É tão comum como irritante a confusão que muitas pessoas fazem entre os conceitos de “cultura”, “inteligência” e “excelência”, como se fossem uma e a mesma coisa, e como se o facto de qualquer humano ter um canudo fizesse dele um ser acima da média. Uma das pessoas mais cultas que tive o prazer e a honra de conhecer foi o meu avô paterno. Não teria mais do que três ou quatro anos de escolaridade, como era usual no tempo dele, e era, na minha infância, chefe dos inspectores da STCP. Nunca foi doutor, engenheiro, arquitecto ou coisa que o valha, mas fazia das leituras o hábito da sua vida e investigar era a sua paixão. Tinha uma biblioteca imensa, com livros de todos os temas, feitios, cores e tamanhos, quase todos com anotações e actualizações feitas a lápis, e sempre que se discutia um assunto ele puxava de um deles para justificar as suas posições. Não havia muitas (não recordo uma só) perguntas que o meu avô deixasse sem resposta, e lembro-me de como me ajudou, tantas vezes, em trabalhos para a escola. Quando entrei na universidade (fui a primeira na minha família), o meu avô não cabia em si de contente. Levou-me, e ao meu pai, para a matrícula, em Braga (naquele tempo não havia Comunicação Social ou curso similar na Universidade do Porto, e as universidades privadas não me interessavam), e nesse dia estipulou uma mesada para me ajudar nos estudos. No primeiro dia de cada mês, ligava-me a saber quando podia ir lá a casa buscar o dinheiro. Infelizmente, o meu avô não viveu o suficiente para me ver iniciar uma carreira no Jornalismo (e a acabá-la da forma como sabem já os meus despenteados amigos). O segundo de dois enfartes que sofreu no espaço de pouco mais de seis anos levou-mo na altura em que começávamos a conhecer-nos melhor.Tenho saudades do meu avô! Mas sei que herdei esse gene que nos predispõe para a busca do saber. A curiosidade que nos empurra para o conhecimento. Nunca serei alguém tão acima da média como ele foi no seu tempo, mas sei que, onde está agora, terá orgulho em saber que procuro seguir-lhe os passos e deixar neste mundo, quando me for, uma marca em quem me conhecer. Senão pela cultura, pelo conhecimento, pela agilidade de raciocínio, ao menos pela sede de aprender, pela abertura a novos ensinamentos, pela vontade de investigar. Por isso me causa algum mal-estar a forma como as pessoas de hoje vêem a inteligência. Para a maioria, é culto e inteligente apenas quem tirou um curso superior, mesmo que saiba apenas falar disso e não acrescente nada ao quotidiano daqueles com quem priva. Mesmo que dê erros quando usa a língua materna, mesmo que não saiba quem foi o primeiro rei de Portugal – ou o sétimo –, e que não seja capaz de sair com rapidez e graciosidade de um qualquer problema do quotidiano. Também por isso me aborrece a importância que dão certas pessoas aos títulos de doutor (só é doutor quem tem um doutoramento, muito menos gente do que a que abusivamente usa o epíteto), engenheiro, arquitecto ou palhaço (estes são mais vulgares)… O caso mais mediático dos últimos tempos terá a ver com o nosso primeiro-ministro. É ou não é José Sócrates engenheiro? Mas será engenheiro de facto, ou apenas engenheiro técnico? E o que é que isso importa a quem só deve interessar o contributo que este homem terá para dar ao país?! Será que só tendo um curso é que as pessoas têm valor? Será que só nessa situação poderão ajudar na construção de um futuro melhor para os seus semelhantes? Pensei que, mais importante do que tudo isso fosse o genuíno empenho no que se faz, a vontade de empurrar o país para a frente, essa sede de saber e os meios para agir. O meu avô teria sido um excelente chefe de Governo, acreditem ou não!
:( i miss grandpa..
ResponderEliminarA tua carreia de Jornalistas não acabou. O que está a acabar é o Jornalismo como nós o entendemos. De qualquer modo, até por este texto, se vê que não adianta fechares o Jornalismo numa qualquer gaveta. Felizmente que ele está bem vivo em ti e, por isso, será eterno. Tão eterno que nem os que para contarem até 12 têm de se descalçar, e que hoje estão no comando das fábricas de produção de textos de linha branca, o conseguirão matar.
ResponderEliminarBjs.
Alto Hama
Há uma imprecisão no seu texto: "(...)a matrícula, em Braga (naquele tempo não havia Comunicação Social ou curso similar no Porto (...)".
ResponderEliminarA Escola Superior de Jornalismo existia desde 1985 /86, pelo que no Porto havia, efectivamente, um curso de comunicação social.
Cara Isa,
ResponderEliminarNão se trata de uma imprecisão. A Escola Superior de Jornalismo era uma instituição privada e eu tinha média para as públicas e eram as públicas que me interessavam. Como tal concorri para Braga, e foi em Braga que frequentei o curso. De qualquer modo, obrigada pelo teu comentário. Farei a devida ressalva no meu texto. Até sempre.