quarta-feira, 23 de março de 2011

Aos que celebram a "queda" do Governo...



Quem me conhece relativamente bem sabe que adoro política, mas que não sou de alinhar em rebanhos e carneirismos. Não gosto de partidos. Aprecio as pessoas que pensam pelas suas cabeças e orgulho-me de, para o bem e para o mal, ser uma dessas pessoas. Mas quem me conhece sabe o que penso de José Sócrates: acho que o actual secretário-geral do PS foi, no seu primeiro mandato em S. Bento, o melhor primeiro-ministro que Portugal já conheceu, e que no segundo mandato meteu, e muito, os pés pelas mãos.

O governo foi apanhado na curva pela complexa conjuntura internacional e não soube dar-lhe a volta, e quando se viu na iminência de ter de cortar, cortou em quase tudo aquilo em que não devia ter mexido, deixando intacto quase tudo o que deveria ter sido cortado. E aí cavou a sua própria sepultura. José Sócrates apresentou a sua demissão. Não caiu, ao contrário do que vaticinavam alguns arautos da desgraça. Atirou-se do barco abaixo, e a meu ver teve razões para o fazer. Se tinha o quarto PEC como algo essencial para a sua continuidade em funções, obviamente não poderia continuar a governar sem ele.

Mas desenganem-se os que acreditam que a demissão do actual primeiro-ministro abre a porta à resolução dos problemas do país. Pelo contrário! A porta aberta hoje serve apenas para deixar entrar – e com convite de toda a oposição – a mão severa do FMI e da Europa. O novo PEC agora chumbado no Parlamento será executado, quiçá até em moldes mais exigentes, pelos senhores do dinheiro na União Europeia. Se andavam “nervosos”, os mercados vão agora explodir de ansiedade e desconfiança, e a economia portuguesa vai sofrer com isso mais do que tem sofrido até agora.

A dita “alternativa” de governo (leia-se o PSD, porque espero que, finalmente e de uma vez por todas, o oportunista CDS de Paulo Portas leve o pontapé que merece) não é alternativa alguma. É mais do mesmo, sem tirar nem pôr. Desde logo porque tenho fortes dúvidas de que Pedro Passos Coelho consiga segurar a presidência do partido até ao dia das próximas eleições legislativas. São muitos os abutres que sobrevoam a sua cadeira. Além disso, se por um acaso o actual líder social-democrata lá chegar, duvido de que seja capaz de fazer melhor do que fez José Sócrates. Não por incapacidade pessoal, obviamente, mas porque a conjuntura é cada vez mais negra.

Acredito que haja muita gente a bater palmas. A celebrar com espumante e champanhe a demissão de Sócrates. Só gostava de poder perguntar-lhes o que esperam do futuro mais próximo, e de que forma acreditam que a crise política agora criada poderá ajudar Portugal. E espero que daqui a três ou seis meses não estejam a chorar.

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