Irrita-me um bocado - para não dizer pior - a mania que muita gente tem, e em Portugal são mesmo muitos os que assim pensam, de valorizar as outras pessoas pelos títulos académicos ou pela falta deles. Para essa gente, um médico, um engenheiro ou um arquitecto serão sempre gente fina, "culta" (como se a cultura viesse com o diploma), a quem estendem a passadeira vermelha do graxismo e da admiração idiota, enquanto um serralheiro, um mecânico, um pedreiro ou uma mulher de limpeza serão sempre uma espécie de seres inferiores e decadentes. Irrita-me o facto de as pessoas não conseguirem ver além dos títulos, conseguidos muitas vezes quase sem se saber como, e desvalorizem sistemática e vergonhosamente, pessoas de enorme valor humano, simplesmente porque nunca puseram os pés numa universidade.
Para que conste, eu andei na universidade. Cinco longos anos. Não acabei o curso, porém (embora me falte apenas uma cadeira anual e duas semestrais), pelo que não sou - mesmo que o acabasse nunca seria - doutora. Não me causa esse aspecto grande mossa, porque sei que, com curso ou sem ele, há gente melhor e pior do que eu, independentemente de ser mais ou menos letrada do que eu. Aprendi a ler e a escrever com quatro anos e também não foi isso que me convenceu de que sou um génio. Sou, apenas, uma pessoa que tem facilidade em aprender, mas que a vida levou por um caminho diferente na fase final da licenciatura. Contudo, vejo todos os dias pessoas que, sem nunca terem frequentado uma universidade, valorizam nas outras pessoas essa frequência como se de um upgrade de qualidade humana se tratasse! E conheço tanta gente que, tendo torrado anos e anos no Ensino Superior, não dá uma para a caixa...
Vem isto a propósito de, há bocadinho, ter esbarrado num comentário no Facebook que falava de Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil que teve o honroso mérito de lançar a economia brasileira para um nível muito acima daquele que tinha quando tomou posse, como "um serralheiro". Como se ser serralheiro, ou ter sido serralheiro, fosse um estado embaraçoso ou uma doença contagiosa! Não vejo a relevância do facto de Lula ter sido serralheiro para o que ali se debatia, mas enfim... há pessoas que, quando alguém aponta para a Lua, insistem em ver apenas um dedo...

Não confunda e não se enerve por causa disso. Um serralheiro e um médico serão sempre humanos em igualdade de circunstancias. Mas falando de cultura, educação, existem diferenças bem notórias! Lula da Silva, fez o que você faria se tivesse tantos assessores como ele! E num País que Deus deu tudo quando o criou, menos uma mulher brasileira para o seu filho Jesus, não foi difícil recuperar uma economia de rastos. Note que mesmo antes, Brasil era a 8 economia mundial. Mas quer comparações, veja o percurso político do eletricista polaco Walesa. Quando saiu com uns vergonhosos 1% dos votos deixou o País em estado de coma. Portanto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Onde já ouvi isto?
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