quarta-feira, 23 de março de 2011

As "dificuldades financeiras" da REFER...


Ouvir dizer que há em Portugal empresas de transportes que estão a passar por enormes dificuldades e que, na iminência do caos, temem deixar de ter dinheiro para pagar salários a curto prazo, é algo que me causa alguma urticária, nomeadamente porque uma dessas empresas é a REFER, a que, por questões familiares, estou ligada.

Desconheço a situação da empresa do Metro em Lisboa, e sobre a CP não sei também muito, mas na REFER posso garantir que há muita coisa a funcionar mal e que, se a empresa dá prejuízo, isso nada tem a ver com a acção dos seus trabalhadores, pelo menos dos que não ocupam cargos de gestão e chefia. No entanto, garantida e lamentavelmente, serão esses os primeiros a ser chamados para pagar a factura!

Separadas há pouco mais de uma década, a REFER e a CP podem agora voltar a juntar-se numa só entidade pública, segundo me garantem fontes bem informadas. Claro que isso atirará para o desemprego algumas centenas de pessoas, invariavelmente dos índices remuneratórios mais baixos, já que os gestores e seus apaniguados facilmente encontrarão pouso num outro ramo da enorme árvore que é o Estado. Para esses, todos sabemos, não há razões de alarme. Pior estão os outros, claro!

Diante da clara necessidade de cortar nas despesas, fala-se da “dificuldade em pagar salários”. Não se fala dos desperdícios nem dos abusos cometidos por alguns funcionários da gama alta. Não se fala dos horários mal feitos, das horas extraordinárias perfeitamente desnecessárias ou das pernoitas sem sentido pagas a alguns funcionários impedidos de voltar a casa pela inexistência de comboios nas horas em que precisam deles. Não se fala também do abandono a que estão votadas algumas linhas, sem oferta de transportes digna desse nome e onde uma greve que dura desde Fevereiro – que todos os dias, a todas as horas, se repercute nas vidas de centenas ou milhares de pessoas – não é sequer alvo de notícia ou do interesse dos media, porque, segundo me disseram também, “não convém falar nesse assunto”.

Não se fala igualmente das despesas absurdas com festas e almoços medíocres pagos a peso de ouro (como a célebre festa de Natal realizada há uns anos na Feira Internacional de Lisboa, que terá representado um custo de aproximadamente 80 euros por funcionário ou familiar presente, apesar do menu perfeitamente miserável que foi servido).

Não se fala ainda de adjudicações a empresas externas de serviços perfeitamente banais a preços que envergonham o comum dos mortais: sei que há uns anos, numa estação da Linha do Norte foi adjudicada a uma empresa externa uma “empreitada” que consistia na mudança de uma lâmpada, e que custou aos cofres da empresa quase 100 euros, da mesma forma que, num arranjo necessário na escadaria automática da Estação de Aveiro, foi chamada uma equipa de intervenção em que um funcionário trabalhava e outros cinco observavam o seu desempenho! Isto diante de centenas de passageiros que por ali passavam, atónitos com o espectáculo!

De nada disto se fala quando se fala da REFER. Da mesma forma que também não se fala dos ordenados perfeitamente obscenos auferidos pela meia dúzia de cabeças pensantes responsáveis por este triste cenário. Fala-se, obviamente, de despedir gente. Gente que é gente, que tem família para sustentar, que cumpre o seu dever, que está disponível para o trabalho no seu horário e, muitas vezes, nas suas folgas (sim, é verdade), sistematicamente cortadas no interesse da empresa. Disto ninguém fala! E até aposto que, na hora de decidir quem serão os “premiados” com o despedimento, a entrega e o desempenho exemplar de alguns funcionários será critério pouco relevante. Isso é que me deixa realmente furiosa!

1 comentário:

  1. muito bom
    é pura realidade deste país cheio de corruptos

    parabéns

    ResponderEliminar