Ouvir dizer que há
em Portugal empresas de transportes que estão a passar por enormes dificuldades
e que, na iminência do caos, temem deixar de ter dinheiro para pagar salários a
curto prazo, é algo que me causa alguma urticária, nomeadamente porque uma
dessas empresas é a REFER, a que, por questões familiares, estou ligada.
Desconheço a
situação da empresa do Metro em Lisboa, e sobre a CP não sei também muito, mas
na REFER posso garantir que há muita coisa a funcionar mal e que, se a empresa
dá prejuízo, isso nada tem a ver com a acção dos seus trabalhadores, pelo menos
dos que não ocupam cargos de gestão e chefia. No entanto, garantida e
lamentavelmente, serão esses os primeiros a ser chamados para pagar a factura!
Separadas há pouco
mais de uma década, a REFER e a CP podem agora voltar a juntar-se numa só
entidade pública, segundo me garantem fontes bem informadas. Claro que isso
atirará para o desemprego algumas centenas de pessoas, invariavelmente dos índices
remuneratórios mais baixos, já que os gestores e seus apaniguados facilmente
encontrarão pouso num outro ramo da enorme árvore que é o Estado. Para esses,
todos sabemos, não há razões de alarme. Pior estão os outros, claro!
Diante da clara
necessidade de cortar nas despesas, fala-se da “dificuldade em pagar salários”.
Não se fala dos desperdícios nem dos abusos cometidos por alguns funcionários
da gama alta. Não se fala dos horários mal feitos, das horas extraordinárias
perfeitamente desnecessárias ou das pernoitas sem sentido pagas a alguns
funcionários impedidos de voltar a casa pela inexistência de comboios nas horas
em que precisam deles. Não se fala também do abandono a que estão votadas
algumas linhas, sem oferta de transportes digna desse nome e onde uma greve que
dura desde Fevereiro – que todos os dias, a todas as horas, se repercute nas
vidas de centenas ou milhares de pessoas – não é sequer alvo de notícia ou do
interesse dos media, porque, segundo me disseram também, “não convém falar
nesse assunto”.
Não se fala igualmente
das despesas absurdas com festas e almoços medíocres pagos a peso de ouro (como
a célebre festa de Natal realizada há uns anos na Feira Internacional de Lisboa,
que terá representado um custo de aproximadamente 80 euros por funcionário ou
familiar presente, apesar do menu perfeitamente miserável que foi servido).
Não se fala ainda de
adjudicações a empresas externas de serviços perfeitamente banais a preços que
envergonham o comum dos mortais: sei que há uns anos, numa estação da Linha do
Norte foi adjudicada a uma empresa externa uma “empreitada” que consistia na mudança
de uma lâmpada, e que custou aos cofres da empresa quase 100 euros, da mesma
forma que, num arranjo necessário na escadaria automática da Estação de Aveiro,
foi chamada uma equipa de intervenção em que um funcionário trabalhava e outros
cinco observavam o seu desempenho! Isto diante de centenas de passageiros que
por ali passavam, atónitos com o espectáculo!
De nada disto se
fala quando se fala da REFER. Da mesma forma que também não se fala dos
ordenados perfeitamente obscenos auferidos pela meia dúzia de cabeças pensantes
responsáveis por este triste cenário. Fala-se, obviamente, de despedir gente.
Gente que é gente, que tem família para sustentar, que cumpre o seu dever, que
está disponível para o trabalho no seu horário e, muitas vezes, nas suas folgas
(sim, é verdade), sistematicamente cortadas no interesse da empresa. Disto
ninguém fala! E até aposto que, na hora de decidir quem serão os “premiados”
com o despedimento, a entrega e o desempenho exemplar de alguns funcionários
será critério pouco relevante. Isso é que me deixa realmente furiosa!

muito bom
ResponderEliminaré pura realidade deste país cheio de corruptos
parabéns