Há coisas que me irritam profundamente nas pessoas (tantas, tantas coisas). Uma das mais importantes, das que me irritam mais, é aquela mania que as pessoas têm de julgar as outras apenas pela sua imagem, pelo aspecto exterior (bom ou mau), pelo que se apreende no imediato e sem qualquer esforço. Como se um livro mostrasse o que vale apenas pela capa (que até pode ser entregue a um designer manhoso, que nada tenha a ver com o promissor autor da obra, mas pronto...), e fosse indiferente, depois de apreciada essa capa, cada uma das palavras grafadas nas páginas que compõem a obra propriamente dita. Outra coisa que me irrita muito nas pessoas é a tendência para os eufemismos: se um amigo apresenta a outro uma mulher feia, ele diz que ela é "simpática" (que é o que se diz de quem não inspira nada melhor a dizer); se uma amiga corta o cabelo e fica a parecer uma esfregona, a outra diz-lhe que "não está mal, mas eu não era capaz de cortar assim"; se uma mulher é gorda, logo há quem se apresse a dizer que as "gordinhas" são mais felizes, porque comem tudo o que querem e não se reprimem pela ditadura da moda.
Alguns pontos prévios:
- Uma gorda é uma gorda. Não é gordinha, nem rechonchudinha, nem redondinha, nem cheinha (que é uma coisa que nem sei escrever). Acho execrável esta coisa dos "inhos", que me faz sempre pensar que é de uns coitadinhos que estamos a falar, quando há mulheres gordas lindíssimas e que, como mostra a imagem acima, até são mais interessantes para algumas pessoas;
- Não vejo por que carga de água é que alguém tem de explicar aos outros que gosta disto ou daquilo e, pior ainda, por que é que tem de perguntar se há um problema nisso. Cada um gosta do que gosta, e quem não gostar da pinga que faça o favor de mudar de tasco!
- É falso que alguém prefira as gordas, e percebe-se facilmente porquê: as gordas são exactamente iguais às magras, só que maiores. Como acontece nas magras, há nas gordas mulheres muito e pouco interessantes, há mulheres bonitas e feias, há mulheres com e sem carácter, há mulheres que cativam e mulheres que repelem. Mais do que uma imagem, a sensualidade é uma atitude, e há quem tenha e quem não tenha, seja de que tamanho for, a atitude que seduz e que conquista.
- Mas, mesmo que fosse possível a alguém afirmar que prefere as gordas, como se as preferisse a todas, sobre todas as magras, apenas porque são gordas, o simples facto de perguntar "qual é o problema?" dá-me urticária. Por que é que o facto de gostar de gordas tem de ser um problema, alguém me explica?!
Posto isto, convém esclarecer que, como pessoa gorda que sou, detesto que me chamem "gordinha", e que, como me disse um dia um amigo, me digam que é gira a forma como brinco com os meus defeitos. Tive de lhe explicar que ser gordo é apenas ser gordo. Aos gordos não falta nenhum braço, não falta nenhuma perna, não falta um olho ou um nariz, e não falta - pelo menos em maior proporção do que nos magros - um cérebro e uma capacidade de o usar. Da mesma forma, nem todas as pessoas que são gordas são gordas por comerem desalmadamente. Algumas têm problemas físicos, outras têm distúrbios mentais e alimentares, outras são apenas preguiçosas e despreocupadas, e outras há (pasmem os mais cépticos) que são felizes como são. Exactamente assim, com quilos a mais e com regueifas e estrias.
Da mesma forma que nem todos os magros são bonitos (há cabides com olhos que, a meu ver, são tão interessantes como uma minhoca num pacote de arroz), também nem todos os gordos são feios. Parem, por isso, de ter pena deles, e de os tratar como se fossem aberrações. Os gordos são pessoas. Os "gordinhos" só existem na cabeça das pessoas que têm medo de usar as palavras.Uma mesinha é uma mesa pequena, um cãozinho é um cão pequeno, uma camisolinha é uma camisola pequena, um carrinho é um carro pequeno. E uma gordinha, o que é? É uma gorda pequena? Não, pois não? É que gordas pequenas é coisa que nem existe, sendo "gorda" uma palavra que nos empurra logo para algo grande.
Dêem os nomes aos bois, meu povo! Deixem as gordas serem gordas, inteiras e grandes, e parem de usar eufemismos patetas! Até porque mais simpático para as gordas seria que parassem de lhes lembrar a toda a hora que são gordas, porque as gordas têm espelhos em casa e sabem disso. Chamar-lhes gordinhas não as diminui por magia, nem diminuiu o facto, incontornável, de serem o que são. Gordas.

Bate forte porque a verdade algum dia terá de ser branca como a neve.
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