Há uns anos, estava tranquilamente sentada numa esplanada em Madrid, quando uma mulher, vestida de negro e que parecia ter surgido do nada, me agarrou nas mãos para, disse ela, me ler a sina e ver o que o destino me reservava. Agarrou-me de tal maneira que não pude fugir, e nem adiantou dizer-lhe que não estava interessada em saber o meu futuro, que não ia pagar-lhe pelo “serviço” e que não queria que me agarrasse, porque a senhora além da extrema força de mãos parecia sofrer de surdez selectiva…
Disse-me, então, que eu tinha passado por um grande susto (é verdade que tinha estado à beira da morte pouco tempo antes, mas quem é que na vida nunca passou por um susto de qualquer tipo?!), que tinha uma amiga que tinha inveja de mim (rica amiga, não é? Ainda por cima burra! Inveja de mim por que carga de água?!) e que em breve seria mãe de uma menina (e esta sim, é uma mentira pegada). No fim ainda me exigiu 10 euros, que acabei por lhe entregar só para me ver livre dela, pois não me largava as mãos e não parava de falar um segundo que fosse. Antes de ir, deu-me uma pedra amarela e perguntou se a pessoa que estava comigo era o meu marido (sim, porque vidente que é vidente só vê coisas do além, e até àquele momento ela parecia nem ter dado conta da presença dele, sentadinho ali ao meu lado).
Alguns anos antes, por insistência de uma pessoa amiga que acreditava nessas coisas (acho que já não acredita…), fui a uma vidente. Queria essa minha amiga saber o que o futuro reservava a um dos seus filhos, que tinha deixado de ir à igreja e começado a namorar há pouco, e que não raras vezes gastava o que tinha e o que não tinha em copos, bares e noitadas com os amigos e que depois, quando bebia demasiado ou discutia com a namorada, chegava a casa mais bêbedo do que um cacho de uvas, discutia com toda a gente e partia tudo. O tal filho da minha amiga foi connosco à vidente e, mal entrou em casa da “senhora”, esta disse que não gostava de qualquer coisa no olhar dele. Deve ser comum nestas pessoas, porque sei que recentemente um turco voltou a dizer-lhe o mesmo.
A verdade é que, perante os interessantes argumentos da senhora, e das maluquices que dizia com o rosto mais sereno do mundo, não consegui nem por um segundo esconder a minha total incredulidade nos seus poderes. Eu e o filho da minha amiga, que acabámos a rir como doidos à porta da vidente, depois de ela nos ter expulsado da “sessão” para ficar apenas na companhia da mãe preocupada, a quem disse, soubemos depois, que o rapaz trazia “o diabo no corpo”. Se havia “solução” para o “problema” não sei. Desconheço o que disse e recomendou a vidente, já que a minha amiga, talvez agastada com a minha expulsão, me passou um ralhete daqueles e depois disso nunca mais me falou no assunto. Sei que o filho, hoje com quase 40 anos, continua a beber mais do que deve e a gastar o que tem e o que não tem.
Acreditar em “certas coisas”…
Há, contudo, muita gente que acredita nos poderes destas pessoas, e surpreendi-me há poucas semanas com uma amiga que me contou que tinha ido a um destes lugares para se aconselhar sobre o seu futuro, temendo que a futura sogra andasse a “fazer trabalhos” para lhe fazer a vida negra. Eu, que tirando o episódio narrado acima (e porque me pediram muito!), nunca fui além da leitura dos signos nos jornais, e mesmo assim só de vez em quando e sem confiança alguma na verdade da coisa (até porque já trabalhei em jornais e sei como são feitas aquelas previsões), fico verdadeiramente agastada com a forma como tantas pessoas se entregam a estas crenças e como se dispõem a fazer tudo ao seu alcance para garantir uma vida mais tranquila (acham elas) ou simplesmente apenas para “saber como vai ser”.
Acabo de ler na imprensa que uma senhora, empregada de limpeza em Ovar, terá entregado a uma suposta vidente as economias de uma vida inteira, além de todo o ouro que tinha em casa, para que esta a salvasse de um tumor maligno, que a própria lhe tinha “diagnosticado”, e para que lhe salvasse a filha de um acidente rodoviário fatal, coisas que lhes estariam reservadas por causa do mau-olhado dos vizinhos. Abordada à porta de um mercado, esta mulher deixou que a outra a acompanhasse até ao carro, onde a iludiu com uns truques de ilusionismo com um ovo e uma agulha, acabando depois por lhe revelar o destino negro que a esperava. Em desespero, a vítima foi a casa buscar o dinheiro (cerca de dois mil euros) e o ouro e entregou-lhe tudo.
