Um estudo concluído em 2013 pela brasileira Nívia Lanznaster Kuhn estabelece a existência de três fases nos relacionamentos amorosos, tendo em conta a percepção da individualidade dos envolvidos e a sua visão de conjunto em cada um desses momentos. Recorrendo ao trinómio de Dante (Paraíso/Purgatório/Inferno), o estudo defende que no namoro o “nós” prevalece sobre o “eu”, mas à medida que a relação evolui cada um dos elementos tenta resgatar o seu espaço individual, empurrando a união para a sua fase decisiva. O que não é necessariamente mau…
“Desde este encontro, não pertence mais a si mesmo. Está inteiramente possuído, assombrado por Béatrice. Aliás, ele odeia qualquer acto de pertencer que possa afastá-lo por um tempo da dominação diabólica da sua louca paixão. Ele só quer existir para Béatrice, nela, por ela, ser absorvido a todo o instante pelo seu olhar, pela sua voz, pelo seu corpo. Ele exige dela, em troca, que sacrifique tudo por ele. Tudo, e isso não é suficiente”. Roland Gori, «A lógica das paixões»
A citação acima demonstra, talvez com algum exagero, a percepção da individualidade comum na fase inicial de qualquer relacionamento amoroso: no namoro, que este estudo define como a fase de Paraíso, os amantes entregam-se totalmente um ao outro, confundindo a fronteira do subjectivo com a da pessoa amada. O “eu” é claramente substituído pelo “nós”, e por algum tempo essa é a visão que os dois envolvidos têm de uma união feliz e perfeita. Há como que uma altruística auto-diluição, em favor da construção do edifício do amor em que duas pessoas vivem como sendo uma só.
Ao fim de algum tempo, variável de caso para caso, o “eu” que tinha ficado esquecido começa a sentir-se ameaçado, ressentido. Quer reganhar o seu espaço, ser novamente dono de si, dotado de voz activa e da individualidade sacrificada em prol do conjunto. Tem então início a fase de Purgatório, cuja marca essencial é essa busca da diferenciação entre o “eu” e o objecto amado. Surge o desejo de privacidade, de um espaço individual em que cada um dos elementos do casal possa ser ele mesmo, e não apenas uma parte de um binómio. “Há a vontade de ver os amigos sem que o parceiro esteja sempre presente, de ir a eventos, jogos, enfim… tudo o que se faz de forma individual, sem que o parceiro esteja constantemente envolvido”. Nesta fase, embora os amantes ainda se amem, cada um deles “aflora o desejo de estar por vezes sozinho, para assim poder aproveitar a sua individualidade”.
A transposição da fase de Paraíso para a de Purgatório poderá não ser dialógica, ou seja, um dos parceiros poderá estar ainda na primeira, enquanto o outro se encontra já na segunda, e é por isso que este é o momento em que mais facilmente deflagra o conflito no seio do casal e até no íntimo de casa um dos elementos, pois há uma luta permanente entre o “eu” e o “nós”, entre a afirmação da individualidade e o triunfo da relação a dois. Segundo este estudo, o equilíbrio dessas batalhas será estabelecido de acordo com a dinâmica de cada relação, tendo em conta a maturidade dos envolvidos e outras variáveis externas.
A busca da liberdade, ao mesmo tempo que se tenta preservar a relação, pode levar a diversos conflitos e ao sofrimento das partes, e é então que surgem os “altos e baixos” que fazem parte de qualquer relacionamento. Os “altos” são os momentos em que os amantes tentam reviver o Paraíso, enquanto os “baixos” surgem nas alturas em que o “eu” quer emergir novamente. À luz deste estudo, esta é a fase em que será necessário maior esforço para conjugar as demandas da individualidade com as do relacionamento, e serão as ferramentas utilizadas para esse efeito a determinar o resultado desse esforço.
Citando Aldo Caratenuto, que no seu «Amar Trair», uma quase apologia da traição, afirma que existe uma necessidade de liberdade, de independência e de plenitude subjectiva que poderá mesmo levar o indivíduo a desejar trair o seu parceiro, Nívia Lanznaster Kuhn considera que será a fase de Purgatório a mais propícia a que essa traição ocorra. E é efectivamente esta fase a que determina o rumo que a relação tomará, já que o ressurgimento da consciência individual terá sempre um efeito salutar, que poderá ser benéfico (ou não) para a vida a dois. Se o casal resiste à turbulência do Purgatório mas não tomou o esperado caminho do equilíbrio, a relação “tende a ir cada vez mais para baixo, literalmente para o Inferno”.
Nesta última fase tenta-se de tudo: das promessas de mudança de comportamentos às sessões de terapia de casal, passando pelo desabafo e aconselhamento com os amigos, pelas idas ao psiquiatra ou pelo apelo à religião e à espiritualidade”. É então que se define a continuidade ou a interrupção do relacionamento, desfecho ditado por incontáveis factores, entre os quais estão obviamente as condições individuais, relacionais, sociais e culturais dos envolvidos. É nesta fase que a noção de amor se torna divergente e que muitos casais consideram ter lugar a verdadeira prova de fogo do relacionamento: alguns casais não resistem ao Inferno e separam-se; outros “dão um tempo”; outros tentam reviver a fase de Paraíso, muitas vezes enganando-se quanto à possibilidade de sucesso dessa opção. É neste momento que uns casais se arranjam e outros se desarranjam definitivamente…

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