto já tem nome, e tornou-se uma referência para todos aqueles que mais directamente puderam privar com ele, um lote em que orgulhosamente me incluo. Mário João Mesquita é “o” Mário, o “arquitecto da luta”, como já foi chamado neste espaço, porque esteve connosco, ainda antes do último dia, em todos os momentos do lamentável desfile de ilegalidades que culminou na dissolução da redacção e na condenação de mais de três dezenas de pessoas ao desemprego. Ontem, o Mário lançou aos camaradas de luta um convite, e alguns aceitaram-no. Fomos, ao final da tarde de hoje, ver uma exposição de fotografia do nosso arquitecto. «De um chão nosso», assim se chama a iniciativa, estará patente até ao dia 2 de Novembro na Sala Aurélio da Paz dos Reis do Centro Português de Fotografia, no Porto.
São 80 fotografias obtidas no âmbito de “um inquérito sobre o património edificado num conjunto abrangente de aldeias que, dispersas no território duriense, formam entre si uma rede com significado, sentido e conteúdo identitário”, como explicou o Mário, que contou com a participação de Sónia Pinto Basto neste projecto. Na nota de apresentação da exposição, o Mário refere que este é um trabalho que pretende “registar e fixar em suporte fotográfico sítios, percursos, edifícios e conjuntos edificados mais ou menos anónimos, mais ou menos chãos, descendo à escala dos materiais e dos pormenores, contribuindo para a valorização dos contextos das comunidades em torno do Vale do Douro”.
Eu, que passei os olhos pelas imagens, ainda que apenas por breves instantes, ao final da tarde de hoje, posso dizer que são fabulosas. A dimensão humana conjuga-se com as pedras, o verde da Natureza, os reflexos da água dos rios, e consegue transportar-nos para o mundo mágico e sereno que apenas é possível, ainda, nas aldeias mais recônditas. O homem que dobra uma esquina na companhia do burro, os detalhes arquitectónicos da pedra que casa com a madeira e com os homens e as mulheres que ali vivem, as árvores que se reflectem nas águas (e aquelas fotos deitadas no chão dão mesmo vontade de molhar o pezito!), tudo nesta exposição é impregnado de beleza e de sensibilidade. Parabéns, Mário! Obrigada pelo convite, pelo outro convite, pela lembrança e pelo sorriso que soa sempre a um abraço. Um beijinho à esposa, que é também uma querida.
Mário João Freitas Mesquita nasceu em 1971 no Porto. Arquitecto, licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e mestre em Planeamento e Projecto do Ambiente Urbano pela mesma instituição, exerce naquela instituição, desde então, a função de docente da Cadeira de Projecto. No âmbito dos estudos conducentes à apresentação de tese de doutoramento em Projecto e História da Cidade é autor de vários trabalhos publicados em exposições e livros.
No meio de um momento que era dele e só dele, por ser dele o talento que emprestou às imagens que nos deliciaram, e que por momentos nos fizeram esquecer as agruras dos 19 dias anteriores, o Mário falou de nós. Falou do «Janeiro» – aquele que já não existe – que era um dos apoios da iniciativa, mas falou sobretudo da indignidade do que nos fez a administração desse outrora jornal. O Mário recusou vender a alma ao Diabo (sim, interpretem isto como quiserem), e num momento que era dele, passou algum do protagonismo para os camaradas que conheceu na fétida redacção de Coelho Neto. Por tudo o que nos ensinaste, Mário, e por tudo o que mostraste ser nestes dias, sobretudo pela força de carácter e pela força, força apenas, que emana de cada sorriso teu, obrigada. Se antes valia para alguns, hoje vale para todos os “bravos”: és e serás sempre um de nós. E na aparente singeleza destas palavras reside o essencial que todos procuramos. És um amigo. E os amigos são tesouros que estão mesmo ali, à mão. Obrigada.

1 comentário:

  1. É bom saber que o Mário, que foi meu colega de 86 a 88 da Escola Soares dos Reis, continua a contagiar essa imagem.

    Luís Filipe Rodrigues

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