Ainda ontem dei por mim a pensar na fragilidade da vida. Nessa mania que o ser humano tem de pensar que é forte, que domina tudo à sua volta, e que depois se desmente, no fio do tempo, em escassos segundos, quando chega a morte. Os últimos meses têm sido, para mim e para os meus, particularmente castigadores. Em menos de meio ano perdemos o meu pai, a minha tia preferida e três animais de estimação. Assim, quase de repente, e por motivos quase sempre surpreendentes, roubaram-nos cinco vidas, duas delas humanas, e roubaram-nos também a nossa, pelo sequestro da nossa alegria de viver. Ontem, sem uma razão além de todas as razões que o legitimam, dei por mim a pensar nisto. Em todas as perdas que sofri, e em como são enormes! Em como a vida é frágil, apesar de todos os dias querermos convencer-nos de que somos eternos, e apesar de todos os dias agirmos como se isso fosse verdade.
Ontem pensei muito nas pessoas que perdi, nestes últimos meses e em todo o tempo que ficou para trás. E foram muitas, e muito queridas. Pensei que eu mesma já passei por uma experiência de que julguei não ser possível voltar a este mundo. E pensei que não haveria razão para estar a pensar em tudo isto, assim de repente, mais do que tenho pensado. Mas ao fim do dia, de repente também, chegou a razão que parecia não existir. Talvez tenha sido o meu sexto sentido, que dizem ser muito apurado nas mulheres. Faltava pouco para a meia-noite quando recebi a notícia de que tinha falecido a Joaninha. A Joaninha era uma antiga colega de trabalho, que conheci numa empresa onde fiz muitos e bons amigos. Não era da minha secção e até trabalhava noutro andar, pelo que não era das pessoas que me eram mais próximas. Ainda assim, gostei dela. Era jovem, alegre, uma benfiquista ferrenha, amiga dos seus amigos e sempre muito divertida. Ontem partiu. Para sempre.
Tinha 32 anos. Nos últimos anos vivia longe, em Sintra. Deixa uma filha menor e, disseram-me ontem também, um noivo. Deixa uma família em desespero, e eu sei bem o que isso é. Deixa muitos amigos, deixa de certeza muitos projectos por realizar e muita vida por viver. Não é justo morrer aos 32 anos. Não é justo, dir-me-ão todos os que perdem alguém, que se morra em qualquer idade, quando se tem ainda tanto para viver e fazer. É verdade. Não há justiça nos critérios da morte, que de repente nos leva aqueles de quem gostamos, sem hipótese de recuo, sem esperança de um regresso. Não há justiça alguma na forma como a morte nos atira para um precipício sem fim, nos suga a alegria de viver e a sepulta ao lado dos que amamos. E se ontem dei por mim a pensar em tudo isto, e se ontem mais uma vez vi partir alguém de forma cruel, isso só reforça a enorme fragilidade da nossa vida.
Sei que a Joaninha viverá para sempre no coração daqueles que a amam, como o meu pai, a minha tia, todos os que perdi ao longo da vida viverão para sempre em mim, no meu coração e nas minhas memórias. Mas dói, e dói muito, a injustiça implacável da morte! Dói a despedida, a percepção inequívoca da nossa impotência, da nossa frustração. Dói a nossa pequenez. Há um buraco que se abre no peito, uma existência que perde sentido. O luto é agora a nossa casa, o lugar a que pertencemos. Que descansem em paz todos aqueles que amamos e que a morte reclamou nos seus braços. Nunca os esqueceremos. Estarão sempre presentes, na infinita dor da sua ausência. Deixo aqui sentidas condolências à família da Joana, à minha família, a todas as famílias enlutadas. Não lhes digo que têm de seguir em frente, porque nem eu encontrei ainda o meu caminho. Desejo-lhes paz, que é aquilo de que sinto mais falta.

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