A suposta médium e outra mulher que entretanto se tinha juntado a ela ausentaram-se então para “fazer o feitiço” que libertaria a senhora do tumor e a filha do acidente mortal, e só horas depois, quando as videntes não regressaram ao ponto de encontro marcado, é que percebeu que tinha sido burlada. “Acreditei que era mesmo alvo de mau-olhado, e quando me pediu para ir a casa buscar o dinheiro e o ouro que tinha, nem pensei e obedeci, porque só queria salvar a minha filha”, contou a vítima ao jornal «Correio da Manhã».
Pois é. Há muita gente que acredita nestas coisas, e muita gente que vive de enganar os outros e de lhes sacar tudo o que pode, tendo por base a fragilidade dessas vítimas e o seu desespero em momentos menos bons. A televisão portuguesa, que poderia ser um veículo de informação e de alerta face a estes burlões, é muitas vezes cúmplice do crime. A SIC, por exemplo, emite todas as manhãs um programa que, a meu ver, se enquadra claramente neste conceito de enganar os outros para lhes tirar dinheiro. Sucedendo naquele espaço de antena à famosa Maya, que trocou a estação de Carnaxide pela Correio da Manhã TV, “a sua conselheira espiritual e amiga”, como se define a figura que apresenta o dito programa, de seu nome Maria Helena Martins, surge no ecrã com um discurso de tal forma ensaiado que é sempre igual, e consegue levar ao desespero qualquer pessoa sensata e com dois dedos de testa que ouça o programa por mais de 30 segundos.
Revelando muitas vezes um desconhecimento profundo de matérias relevantes para responder de forma cabal às inquietações de quem a procura – e sabemos que nos tempos que correm não falta gente desesperada e a precisar de aconselhamento sério em Portugal –, a “bruxa da SIC” (é o que lhe chamamos cá em casa) manda e desmanda na vida dos outros, dá conselhos, orienta e desorienta o pensamento das pessoas, diz-lhes para largarem as empresas que criaram, como se fosse assim tão simples, os maridos e as mulheres, enfim… Quando a coisa é mais bicuda, faz a pergunta: “A minha querida acredita em certas coisas?”. A resposta é quase sempre afirmativa, e vai daí ela dispara logo: “Então vou mandar-lhe umas mezinhas, uns banhinhos para fazer em casa, e vai ver que isso desaparece tudo”. Pois…
Claro que lhes liga no dia seguinte, porque “toda a gente que tem uma consulta comigo aqui em directo depois tem outra pelo telefone”, e claro que é nesse telefonema do dia seguinte que a “doutora Maria Helena” tenta impingir aos incautos os seus serviços, os sais, os banhos e outras coisas que tais para resolver os problemas da malta e principalmente os dela, porque não faltará quem lhe pague mundos e fundos, como se viu no exemplo da senhora de Ovar.
O descaramento é tanto que mesmo quando o problema relatado pelo espectador ao telefone é um pouco mais melindroso, como uma doença grave, por exemplo, a senhora dá o dito pelo não dito, e sem ser capaz de responder concretamente à pergunta da pessoa (se vai ou não vencer o desafio e sobreviver), diz-lhe invariavelmente que vê “cartinhas muito boas”, e que elas lhe dizem que aquela pessoa “está a ser seguida por uma boa equipa de médicos”, e que “tem de fazer o que eles lhe dizem”. Ora, conselhos desses dava eu! Se tivesse lata, descontracção e falta de carácter suficientes para extorquir dinheiro aos crentes! E há tantos…

Falta de conhecimento nestas areas leva a estes resultados,
ResponderEliminarConcordo totalmente e não entendo como a Sic aceita bruxarias. Numa época de conhecimento como é possivel promover a ignorância!!!!!
ResponderEliminarConcordo. É inacreditável a forma como as televisões cedem espaço a este tipo de pessoas, que tudo o que fazem é aproveitar-se da ignorância e do desespero das pessoas...
EliminarConcordo totalmente e fico admirada como a Sic aceita bruxarias, mas estamos numa época do vale tudo. Eu vejo para me rir.....Aquelas frases lindas como "Abra a pestana", "Estou fresquinha que nem uma alface", etc etc. E depois são os cristais harmonizados que inibem o apetite, os amuletos, a canela e o acúcar tb harmonizados.....Enfim, há séculos atrás estariamos perante uma santa. E já agora tanta SANTA IGNORÂNCIA !!!!!!....
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