quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ano novo, coisas velhas...

O ano pode ser novo, mas a vida é feita de ciclos que se repetem inexoravelmente, sem que nada os impeça de trucidar tudo à volta, na vertigem demolidora da contemporaneidade. Pode mudar a folha do calendário, o dia da semana, a posição dos ponteiros do relógio, mas todos os acontecimentos se conjugam para, reiteradamente, voltarem a ser actuais. Ciclicamente, o mundo repete-se, e as coisas, os momentos, as pessoas, voltam a ser, talvez com outros nomes, noutros cenários, aquilo que já tinham sido. Lavoisier é que tinha razão: “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. O início deste ano demonstra-o claramente: não se perdeu a crise, não se criou qualquer resposta, e apenas mudaram os nomes dos intervenientes.
Mudam os nomes das empresas, mas continua a haver trabalhadores despedidos. E aos montes. Em grupo. Mudam os rostos dos que protestam, as vozes dos que defendem direitos próprios e alheios, mudam as cores das bandeiras, mas a indefinição persiste. Os gritos surdos, a revolta encapotada, o desvario de quem sabe que já não pode piorar muito. A notícia de que o Grupo Controlinveste está a proceder ao despedimento colectivo de mais de uma centena de pessoas deixou-me com os nervos em franja. Será que ninguém está a salvo? Haverá alguma empresa portuguesa que consiga manter-se de pé, firme e hirta, contra a crise? Bem sei que a Comunicação Social não é a única área afectada pela crise. Antes fosse! Bem estava o mundo se houvesse apenas jornais a fechar portas e a despedir pessoas! Mas há mais. Muito mais. E quando vemos um grupo como a Controlinveste enveredar por esse caminho, então percebemos que a situação é grave.
Nos tempos em que trabalhei no «Jornal de Notícias» era impensável que a crise tocasse, mesmo que ao de leve, aquela casa. Não havia falta de dinheiro. Havia, provavelmente, excesso de gente. Uma redacção que metia num bolso todas as que conheci depois, onde não faltavam rostos, vozes, sons, equipamentos e vontade de trabalhar. Éramos muitos, mas nunca sentíamos que alguém estivesse a mais. E quando saíamos em reportagem, não nos faltava o carro – com motorista – e o necessário fundo de maneio para o serviço. Dava gosto trabalhar assim, sem restrições de meios. As empresas que conheci depois, e foram várias as empresas em que trabalhei, em simultâneo e depois do JN, não viviam com tanta prosperidade. O dinheiro era contado, as reportagens eram feitas a pé, em viatura própria ou no carro do patrão, e às vezes faltava até dinheiro para pilhas. Era uma aventura.
No entanto, em nenhuma dessas empresas fui despedida (e naquela em que fui, aquela de que jurei não mais falar, sabeis bem as razões por que fui e sabeis bem de que lado está a razão). Hoje soube que «Jornal de Notícias», «Diário de Notícias», «24 Horas» (redacção onde ainda recentemente tive o prazer de reencontrar amigos, enquanto colaborei com o também já extinto «Tal & Qual», que era ali ao lado), «O Jogo» e TSF estão a dizer adeus a alguns dos seus funcionários. Mais de uma centena de trabalhadores, metade dos quais jornalistas. Mais cento e tal almas atiradas para o desespero de ter contas para pagar com dinheiro que não estica! Um dia depois de saber que foi declarada em tribunal a solvência da empresa que me despediu ilegalmente, em conjunto com mais de 30 camaradas, que me deve dinheiro, que finge não ter bens e que até tem morada falsa, e de saber que nada poderei exigir a quem alegadamente nada tem, recebo a notícia de que mais uns quantos vêm para a rua. Só espero que estes não experimentem o sabor amargo de quem anos a fio se deu a um ideal, e depois acabou descalço, podendo contar apenas com a sua dignidade.

Aos camaradas que hoje receberam a triste notícia de que serão despedidos quero deixar um abraço solidário, e a certeza de que mudam os anos, mas não muda mais nada. A m… é sempre a mesma, as moscas é que são diferentes.

Coragem!
Boa noite, e boa sorte!

3 comentários:

  1. Obrigada pelas palavras. O me conforta é saber que ainda me vou rir de quem hoje se ri de mim.

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  2. Pedro,

    Não sei se alguém se ri de ti neste momento, mas sei que, sendo tu como és, hás-de rir-te desses que se riem de ti e de muitos outros também. Não é tão mau como parece, acredita. Espera e confia. Há uma luz no teu caminho, porque tu mereces! Beijo

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