segunda-feira, 11 de maio de 2009

"A cidade das aldeias", by Mário Mesquita

aqui vos falei do Mário. O “Super Mário”, que num dos momentos mais conturbados da vida de um grupo de pessoas que começaram por ser colegas e depois se tornaram amigas, se destacou pela generosidade de um gesto. O Mário tem patente uma nova exposição, e é em honra dele que aqui vos deixo o texto de apresentação da mesma, com a certeza – e a promessa – de que, assim que puder, também lá darei um salto. A exposição está patente no Centro Português de Fotografia (Sala Aurélio da Paz dos Reis), na cidade do Porto, até ao próximo dia 28 de Junho de 2009. Apareçam, que o autor merece! Ao grande Mário, o abraço do costume! Até breve!


“A Cidade das Aldeias
– Traços de ruralidade no Porto contemporâneo”

O presente trabalho, realizado sob a forma de reportagem fotográfica e vídeo, visa possibilitar a leitura do que subsiste dos antigos Lugares da cidade do Porto e dos caminhos entre eles, registando e divulgando o que ainda hoje se pode observar, revelador de uma forma de assentamento e formação de território, de construção e de vivência de uma outra cidade, a cidade das aldeias, que corre o sério risco de ser literalmente engolida pela velocidade desenfreada própria dos dias em que vivemos, resultado das dinâmicas de desestruturação urbana e social que, infelizmente, vão esquecendo estes espaços, as suas gentes e os conjuntos edificados.

Comparando a planta da cidade do Porto desenhada sob a direcção de Augusto Teles Ferreira e impressa no ano de 1892 com a cidade actual verificamos que, ainda hoje, subsiste uma substrutura rural que, à época, constituía uma rede de caminhos e lugares exteriores ao centro urbano em processo de consolidação. Esses lugares, aquando da delimitação administrativa da cidade ocorrida no final do século XIX, seriam integrados no perímetro urbano, ficando a Estrada de Circunvalação como linha de fronteira da nova cidade que acolhia no seu interior um conjunto de lugares e de freguesias novas, incorporava áreas de freguesias vizinhas e deixava de fora algumas parcelas de terreno, que, embora pertencentes ao concelho, sempre foram consideradas exteriores à cidade que se havia circunvalado.

Pela imagem, pretende-se tornar pública essa outra cidade que abrange, na área geográfica do concelho do Porto, núcleos como Pinheiro de Campanha, S. Pedro, Azevedo, Areias, Contumil, Pego Negro, Granja, Vila Cova, Campo, Aldeia Nova do Monte, Fojo, Águas Férreas, Outeiro do Tine, Aval de Baixo, Ramalde do Meio, Vilanova de Cima, Furamontes, Ribeirinho, Campinas, Arrábida, Olivais, entre muitos outros lugares que nos vão falando de percursos, de espaços, de construções e de gentes.

O sentimento de viver periférico, presente nos lugares visitados, poderá, um dia, vir final e felizmente a desaparecer e dar lugar a uma realidade policêntrica, assente em contínuos de território, o qual, ligado por redes e canais, será capaz de unir e esbater as sensações de dentro e fora, contribuindo para minimizar a sensação de centro e periferia, quer no plano físico quer no plano das mentalidades e sentimentos, consolidando e dando espessura ao tecido urbano. Assim, as redes vão-nos ligar os pontos e os canais vão-nos traçar as rectas e articular a sobreposição das redes, cosendo-as ao concelho ao qual pertencem e aos concelhos limítrofes, promovendo um tecido forte e coeso, permitindo que não sejam áreas conflituantes, mas sim conjugadas e convergentes num só objectivo: a ampliação da cidadania e a gestão participada do território municipal pelas populações, comprometendo todos num esforço unitário, em busca de uma estrutura onde todos tenham lugar.

Este é um trabalho de recolha e fixação de imagens e ambientes que se formalizam num documento visual unitário, contributo para que a memória do território, das construções e das pessoas que o foram fazendo, não se perca no tempo. É um registo fotográfico que permite pensar que, numa cidade equilibrada, esta diversidade de ocupação do solo ajuda a qualificar o ambiente urbano, oferecendo a leitura de várias épocas históricas, de vários tempos, de vidas que podem, trinta e cinco anos passados sobre o 25 de Abril, se todos quisermos, coexistir em harmonia, derrubando a última muralha desta cidade e pensar, quando falamos de Área Metropolitana do Porto, mais do que na metropolitanidade, na rur-urbanidade.

E é um sentimento que defino assim:


I
Sobretudo o tempo,
somente as horas,
decerto os dias não serão mais
iguais sem ti.

Na rota das imagens,
procurando no espaço,
decerto te não verei mais
para além da curva da estrada.

No entanto, à sombra dos dias que,
docemente, visitamos por aí,
por certo fica o terno e doce sentimento de amor eterno.

II
Para hoje não há poemas
possíveis. Só as letras das palavras.

Para hoje, não há poemas.
Possíveis, só as letras das palavras.

Para hoje não há. Poemas
possíveis? Só as letras das palavras.

Para hoje não. Há poemas?
Possíveis só. As letras das palavras.

Para hoje? Não! Há Poemas
possíveis? Só as letras das palavras.

E as imagens.

III
E então, da estrangulada perspectiva
do horizonte nos resta a imensidão
dessas palavras de que falávamos atrás,
dos gestos e olhares que combinavam
somente para ser dia, decerto para ser nosso.

E então, por entre as cordas da amizade,
perpassa essa luz aberta que nos faz viver
regulando contrastes
e nos conduz
e nos desvia,
e nos seduz,
sempre que pensamos cidade,
liberdade.


Mário João Mesquita
Porto, 25 de Abril de 2009

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