Quem me conhece
relativamente bem sabe que adoro política, mas que não sou de alinhar em
rebanhos e carneirismos. Não gosto de partidos. Aprecio as pessoas que pensam
pelas suas cabeças e orgulho-me de, para o bem e para o mal, ser uma dessas
pessoas. Mas quem me conhece sabe o que penso de José Sócrates: acho que o
actual secretário-geral do PS foi, no seu primeiro mandato em S. Bento, o
melhor primeiro-ministro que Portugal já conheceu, e que no segundo mandato
meteu, e muito, os pés pelas mãos.
O governo foi
apanhado na curva pela complexa conjuntura internacional e não soube dar-lhe a
volta, e quando se viu na iminência de ter de cortar, cortou em quase tudo
aquilo em que não devia ter mexido, deixando intacto quase tudo o que deveria
ter sido cortado. E aí cavou a sua própria sepultura. José Sócrates apresentou
a sua demissão. Não caiu, ao contrário do que vaticinavam alguns arautos da
desgraça. Atirou-se do barco abaixo, e a meu ver teve razões para o fazer. Se
tinha o quarto PEC como algo essencial para a sua continuidade em funções,
obviamente não poderia continuar a governar sem ele.
Mas desenganem-se os
que acreditam que a demissão do actual primeiro-ministro abre a porta à
resolução dos problemas do país. Pelo contrário! A porta aberta hoje serve
apenas para deixar entrar – e com convite de toda a oposição – a mão severa do
FMI e da Europa. O novo PEC agora chumbado no Parlamento será executado, quiçá
até em moldes mais exigentes, pelos senhores do dinheiro na União Europeia. Se
andavam “nervosos”, os mercados vão agora explodir de ansiedade e desconfiança,
e a economia portuguesa vai sofrer com isso mais do que tem sofrido até agora.
A dita “alternativa”
de governo (leia-se o PSD, porque espero que, finalmente e de uma vez por
todas, o oportunista CDS de Paulo Portas leve o pontapé que merece) não é
alternativa alguma. É mais do mesmo, sem tirar nem pôr. Desde logo porque tenho
fortes dúvidas de que Pedro Passos Coelho consiga segurar a presidência do
partido até ao dia das próximas eleições legislativas. São muitos os abutres
que sobrevoam a sua cadeira. Além disso, se por um acaso o actual líder
social-democrata lá chegar, duvido de que seja capaz de fazer melhor do que fez
José Sócrates. Não por incapacidade pessoal, obviamente, mas porque a
conjuntura é cada vez mais negra.
Acredito que haja
muita gente a bater palmas. A celebrar com espumante e champanhe a demissão de
Sócrates. Só gostava de poder perguntar-lhes o que esperam do futuro mais
próximo, e de que forma acreditam que a crise política agora criada poderá
ajudar Portugal. E espero que daqui a três ou seis meses não estejam a chorar.

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